A absolvição de Renan Calheiros pelos seus pares não surpreende, porque coisas do gênero são comuns na vida pública brasileira. O mal maior é a podridão permanente que viceja no círculo parlamentar e por extensão em muitos pontos da esfera governamental, tanto em Brasília como nos Estados e municípios. No caso específico do presidente do Senado, ele ainda será objeto de julgamentos nos tribunais, por conta de várias acusações, o que manterá o foco das atenções nos parlamentos em Brasília. Enquanto isso ocorrer, o Senado pouco produzirá de útil e a comunidade parlamentar ainda ficará centrada nessa questão, tão de seu agrado, porque os políticos se nutrem das coisas putrefatas que envolvem seus próprios companheiros (pois em tudo há disputa política) e sobretudo os adversários.
Quantos dias foram gastos, ultimamente, para discutir o caso Renan! E não foi diferente dos tempos imediatamente anteriores, porque os parlamentos só têm se ocupado de CPIs, acusações e contra-acusações, em torno de histórias de corrupção no próprio meio. Assim é na capital da República, assim em casas como a Assembléia Legislativa do Paraná, onde agora se discute o caso da sogra fantasma. Ao Governo interessou a absolvição de Renan em primeira ''instância'' e para isso instruiu a companheirada no Senado a omitir-se e assim livrar o homem de cassação. Porque Renan é do time dos aliados, e embora fraquejado no momento, é ainda uma forte ferramenta para, por exemplo, articular a aprovação da continuidade da CMPF. Um tributo que rende a polpuda receita de R$ 36 bilhões anuais. Dinheiro que sustenta (inclusive) a farra pública e as barganhas políticas, mesmo que algumas de forma lícita.
O líder do PSDB Arthur Virgílio chamou de delinquentes os que se isentaram de votar, mas no condomínio parlamentar são todos inquilinos e se abrigam no mesmo teto. Significando que, ressalvadas as pouquíssimas exceções, todos ali articulam-se harmoniosamente entre si quando lhes convém. Tanto que, durante a sessão do Senado, Renan utilizou-se da chantagem para ameaçar companheiros de tornar públicos fatos escusos relacionados com a vida deles. Se ele ameaça, é porque tais fatos devem existir, e se tem se omitido de dizer isso - eventualmente sendo de interesse público - é porque pactua com o que esconde. Mas não poupou a conterrânea e rival, a ex-senadora Heloisa Helena, declarando que ela sonegou R$ 1 milhão de impostos, em Alagoas.
Os políticos se entredevoram ou acobertam irregularidades mútuas, segundo as conveniências. Hilariante foi a declaração do presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT), ante a ação de seguranças que impediram a entrada de deputados no recinto da sessão do Senado, esbravejando que ''ninguém pode sofrer violência no Congresso''. Mas os congressistas a praticam contra o povo, como comumente o fazem, por todas as formas sobejamente conhecidas. Certo é que a eventual punição de Renan não seria sinônimo de saneamento do Congresso. O que acaba de acontecer é apenas mais uma evidência de que é preciso reformular tudo na vida pública brasileira. Porque, no exato momento em que o leitor corre os olhos por esta linha deve estar ocorrendo no âmbito governamental alguma irregularidade.

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