O MAPA DA MISÉRIA
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de agosto de 2002
Marcos Espíndola<BR>Reportagem Local 
A cena é tão chocante quanto indigna para quem o protagoniza. O menimo remexe uma caçamba de lixo e se refastela com as sobras de uma torta. A julgar pelos seus parcos 35 quilos distribuídos em 1,53 metro de altura, ninguém dá mais que 10 anos de idade. Mas já se foram 15 anos na vida de S.A.P., que há três anos trabalha como catador de papelão. Ele garimpa o lixo alheio para matar a própria fome, a dos pais e de mais quatro irmãos menores.
A miséria em Londrina já atinge uma segunda geração de londrinenses, como S.A.P. São filhos de pais pobres, nascidos em Londrina e que hoje são nada menos que 32% da população residente em assentamentos e áres invadidas.
Cerca de 60% deste contingente vieram de cidades vizinhas. Ou seja, a maioria quase absoluta (92%) da população favelada do municípo é formada por pessoas nascidas na região metropolitana de Londrina. Esta é a conclusão intrigante de uma pesquisa de campo elaborada pelo curso de direito da Universidade Norte do Paraná (Unopar) e intitulada ''Resgate da Cidadania, uma Questão de Direito''. Em um ano e meio, estudantes coordenados pelo sociólogo João Batista Filho entrevistaram 5.354 famílias em 12 comunidades residentes em favelas, assentamentos e áreas de ocupações do município. Das pessoas entrevistadas, apenas 8% acusaram ser de outras regiões do Paraná e demais Estados.
Estima-se que pelo menos 160 mil pessoas, cerca de 35% da população londrinense, vivem à margem, ou seja, em situação de risco social. São famílias cujo rendimento médio do chefe não supera os dois salários mínimos. ''Caiu-se o mito de que a pobreza e a miséria em Londrina é fruto de um processo migratório. O cidadão favelado aqui nasce pobre, vive pobre e pode morrer pobre'', avalia Batista Filho. Há 27 anos este professor com Phd em sociologia na França estuda o fenômeno da favelização de Londrina, segundo ele agravado a partir da década de 60.
''Essa população vive uma verdadeira exclusão. Estão fora da cidadania'', destaca o estudioso. A terceira maior cidade do Sul do país vive de contrastes dentro dos seus próprios limites territoriais. Um centro arborizado, desenvolvido e ocupado por prédios, shoppings e áreas de lazer, que parecem uma ilha em meio a 57 áreas ocupadas por uma população carente, vivendo em casebres e cheia de incertezas. ''Não estudo faz dois anos. Parei na quarta série. Meus pais vivem da coleta também então tenho que garantir mais uns R$ 150,00 que é para comprar a cesta básica'', diz o desesperançado S.A.P.
O tênis novo, que S.A.P gostaria de substituir pelo esfarrapado calçado que usa no dia a dia, terá que ficar para depois, já que as sobras de dinheiro quando sobra serão usadas para pagar as ferraduras gastas de ''Trouxo'', o cavalo de oito anos, que pela aparência aparenta estar pela hora de se aposentar. ''O almoço é na xepa mesmo. A gente passa nos restaurantes, final de feiras e coleta algumas coisas. O pessoal dos restaurantes sempre ajuda a gente'', diz o garoto, que enfrenta uma jornada diária que começa às 7 horas, quando deixa a casa no Jardim Santa Fé, na zona leste de Londrina, e vaga com a carroça pelas ruas do centro até por volta de 12 horas, e só retoma às 17 horas, depois do descanso do ''Trouxo'' para encerrar o batente às 23 horas.
A pesquisa emoldura em Londrina o retrato da situação social em que vivem as populações carentes das grandes cidades brasileiras. Gente que na sua maioria (83%), segundo aponta o estudo, é semi-analfabeta ou ''mal consegue ler uma bula de remédio ou uma carta'', como constata o sociólogo João Batista Filho. Mais de 90% vivem com uma renda que não supera dois salários mínimos e meio. O emprego também é algo ainda intangível para outros 44% que se consideram desempregados, ou seja, sem nenhuma fonte de renda. Apenas 15% tem a carteira de trabalho. ''Os 56% que se dizem empregados vivem na informalidade, da cata do papel e bicos'', avalia o coordenador da pesquisa.
Os números impressionam mais ainda quando se constata que 71% destas 5.354 famílias não têm registro de nascimento, e 84% também não têm a carteira de identidade. ''Eles não existem. Só se sabe da existência de alguns pela ficha policial, que é o único registro oficial que dispõem. Isso é um verdadeiro estupro da cidadania desta população'', adverte Batista Filho. ''Isso cresce na mesma projeção geométrica da marginalidade. A violência urbana, juntamente com o uso das drogas é uma saída, ainda que indigna, para eles terem um ganho'', constata o pesquisador.
O contato com esse cotidiano da pobreza em Londrina mobilizou cerca de 40 acadêmicos, professores e advogados da instituição de ensino superior, que criaram o ''Mutirão da Cidania''. Há três meses eles se deslocam às favelas da cidade para prestar assessoria advocatícia para as comunidades de baixa renda. São orientações e auxílio para a retirada de documentos, encaminhamento de causas, aposentadoria, entre outros serviços. ''No primeiro e terceiro sábados de cada mês, o Mutirão da Cidadania atende as populações da Zona Sul na Biblioteca Virtual no Jardim Franciscato 2'', orienta Batista.


