O massacre ao feminino
A visão de feminino é bastante hostilizada e isso não é uma novidade. Quando falo de feminino, não me atenho apenas às mulheres; até porque, como bem citou Simone de Beauvoir, "não se nasce mulher: tornar-se". Contudo, a concepção de feminino em nossa sociedade é análoga ao fraco, inferior e, subsequente, desprezível (procure por hinos de jogos universitários, por exemplo. A depreciação ao feminino é gritante!). A mulher brasileira só é considerada forte quando cumpre o mais do mesmo: cria os filhos sozinha, suporta os assédios diários e realiza verdadeiros milagres, como ter um emprego justo e completar os estudos.
Exemplos do massacre: conforme o IBGE, 12 mulheres são assassinadas, diariamente, no Brasil; na maioria dos casos, pelos seus pares. Segundo o GGB, a cada 19 horas, um homossexual é morto ou comete suicídio. Somos os campeões em números de assassinatos de transexuais: só em 2017, foram 179 casos, perdendo apenas para os EUA, que registraram mais de 600. Em contrapartida, consumimos mais pornografia trans no mundo, segundo dados do site RedTube. Estamos em quarto lugar dos apreciadores de pornografia infantil. Para o Banco Mundial, 36% da população feminina brasileira casou antes de completar 18 anos em 2017. São números alarmantes!
Se o massacre ao feminino fosse "apenas" dessa ordem, talvez fosse menos problemático resolvê-lo. Mas ele é fruto de uma realidade mais enraizada: a construção do estereótipo feminino a partir do seu "oposto", o masculino. Assim, piadas infames e lutas pelo direito ao respeito às jornalistas de trabalharem com esportes sem serem humilhadas em sua dignidade de gênero mais precisamente no futebol, por exemplo , demanda refletir sobre o que estrutura esse tipo de pensamento e como transformá-lo. Óbvio que não é tarefa fácil.
Contudo, certas ideias já deveriam ser abjetas, como é o caso de Janaína, mulher em situação de rua, que foi presa por tráfico de drogas e submetida a uma laqueadura sem o seu consentimento. Nas redes sociais, houve muita celebração, afinal, ela estava pondo o sexto filho no mundo, e haja Bolsa Família para sustentá-los até a maioridade. Sua condição de mulher e sua individualidade foram negadas. Fico imaginando se a notícia fosse outra: se Janaína estivesse abortando o sexto filho. O massacre seria tão desastroso quanto. E o mais triste é perceber que muitos que se denominam "pró-vida" foram os que mais apoiaram a medida imposta pelo MP, refletindo completa falta de noção aos direitos humanos. Ninguém pretende mudar a realidade das Janaínas de nosso país, mas todos esperam que elas, sem nenhuma condição ou perspectiva real, saibam cuidar de si.
O pior é saber que Janaína não é a primeira e nem será a última a passar por tal constrangimento no Brasil, ainda mais se o candidato que está à frente na corrida à presidência vencer as eleições deste ano, sendo ele um entusiasta do controle da natalidade e favorável à esterilização de mulheres pobres. As brasileiras casadas e/ou em união estável não podem laquear se não houver aval de seus maridos, podendo ser criminalizadas, caso façam. E enquanto a justiça obriga a laquear mulheres sem o consentimento destas em uma medida ignobilmente higienista e arbitrária outras precisam entrar com processos demorados para pleitearem seus direitos, mesmo tendo cumprido com todas as exigências para tal.
A que conclusão chego? De que é fácil dizer o que as Janaínas deste Brasil-varonil deveriam ou não ter feito: difícil mesmo é sê-las! E, pelo rumo que as coisas tomam, se esperarem pela ajuda e compaixão do "fã clube" do Divino ou da proteção de seus direitos pelo Estado, infelizmente, as notícias continuarão não tão boas...
EVELYN MAYER - professora de Língua Portuguesa e mestranda em Estudos da Linguagem pela Universidade Estadual de Londrina
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