Nossos traços de caráter nascem conosco e se aprimoram ao longo da vida com base em nossas experiências, tanto positivas quanto negativas, na educação que recebemos, regras que nos doutrinam, condições ambientais, etc. São as nossas virtudes e defeitos, nossa visão do outro e nossos posicionamentos no mundo. É, portanto, a soma de tudo que somos, sentimos e expressamos.
Há aqueles possuem caráter irrepreensível e são reconhecidos como pessoas de "caráter forte", líderes e respeitados. Outros nem tanto, mas se mantêm equilibrados em relação às normas de convivência e são considerados bons sujeitos sociais. Há, porém, os tipos que se destacam por serem invejosos, dissimulados, egoístas, rancorosos, mentirosos, aproveitadores da ignorância e da boafé alheia. Enfim, alguém de quem nada se pode esperar e em quem nunca se deve confiar. Por terem falhas na estruturação do caráter, são considerados como "portadores de mau-caráter. Em compensação, a essas falhas podem desenvolver artimanhas para obter prestígio, lucros e, pasmem...votos!
Esse perfil existe nos quatro cantos da terra, mas por aqui nos indignamos mesmo é com o mau-caratismo institucionalizado. Políticos maus-caracteres levaram esse ranço para dentro das nossas instituições que, por osmose, o absorveu e o aperfeiçoou. De lá, se espalhou como uma metástase maligna para os demais poderes e escoou pelas galerias, invadiu hospitais, escolas, igrejas, quartéis, presídios, sociedades de economia mista, estatais, contaminou empresas privadas, federações esportivas, etc., num constante aperfeiçoamento dos velhos corruptores e agregando novos corruptíveis. Juntos seguem dilapidando o erário público tal qual ladrões de galinhas.
A diferença está no pronome "vossa excelência" que, frequentemente, antecipa o cognome dos primeiros e o adjetivo "vagabundo" grafado antes da alcunha dos segundos. Mas ladrão é ladrão e são todos da mesma laia! Quando pegos em suas falcatruas fazem acordos de delação premiada para reduzir a pena, tornando-os, aos olhos da lei, menos mau do que realmente são.
Numa projeção do micro para o macrossistema, encontramos uma enorme similaridade nessa dinâmica nefasta. Refiro-me ao microssistema social, a família, onde um pai mau- caráter influencia os filhos por imitação do seu comportamento e, ao macrossistema, onde, por analogia, nossos "pais" são os governantes, os legisladores e demais autoridades públicas em quem deveríamos confiar e nos exemplar. Como esperar que as crias desse sistema sórdido, dirigido - salvo exceções – por maus-caracteres, possam dar exemplos cortejáveis? Tal pai, tal filho! – diz o ditado.
E quando o cidadão reclama alguém diz: "Ora, por que você não pensou antes de votar?". Pensou sim, analisou currículo, histórico dos feitos pessoais, mandatos anteriores, ficha limpa e nada encontrou que denunciasse nele a presença do "vírus corruptor" que iria se manifestar após as eleições. Outros eleitores, no entanto, conseguem reconhecê-los, mas exatamente por isso vota neles, pois identificam o seu candidato como um alter ego, aquele que fará exatamente o que eles fariam se um dia fossem eleitos. Ou seja, ajudam a eleger o mau-caráter por puro mau-caratismo. Uma moléstia que infecta nossas casas legislativas.
É claro que nem todos os políticos nem todos os eleitores são assim. Os bons sabem que são bons e prezam ter o caráter ilibado, mas o problema é que aqueles que não são costumam ter nas mangas velhos truques que nos convencem que são, pois nem sempre é fácil separar o joio do trigo. Vamos torcer para que tenhamos acertado desta vez, pois dentro dessa perspectiva, votar é atirar no escuro.

mockup