O Natal está chegando e com ele uma preocupação: qual o melhor presente que você pode dar ao seu filho? Como pais amorosos sempre queremos ofertar algo muito bom o que, nesta época de crise econômica, pode nos levar a sacrifícios financeiros ou ao stress. Se você quer mesmo ajudar seu filho a ser bem-sucedido na vida, aqui vai uma novidade tão antiga quanto a humanidade: a criança, o ser humano em geral, é estimulado pela ‘‘falta’’ . O importante não é o que recebemos, mas o que não ganhamos. O desejo nasce da falta. Desejamos aquilo que não temos, aquilo que não somos. É isso que nos leva a estudar mais, a trabalhar mais, a amar mais.
É a falta que tem impulsionado os imigrantes a construírem uma nova vida em terras estranhas. Basta pensar um pouco em nossos pais, avós e bisavós. Quantos não vieram de tão longe, que força interior os movia? O que os motivava? Perceberam que na situação em que estavam faltava alguma coisa, por isso sonharam e trabalharam por uma vida melhor. Onde tudo está bem não há mudança, não há crescimento, não há progresso. Uma estatística norte-americana mostra que os filhos de imigrantes orientais tiram melhores notas na escola que os filhos de americanos.
A história está cheia de exemplos que comprovam isso. Um deles é o seguinte: ele foi um homem que aos 21 anos de idade faliu. Seus negócios acabaram, ruíram. Não soube gerenciar, não soube delegar, não soube fazer as contas de somar, subtrair, dividir e multiplicar. Enfim, revelou-se um fracasso empresarial. Um verdadeiro anticaso gerencial.
Um ano depois, com 22 anos, ele resolveu entrar para a política e perdeu uma eleição local. Confiou demais nos ‘‘marketeiros’’ da campanha, teve suas conversas ‘‘grampeadas’’ e divulgadas, enfim, uma desgraça! Aos 26 anos se apaixonou. Tinha decidido que precisava se casar; sentia uma vontade muito grande de constituir uma família. Porém, algo terrível aconteceu: a garota dos seus sonhos morreu. Diante desses três fracassos reagiu como qualquer um de nós: sofreu um devastador esgotamento nervoso. Teve síndrome do pânico, teve angústia, teve insônia, teve úlcera, teve tudo de mal que pode sobrevir a um homem desesperado. Passou dez anos de sua vida comendo o pão que o diabo amassou.
Com 36 anos de idade resolveu retornar à política, um pouco mais sábio e com mais vontade de ganhar. Agora a coisa ia em frente. Não foi. Perdeu a eleição para a Câmara. Levou oito anos se recuperando deste novo fracasso. Passava os dias estudando como reverter essa situação.
Quando fez seu aniversário de 45 anos, ganhou de presente uma nova derrota: havia perdido a eleição para o Senado. Não esmoreceu. Seus dez anos de dificuldades haviam lhe ensinado algo muito valioso. Tentou novamente e novamente perdeu. Mas, ao completar 52 anos de idade, foi eleito presidente dos Estados Unidos. Seu nome: Abraham Lincoln.
O que fez esse homem persistir? O que o motivava? A falta, a incompletude, a perda. É isso que está por trás de cada obra de arte, de cada best seller, de cada empresário bem-sucedido. Dostoievski só conseguia escrever sob caótica situação financeira, Beethoven compôs a ‘‘9ª Sinfonia’’ sem escutar, Stephen Hawking mentalizou o buraco negro sem poder se mover, Onassis começou a vida como office-boy, Assis Chateaubriand saiu do sertão para construir a primeira grande rede de televisão nacional.
O que fazia estes homens irem adiante? A falta, a incompletude, a perda. Se você deseja que seu filho seja alguém na vida, tenha sucesso, seja feliz, o melhor que você pode lhe dar é a falta. É isso que vai estimulá-lo a conseguir as coisas. Ao contrário, se você enchê-lo de presentes, de dinheiro, de tudo, o que o impulsionará a ir em frente? Por que lutar se ele está bem, está ‘‘completo’’? A pior coisa que um pai pode fazer por um filho é lhe dar tudo. Isto cria adolescentes entediados, sem interesse, sem garra. Às vezes até marginais.
Viva este ano um Natal diferente. Se você não está em condições financeiras de comprar um presente caro a seu filho, não se endivide, não se estresse. Vai ser muito proveitoso para ele não receber o que desejava. Se, por outro lado, você pode dar tudo a seu filho, tente deixar alguma coisa, ou tudo, faltando e com isso crie um rebuliço, uma revolução. A revolta pode ser boa de vez em quando. Não dê o Nintendo 64, a Caloi, o Motorola, não dê a Barbie, o Pentium, o Gol. Você tem medo de que pensem que você já não é mais o mesmo que tudo dava? Medo de pensarem que você não ama mais só porque agora mostra seu amor de outro jeito? Se você está querendo conversar em vez de só beber, comer e abrir presentes, se você ousa sair da rotina, se você realmente se preocupa com o futuro de sua família, dê a falta ao seu filho. A vida dele vai, certamente, agradecer-lhe muito por isto.
- LEONARDO FERRARI é psicólogo clínico, psicanalista e e consultor de empresas em Curitiba

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