O mapa da corrupção - Padre Roque
Padre Roque
Estarrecido, indignado, decepcionado. Não há outra forma de se reagir às incontroláveis denúncias de corrupção que jorram aos borbotões nos jornais e noticiários da televisão. Tamanha é a dimensão do problema que se torna impossível localizar claramente o foco do mapa da corrupção deste País. Só o que se pode dizer, com certeza, é que, lamentavelmente, a desonestidade no trato da coisa pública atinge dimensões poucas vezes vista na história política do Brasil. E, o que é mais grave: afeta praticamente todas as esferas de poder, em quase todos os quadrantes do País. A corrupção deixou de ser apenas descendente, do topo para a base do poder político, para se tornar multidirecional.
O senador brasiliense Luiz Estevão (PMDB) está envolvido numa fraude que pode chegar a R$ 169 milhões. O ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, é acusado de desvios inexplicáveis de recursos públicos para o pagamento de precatórios em vários Estados. O ministro do Esporte e Turismo, o paranaense Rafael Greca de Macedo, é acusado de ter sido beneficiado com a cobrança de uma propina de R$ 6,5 milhões, supostamente destinada ao seu caixa de campanha ao governo do Paraná em 2002, em troca da liberação dos bingos. Na Câmara Federal, o ex-deputado piauiense Hildebrando Pascoal (sem partido) é cassado; os deputados Augusto Farias (PPB-AL) e José Aleksandro (PFL-AC) são indiciados. No Planalto Central, autoridades públicas são acusadas de estarem cobrando comissões para garantir verbas de organismos financeiros internacionais.
Nas Assembléias Legislativas e Câmaras de Vereadores, não é diferente. No Maranhão, o deputado estadual José Gerardo (PPB) foi cassado por unanimidade e afastado da vida pública embora poucos dias antes afirmara nada ter a declarar em depoimento à Câmara Federal. Na Câmara de São Paulo, o vereador Vicente Viscome foi cassado, sob pesadíssimas acusações de corrupção. Na Polícia Militar do Paraná, o coronel Luiz Fernando de Lara deixou o cargo em meio a denúncias de irregularidades na compra de jaquetas para os policiais. O mais grave é que estas denúncias também atingem, pasmem, inclusive o até então intocável Poder Judiciário, que se perdeu em denúncias cabeludas como a da construção do TRT de São Paulo pelo juiz Nicolau dos Santos.
Mas isso nada tem de extraordinário. O pior vem agora: as denúncias de que a defesa de Padilha e Greca em seus depoimentos no Senado teria sido articulada pelo próprio presidente da República, com o apoio dos deputados dos partidos aos quais pertencem os ministros (PMDB e PFL) e ainda pelos caciques do PSDB, que aceitou a difícil e ingrata tarefa a contragosto. Mantido este deplorável cenário de corrupção do Poder Público, pergunto: onde vamos parar, afinal?
Não que a existência da corrupção surpreenda. O que surpreende é a sua frequência, a sua amplitude e, sobretudo, o perfil dos corruptos. Ela também não é uma novidade. Recordo-me de uma famosa frase de Cícero, no Senado romano: Ó tempora, ó mores Ó tempos, ó costumes, referindo-se à nobreza romana. A corrupção, portanto, é milenar. Se quiséssemos regredir ainda mais no tempo, poderíamos encontrar no peripatético Sócrates indícios e provas de que a corrupção é velha companheira da civilização humana. Ela perpassa a Idade Média, quando papas, cardeais e bispos eram acusados, condenados e, muitas vezes, enforcados em praça pública porque eram corruptos.
Mas tudo isso aconteceu no passado, quando a democracia e os instrumentos de fiscalização do Poder Público ainda eram apenas tênues imagens no horizonte. Hoje, já não se admite mais este tipo de prática. A própria sociedade brasileira deixou isto bem claro quando, capitaneada pela CNBB, conseguiu aprovar no Congresso a emenda de iniciativa popular que propõe a adoção de regras mais rigorosas para combater a corrupção eleitoral. Ou quando, em pesquisa encomendada pela Confederação Nacional dos Transportes junto ao Instituto Vox Populi, atribuiu nota 1,9 (numa escala de 0 a 5) às ações do governo federal no combate à corrupção no Brasil.
O compromisso público assumido pelos representantes do povo torna totalmente equivocado querer, como fazem muitos políticos, ocultar o que é inocultável. O Congresso, que deveria ser o mais legítimo propugnador da moralização do País, deveria começar dando o exemplo e colocando no olho da rua o deputado ou o senador que recebe 30% sobre cada verba que consegue obter para os municípios. Parlamentares desta estirpe não honram a cadeira na qual sentam. O mesmo vale para os engravatados senhores da Esplanada dos Ministérios.
Sou quase um neófito em mandado eletivo, mas sou crescido na ética, na seriedade e na honestidade. Daí porque posso dizer, em alto e bom som: não se pode admitir a desonestidade dos homens públicos. A criminalidade rouba do Brasil o equivalente a 10% do PIB por ano. Em dinheiro, seria algo como R$ 80 bilhões anuais, como denunciou o professor Steven Levitt, um especialista no chamado custo econômico do crime, durante seminário promovido pelo Ibmec. Não é possível que os parasitas do povo brasileiro continuem causando todo este prejuízo ao País e, mesmo assim, continuam trafegando tranquilamente pelas ruas com seus reluzentes carros importados.
Por isso, conclamo o povo brasileiro o mesmo povo que ajudou a cassar os mandatos de Fernando Collor, dos anões do Orçamento, de Hildebrando Pascoal, de José Gerardo a se engajar conosco nesta cruzada em defesa da moralidade pública que a CPI no Narcotráfico, aliada à Igreja e aos setores progressistas da sociedade, está desenvolvendo. Faço um apelo para que os homens públicos que atuam nas instituições dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário busquem a cura desta chaga social que perpassa o tecido social brasileiro. Ou nos levantamos para exigir a apuração de todas estas denúncias e a punição dos corruptos ou então seremos vítimas de uma grande empulhação. Não deixemos que o Brasil regrida no tempo, transformando-se em uma pseudo-democracia, uma republiqueta terceiro-mundista onde não há justiça e nem cidadania.





