Não é um mal desejar as coisas. O mal está no abuso que se fizer do uso ou do desuso delas. Comer e beber demais é abuso e uma agressão ao organismo. Molestar o corpo com fumo e drogas, assim como expor desnecessariamente a vida, é um delito. Ter excesso de coisas sem dar-lhes utilidade é um contra-senso, porque muitos que não as possuem fariam delas bom proveito. Os exageros quebram a lei natural e constituem uma forma de brutalidade. Pela extravagância de alguns, certas coisas sobram para muitos e escasseiam para outros.
Não se deve reter coisas que não se usa e que mofam nos armários. Se, ao invés de doá-las, quisermos vendê-las a quem as deseja, não há mal nisso, importando que se lhes dê função. Se ninguém puder comprá-las, por falta de meios, melhor então é dá-las a alguém que lhes dê serventia. Porém, passar adiante objetos imprestáveis ou danificados só para desocupar lugar, é fazer uso dos outros para acolher nossos estorvos.
É, da mesma forma, um abuso dar coisas ou dinheiro aleatoriamente a alguém que deles não precisa, porque reside aí também um desperdício. Melhor será dar um destino mais útil para esses bens, que são dádivas. Esbanjamento desordenado não é desprendimento e sim falta de juízo. A avareza e a excessiva liberalidade são irmãs gêmeas e capazes dos mesmos resultados nocivos.
A riqueza não é um mal quando honestamente amealhada, mas é também uma provação. Há que dar-lhe o destino de semear mais riqueza, beneficiando ao maior número possível de pessoas. Se, ao praticar um bom ato, o sentimento é puro, tanto melhor, porém se não for, mas o resultado final beneficiar alguém, já terá valido. Da mesma forma que, ao se fazer um sacrifício, ele tem de proporcionar um bem a alguém ou a alguma causa, do contrário será um inutilidade.
Auto-flagelar-se por nada e expor-se a risco de acidente ou morte, apenas para exibir-se e conquistar recordes, é um culto ao ego e um desperdício de tempo e de energia, e ademais uma forma de suicídio. Tudo o que se faça deve valer a pena e, ao menos, dar alegria a alguém. Assim como privar-se de um bem ao alcance não é nenhum mérito se isso não servir para algum bom propósito. Evitar fazer um mal a outrem já é um bem, mas isto ainda é menos que ir um pouco adiante e praticar uma boa ação, quando surgir a oportunidade.
E, pelo que se faça, não se deve esperar agradecimento, porque a busca de gratidão é desejar uma paga. Porém é muito bom que, quem for agraciado com algo, agradeça. Só agradecer pela vida já é um salutar procedimento. Mas se ninguém agradecer, não há que haver por isso mortificação. Cada qual que faça a sua parte e agradeça pelo dom de faze-la.
Os seres humanos existem para viver em sociedade, porque são interdependentes e precisam-se mutuamente, por isso não deveriam molestar-se uns aos outros, embora tanto o façam. Isolado, o homem não se doa e só usufrui, eis que, para sobreviver, necessita de coisas que os outros lhe façam. Naturalmente que é uma tolice alguém proclamar que não precisa de ninguém. O entrelaçamento social é requisito do progresso humano, mas cumpre estar vigilante para não fazer desses avanços uma transgressão das leis naturais.
E em tudo que se faça há que haver um toque de beleza e de audácia, porém sem perder de vista o senso do equilíbrio. Há grandeza também em pequenos gestos, destes que se pratica sem mesmo perceber, porque eles irrompem expontâneos. Preciso também será tomar cuidado com a maledicência, porque ela se transforma num vício e está presente não apenas nas palavras mas também na mudez da mente. Disseminá-la, ou posicionar-se em silêncio quando a ouvimos de alguém, é uma forma de concordância e cumplicidade.
Há uma natureza espiritual e um senso latente de solidariedade no homem, mas esses atributos ficam adormecidos, às vezes durante uma vida inteira, sem uso e sem destinação, o que caracteriza também um desperdício, um precioso valor perdido. É preciso vigiar sentimentos, palavras e atos, a todo instante, até que essa prática se transforme em hábito natural. O resultado é que isso trará felicidade e fará felizes também os que estão ao redor.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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