Há três anos a tradicional ''xepa'' de ambulantes em busca de restos de frutas e verduras nos pátios das Centrais de Abastecimento do Paraná (Ceasa), em Londrina, foi substituída pela garimpagem de voluntários, devidamente identificados por jalecos, que coletam doações para 136 entidades sociais da grande Londrina. São as sobras da comercialização, que devidamente acondicionadas pelos atacadistas são levadas para o armazém da Ceasa, onde passam por uma lavagem e triagem até embarcarem nos veículos das entidades.
Só neste mês estão sendo movimentadas diariamente na Ceasa cerca de 4,5 mil toneladas de produtos. De janeiro a junho deste ano, a Ceasa distribuiu 289 toneladas de sobras de alimentos. Parte desse ''garimpo'' vai, por exemplo, para o sopão da Comunhão Espírita Cristã de Londrina, que duas vezes por semana atende a 500 pessoas carentes da Vila Franciscato 2.
São cerca de duas mil pessoas que se alimentam do sopão. Algumas famílias, levam em baldes a sopa para comer durante a semana. ''É tanta gente que dá dó. As vezes chega a faltar. Você vê que a sopa acabou mas a fila de espera não'', relata a voluntária Maria Eloisa Ferreira, 53 anos. Ela é diretora da Escola-Oficina Pestaloze, onde o sopão é feito e servido.
A cada semana a entidade recebe entre 12 e 15 caixas com frutas, verduras e legumes que abastecem os cinco panelões de sopa na cozinha da entidade, mantida pela Comunhão Espírita Cristã. Desde 1997 o sopão ajuda a matar a fome de famílias pobres da Zona Sul. São 250 litros de sopa, que além dos legumes recebe o reforço de partes de frangos doadas por uma empresa da cidade, além de ingredientes fornecidos pela Secretaria Municipal de Ação Social.
Todas as segundas e sextas-feiras, a partir das 15 horas, uma fila que logo vira o quarteirão da escola se forma. São crianças, mulheres, homens e idosos segurando baldes e panelas. Mas a movimentação na cozinha da escola começa cedo. Às 7 horas duas voluntárias do bairro chegam ao local e começam a cortar os legumes, as carnes e preparam os ingredientes. Outras duas senhoras iniciam o preparo do sopão que enche o local de um aroma tentador. Tanto esforço é recompensado com o sorriso largo das pessoas que se alinham na fila para levar a sopa.
''No início nós distribuíamos a sopa apenas um dia na semana. Mas a necessidade desse povo nos fez ampliar em mais um dia a distribuição do sopão'', informa Maria Eloiza. Marta Santos, 40 anos, aguarda paciente a hora de pegar o sopão. Espera essa que anima a guardadora de carros, quando o aroma da sopa ultrapassa os portões da escola. Ela é a segunda e aproveita para encher dois baldes com a sopa, que matará a fome do marido, dois filhos e da mãe. ''O outro balde é para uns parentes meus que têm vergonha de vir buscar'', comenta Marta.
Com o marido, a mãe e os filhos, Marta divide um barraco no Jardim Novo Perobal. Ela e o marido dividem o sustento da casa, com os R$ 320,00 que ganham como guardadores de carros. Filha de Londrina, Marta vê na sopa ''uma graça divina''. ''Nossa, e como ajuda essa sopa'', diz Marta, que também garimpa com o marido sobras nas feiras do centro da cidade.
O menino Gabriel, 10 anos, mal consegue suspender a panela de alumínio cheia de sopa. ''Tá quente'', brinca com dois colegas, apressando-se para levar a janta para casa. Lá dividirá com a mãe e os avós.

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