A campanha eleitoral em curso está evidenciando um fenômeno que representa um avanço na etologia nacional: o aumento expressivo da taxa de racionalidade. Em função disso, candidaturas mudam de posições, alterando significativamente o mapa da previsibilidade desenhado por marqueteiros e publicitários que enxergam a opinião pública como um território de consumidores dispostos a comprar firulações cosméticas e televisivas. Para eles, dando-se uma injeção de matéria plástica no corpo social, a reação positiva virá em cadeia. Ocorre que candidato não é sabonete e ‘‘pessoas célebres’’, fabricadas pela televisão, não são necessariamente grandes pessoas. Celebridade fabricada é vilania.
A política, desde os tempos antigos, sabe-se, é um teatro de vedetes. Luis XIV, aquele que fez de seu reinado um show, espalhando por toda a parte o fulgor de seu emblema, um sol radioso, dizia: ‘‘Os povos gostam de espetáculo; com isto dominamos seu espírito e seu coração.’’ Os imperadores romanos davam pão e circo ao povo. Desde tempos imemoriais, a política tem sido um exercício de sedução. Na expressão do poeta Ovídio, governar é mais seduzir do que convencer. Seduzindo, Hitler se transformou no maior carrasco da história contemporânea. Os povos, felizmente, têm evoluído, talvez não no ritmo e intensidade desejados. A educação para a cidadania, reconhece Norberto Bobbio, tem sido uma das promessas não cumpridas a contento pela democracia. Avanços, porém, têm ocorrido.
O marketing chegou ao clímax com a performance esportiva de Fernando Collor como presidente da República. Ele saturou o estilo vedetizado de governar. De lá para cá, os produtos sintéticos, fabricados às pressas, começaram a criar desconfiança. Pitta, produto do marketing, deu no que sabemos. A sociedade foi vacinada, não em sua totalidade, mas a pedrinha jogada no meio da lagoa está criando marolas que chegam às margens. A taxa de racionalidade das classes médias está se aproximando das classes sociais mais pobres. A pronta submissão à tirania, efeito do ilusionismo político, está, felizmente, diminuindo no País.
O povo percebe quando o discurso, encoberto por tintas e disfarces, falsifica a vida e inverte o real. Nunca foi tão desejada a passagem do herói, com ares divinos, para o homem simples, próximo, capaz de cumprir o que promete. A crise, sabe-se, deflagra a necessidade de ídolos. Na angústia, a coletividade se refugia na figura tutelar do pai protetor. Mas os ‘‘heróis’’ de hoje estão quase todos cobertos pela lama da desconfiança. E os heróis de ontem, como o último deles, Ayrton Senna, são apenas lembranças ternas no nosso cantinho da saudade. Por isso, quem quer ser herói, que tenha cuidado para não descumprir a sagrada lição das Escrituras: ‘‘Nenhum homem, por maior esforço que faça, pode acrescentar um palmo à sua altura’’ e alterar o pequeno modelo que é o corpo humano.
A esta altura, já se pode dizer que há um perdedor na campanha: o marketing da extravagância, do delírio, do vedetismo exagerado, do discurso caricato. O povo está à procura de um perfil que agregue honestidade, respeito, equilíbrio, autoridade, experiência, despojamento pessoal, simplicidade. Quem tiver tais valores, favor apresentar propostas. Mas, como diz a linguagem popular, ‘‘sem forçação de barra’’. É oportuno lembrar uma historinha de um russo que, visitando o Jockey Club de Paris, pediu aos anfitriões a definição de um cavalheiro. Seria um título herdado, uma casta ou uma questão de dinheiro? Eis a resposta recebida: um cavalheiro revela suas qualidades sem ser necessário dizer que as tem. Elogio em boca própria, diz o ditado, é vitupério. E o marketing do vitupério é um acinte à cidadania.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário titular em São Paulo e consultor político
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