O marqueteiro e o filósofo (Luiz Geraldo Mazza)
Luiz Geraldo MazzaO marqueteiro
e o filósofo
Antes os preceptores dos governantes eram os filósofos. Assim os gregos, com sua experiência na área, serviram os romanos. Hoje não há filósofos porque se alguém tratar de axiologia (ciência dos valores) no interior do governo vai ser olhado como o pessoal da Globo relativamente ao balé Kirov, como coisa de viado. Embora estes não sejam tão raros nas gestões, o que respeita um princípio, o da diversidade, e até mais numerosos do que os filósofos, essa é, como diria Aristóteles sobre a falta de asas no homem, uma carência fatal.
Sobra, no entanto, essa empulhação moderna chamada marqueteiro. Tidos como engenheiros de imagens, eles constituem uma espécie de Siate, de pronto socorro ideológico de abestalhados dirigentes. Alguns são talentosos e dentre estes os intuitivos, bem melhores do que doutrinadores com o seu linguajar especioso e americanalhado, assimiladores de manuais primários de estudos ianques, que aparecem com aquele ar de especialistas entre a ciência e a magia como salvadores, demiúrgos enfim. Lerner adora esse tipo de preceptor, ainda mais quando, em meio a uma explicação séria, dá uma de Brecht e conta uma anedota. Vira gênio na hora e é assim entronizado.
Percebe-se que um governo que acredita mais na manipulação das mentes do que na efetiva intervenção nos acontecimentos é um maná para essa gente. Tal como angustiado existencial em relação ao psicanalista, um poço de petróleo que garante o presente e o futuro, eles são indispensáveis notadamente em véspera de eleições. No tratamento que Lerner está dando ao caso da violência, dá para perceber o dedo dessa fauna: o governador entra na Polícia Militar e mostra que a turma não está e, portanto, conclui, silogisticamente, já que não se os vê no quartel é porque estariam nas ruas. Só que o povo não os vê na rua e supõe que estejam coçando no quartel, tudo correndo à conta da generalização e em resposta ao malho publicitário.
No governo Requião, quando se tornavam frequentes os assaltos a ônibus de turismo no oeste, a resposta, ao invés de ser dada com a presença física das tropas na região, veio num institucional ridículo da TV em que no interior de um helicóptero o delegado José Maria Correa, com blusão de couro e os cabelos soltos ao vento como um galã de filme policial cafona, observava tudo lá de cima. Em seguida o próprio governador apareceu por lá no comando de blitz e levando, ele próprio, armamentos. O virtual para enfrentar o real, convergência de estilos entre o governo atual e o anterior.
Que saudades do tempo em que havia filósofos no governo como o Ernani Reichman, o maior kierkgardiano do Brasil. Em lugar deles temos a fauna dos prestidigitadores e anedoteiros, os primeiros nutrientes do fascismo e estes uma versão do Chalaça ou do bobo da corte nestes dias de tédio.AFORÍSTICO
Não se pode dizer que nosso governo seja a favor da lógica de mercado: afinal, a única livre iniciativa para valer por aqui é a do crime.
AXIOMASegundo Aníbal Khury, a reeleição corre risco diante do pedágio, obra de um seu aliado, o Herwig, que reparou o prédio da Assembléia incendiado, a segurança que domina nomeando e destituindo comandos, e o Banestado, onde o seu filho tem posto desde o governos passados.
GLOSAQuando o governador tirou o Osvaldo Santos da Leasing Banestado estava iniciando um processo de saneamento? Não, porque acabou promovido.
BIZARRICEMarcos Tozzi, repórter da CBN, chamou a gripe que toma conta de Curitiba, e provoca disenteria, de pedágio. Pouco depois de fazer a comparação, mostrava sinais de resfriado e o chamaram de Marcos Tosse.
SPRAYNa TV Bandeirantes, programa Ricardo Chab, um flagrante em Almirante Tamandaré de um cidadão, aí seria mais apropriado chamar de elemento, que na maior das folgas cobrava proteção substituindo a polícia inexistente.- Como se vê, a moral do pedágio toma conta de tudo: cobra-se pelo que o governo deveria fazer em bairros que exigem propina para a passagem de carros de gás ou de refrigerantes também em Curitiba. O exemplo começou em baixo e acabou legitimado lá por cima. A tabela de preços é um escândalo. S.O.S., Justiça.- Um assessor informal do presidente da Assembléia, Rubinho Ferreira, estava em pânico anteontem à noite: sua filha acabara de ter o carro roubado ao ser assaltada diante do Hospital São Lucas com o marginal intimidando-a com um revólver.- Dois dias antes o ex-jornalista, hoje empresário, Luis Renato Ribas, pioneiro do vídeo em Curitiba, levou um tiro de raspão na boca.- O delegado Aprígio Cardoso, o Patão, hoje em Maringá, teve seu carro roubado em Curitiba. Ele e o Rubinho deveriam pedir providências ao amigo comum, Aníbal.- No domingo, pela manhã, hora de grande movimento, um assalto no Alameda Fast Grill na Alameda Cabral.- Eis uma razão forte para incrementar as vendas do Alfaville, condomínio sofisticado e fechado em implantação, já com apoios de merchandising na Globo: quem tem grana mora em feudo para fugir da selvageria.- Álvaro Dias, preocupado com a síndrome do Rio de Janeiro (Marcelo de Alencar teve que tirar o time para fortalecer César Maia do PFL), precisa de audiência urgente com FHC. Ele está vendo o governo deteriorar tanto que crê ter mais possibilidade do que Requião e ainda mais se disputarem os três.- Prédio ao lado da Catedral de Curitiba, pertencente à Santa Casa de Misericórdia, deve, junto com a sede histórica da instituição, entrar no rolo imobiliário para a construção do novo hospital. O arquiteto Elgson Gomes, uma das maiores autoridades do Brasil na arquitetura especializada, cuida do projeto.
FOLCLOREFrasista, Lerner parodiou a sentença sobre a mulher de César que não deve apenas ser honesta como parecer, ao referir-se à segurança. Só que no seu estilo, vale mais a sensação de segurança, via anúncios, do que a segurança mesmo. Já se tem em Curitiba a sensação de que a cidade é ecológica e modelo, e quanto ao seu governo, a sensação de que está fazendo acontecer. Área de segurança é exemplo clássico. Denorex: parece, mas não é.
EPIGRAMAUm tema para a poesia praxis e poema processo: contestar é o anverso de coonestar.
CROMOFrio, umidade, bruma: Curitiba parecia emergir de uma foto em sépia, recuperada pelo fotógrafo Cid Destefani.





