O mal está feito
A caminho da Eco92, no Rio, tive que passar uns dias em São Paulo. Depois de realizar os exames médicos determinados, comemorei minha boa forma física com o velho amigo Severo Gomes. Fomos jantar na noite paulista, acompanhados das mulheres, e discutimos política o tempo todo. O depoimento de Pedro Collor havia sido publicado pela revista Veja na semana anterior.
A propósito dessa novidade, Severo cometeu a frase que guardei na memória: O mal está feito. Não há retorno. Fernando Collor, então presidente, esperneou, estertorou, argumentou, foi diversas vezes à televisão para, em rede nacional, protestar inocência, mas acabou saindo do Planalto. Sofreu o processo de impeachment. Tentou a última jogada da renúncia ao mandato, mas acabou cassado por dez anos.
A confusão que lavra no Senado me trouxe à memória aquele jantar paulista. Foi a última vez que me encontrei com Severo e Maria Henriqueta. Ele viriam a falecer em 12 de outubro de 1992 no desastre de helicóptero que também matou Ulysses Guimarães e Dona Mora. Guardei a frase: o mal está feito. Hoje, também, o desastre já aconteceu. O senador José Roberto Arruda (PSDB-DF) deve ter percebido o detalhe. Melhor contar toda a verdade. Resguarda a dignidade ou o que sobrou dela.
O ex-senador Luiz Estevão não percebeu, no processo de cassação que sofreu, que sua arrogância o tinha levado a entrar em território desconhecido e perigoso. Mentir ao Senado não é atitude digna de um integrante da Câmara Alta, além de abrir a possibilidade de cassação do mandato por quebra de decoro parlamentar. Foi o que ocorreu com ele. Se, ao contrário, tivesse admitido seu relacionamento comercial com a Ikal, ocorrido antes de assumir o cargo de senador, provavelmente estaria até hoje frequentando o plenário revestido pelos tapetes azuis.
A mistura de arrogância e vaidade costuma fazer vítimas entre os políticos brasileiros. Eles vão além do ponto de retorno, julgam-se acima do bem e do mal. Decidem que não são alcançáveis pela lei. E, normalmente, levam um tombo de dar pena. Há uma longa lista, recente, de reputações demolidas pela simples revelação da verdade.
Além de presidente da República, senadores, deputados há também um presidente da Câmara. Vai ser difícil juntar os cacos do que sobrou do antigo prestígio do Senado. Acusações de parte a parte produzem apenas mal-estar. Os inquéritos estão correndo nas instâncias próprias. O mal está feito.
- ANDRÉ GUSTAVO STUMPF é jornalista em Brasília
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