O mal das manifestações de ira
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de dezembro de 1996
Walmor Macarini 
Começando por nós, jornalistas, as pessoas têm um fascínio pelas notícias que envolvem tragédias humanas. Quero me incluir entre as exceções, e sei que, felizmente, não estou sozinho. Mesmo quando chefiei, durante quase três décadas, equipes de repórteres e editores, o máximo que obtive foi estabelecer alguns limites. Jamais pude conter essa tendência. Porque ela parece emanar da mente coletiva. E os veículos de comunicação estribam-se no fato de que não são eles que produzem os acontecimentos - embora possam redirecionar ou inverter a trajetória deles, em muitos casos. Julgam os jornalistas (mas não são todos) que as pessoas apreciam tais informações, então eles as publicam, mas tambem supõe-se que as pessoas se ligam nelas porque os jornais as tornam públicas. (Um gracejo do jargão jornalístico é que não existe opinião pública, existe opinião publicada).
Mas o que entristece é constatar como as pessoas se envolvem com os dramas alheios, tomam partido, opinam, algumas enchem-se de ira e justificam certos delitos quando se identificam com eles, por haverem vivenciado algo idêntico; ou os condenam, se com elas aconteceu coisa semelhante, na condição de vítimas.
O recente episódio que ocorreu em Londrina, envolvendo a enfermeira e a secretaria, é destes que rendem acalentadas discussões e todo tipo de sentenças. São poucos os que se comovem com o drama das famílias envolvidas. Porque não pode haver dor maior para quem perde uma pessoa querida, em circunstância assim trágica, e de quem, do outro lado, chora a angústia de ver um familiar envolvido no cometimento de um tal delito e por isso ser levado ao cárcere.
A morte é penosa; a prisão e o sentimento de culpa, tanto piores. Nem uma coisa nem outra jamais alguém admitiria em sua própria família, sob pena de pagar qualquer preço. É das nossas crenças que aqueles que se vão acabam encontrando o caminho da luz, e perdoam. Os que ficam têm que enfrentar a justiça dos homens, sofrem o doloroso confinamento de uma prisão, a via crucis de idas e vindas para os tribunais e o rosto estampado nos jornais e telas da tv. São tão punidos por essa execração pública que deveriam contabilizar isto a seu favor, no momento da sentença.
Se é possível compreender e justificar a dor da família da vítima, causa tristeza assistir a demonstrações de ira pública, como ocorreu dias atrás, quando a enfermeira mencionada foi dar seu primeiro depoimento à Justiça. Faixas e cartazes com legendas agressivas, tentativa de agressão, tudo isto.
Pessoas que se intitulam amigas da vítima julgam prestar-lhe uma homenagem com tal manifestação, mas não imaginam o mal que lhe causam, porque lhe tiram a paz e a trazem de volta para o palco da tragédia, que é o nosso plano terreno. Os familiares deveriam pedir que isto não mais acontecesse. Quem é amigo, ora.
O tribunal do júri, que é a sociedade representada, cumprirá seu papel, e certamente o fará com o maior senso de justiça, ouvindo as vozes da razão e do coração. A manifestação pública de ira não melhorará a condição da pessoa que morreu. Pelo contrário, só irá perturbar sua alma, porque essa vibração energética negativa a atingirá. Não sabem também, esses amigos da vítima, do quanto de mal atraem para si próprios com tais atitudes de ódio e ira. Melhor se promovessem reuniões e orassem pelas duas, vítima e acusada. Ah, se isto acontecesse!!! Os céus sorririam, radiantes, diante de tamanha grandeza, e o espírito dessa infortunada jovem se elevaria com maior leveza.
Não podemos justificar atos violentos, nem fazer julgamentos sobre suas origens, porque não sabemos o que faríamos nós, nas mesmas circunstâncias. Quem é culpado de que, não é fácil concluir, quando estão em jogo questões do coração. Tudo resolvemos quando o problema é dinheiro, saúde ou outros, mas as questões do coração... No presente caso, isto vale para as duas partes envolvidas e para o pivô do drama, situações que com toda certeza não queremos para nós.
O que não se deve é estimular julgamentos paralelos, como essas manifestações que frequentemente acontecem diante do Fórum (aqui e em outros lugares), quando acusados comparecem para depor ou são julgados. Isto depõe contra um povo que se quer civilizado e cristão, porque encerra em si um ranço de barbárie. São de triste lembrança histórias de linchamentos acontecidos em cidades desta região. Pessoas que se organizam para tais manifestações deveriam refletir sobre a responsabilidade que lhes pesa, pois podem induzir outras, e daí a atos mais violentos é um passo. Uma atitude violenta não justifica outra, que então seremos todos iguais... Multidões enfurecidas perdem o senso da responsabilidade individual.
Já está se tornando comum as sedes da Justiça serem palco de manifestações dessa natureza, sobretudo quando estão envolvidas pessoas de maior projeção social e quando os advogados das partes passam a frequentar as páginas dos jornais e as telas do vídeo, para aquele exercício de ataque e defesa. Os códigos de ética não o permitem, mas nesse vale-tudo há todo um jogo de encenação e oportunismo. Se as questões do direito fossem tão cristalinas os processos não seriam tão demorados nem haveria necessidade de tanto livro jurídico. Quanto mais jurisprudência, códigos e leis penais tanto pior será o estado da humanidade.
Mas não é só isso: a ira libera vigorosa corrente de negatividade, enche de sombras os corações e mentes e o ambiente em que vivemos, e dependendo de sua intensidade e frequência contamina toda uma comunidade, com inevitáveis e desastrosas correntes de retorno. É ruim.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


