O maná dos pobres
Segundo a propaganda, que sustenta feitos do Plano Real, o maná dos pobres era representado pelo iogurte e o frango (custava menos de R$ 1) e mais o pãozinho e o cafezinho. De todos, porém, o mais forte era o frango por seu valor nutricional. Além disso desmontava aquela piada clássica de que o pobre só come frango quando um dos dois está doente. Acrescento: também quando os dois, simultaneamente, estão doentes.
Em Curitiba um dos frequentadores da Boca Maldita, famoso por discutir em altos brados e sufocar a roda com seus argumentos, os mais incríveis, o Tuca, que faz os mais estranhos exercícios de sofismas, derrubou a façanha de FHC com uma razão fulminante: o de que o consumo de frango melhorou a nutrição dos excluídos, mas aumentou os casos de ácido úrico e gota. Explicava por que no fato de os pobres se atirarem com tal volúpia na carne que esqueciam de tirar a pele que retém maior quantidade de ácido úrico. E passava a descrever, como se compuzesse um mural de Diego Rivera e cenas de Portinari, os pobres com as pernas inchadas, em legiões, por causa do problema.
Resultado: quem estimula a venda de frango, deveria ocupar-se também de sugerir aos consumidores o chá de ''chapéu de couro''. Como toda a fábula exige o conceito, o fundo moral, o Tuca a explanava com sua risadinha que poderia servir de sonoplastia para a novela ''O Beijo do Vampiro''.
HEMINGWAY CATARINA O escultor Nelson Matulevicius (fez a cabeça de Ulysses Guimarães, de Munhoz da Rocha, de Tancredo Neves) contou emocionado à sua volta à cidade natal, em Rio do Cedro. E narrou sua epopéia que, guardadas as proporções, tinha uma semelhança distante com o pescador Santiago, aquele de ''O Velho e o Mar'' que fisgou um gigantesco marlim e não conseguiu trazê-lo intacto depois de ciclópicas provações no oceano com os predadores reduzindo o troféu a uma carcaça.
Nelson procurou o poço de preferência de sua juventude e tentava na memória rever um ambiente que não mais existia. Afinal a água não era a mesma, apesar do que disseram Parmênides e outros filósofos sobre as aparências, e já não existiam tantos cardumes de lambaris como antes. Assim mesmo ali permaneceu e recordando as grandes pescarias de duas ou três décadas passadas até que sentiu o puxão e viu a peninha afundar como uma flecha. Não era jaceraia e nem um daqueles bocudos pegajosos. Tratava-se de um autêntico rabo vermelho que chegou em determinado momento (ou ele teria imaginado?) a sair fora do espelho dágua como se fosse uma piraputanga ou um um douradinho do Pantanal.
Quando trazia a peça para o samburá viu a cena incrível de uma saicanga, também gigante, singrando as águas, e arrancando boa parte do lambarizão. Aí o guri, que estava ao lado do barranco, gritou ''êta itajimbocu danado!''
SONOTERAPIA Do Nelson Matulevicius, também chamado Cabeleira, tem outra. Ele chegou cansado numa pensão de frequentadores do Centro de Gravuras. Deitou-se na maior das folgas numa das camas e dormiu profundamente. Seus companheiros, pintores e escultores, armaram-lhe uma perfídia: pintaram os vidros da janela de preto-betume. Nelson acordava e via tudo escuro e pensava que era noite e assim permaneceu dois dias num caso de sonoterapia forçada.
APELIDOS O irmão do Nelson, o fotógrafo Sérgio, um gênio da arte já falecido, foi fazer uma cobertura de ''quebra-quebra'' em Paranaguá no fim dos anos 50 por causa da falta de energia que só Ney Braga, a partir de 1961, resolveria. Viajou no toco duro, segunda classe, de trem e ficou com as pernas dormentes por causa da posição em que permanecera. Com seu rosto mongólico, redondo, batendo os pés no chão para ativar a circulação, perguntava onde era o quebra. Na segunda roda já tinha o apelido de ''robô curioso''.





