Ficamos mais pobres. Muito mais pobres com a morte do Roberto Campos, ocorrida dia 9 passado. Fala-se muito da pobreza no Brasil no seu sentido material, mas nunca se comenta a indigência mental que acomete boa parte das universidades, dos meios de comunicação, das esferas governamentais, da Intelligentzia neo-socialista. Por conta dessa pobreza mental, onde poucas e brilhantes luzes avultam, é com tristeza que nos despedimos do mais fulgurante dos liberais brasileiros que enriqueceu nosso panorama intelectual com sua competência, sua capacidade de realização, seu fantástico conhecimento.
Lembro-me de ter visto Roberto Campos em 1992, num congresso internacional realizado no Rio de Janeiro. Fui apresentada àquele senhor baixo, magro e sisudo, por outro dos nossos expoentes do pensamento liberal, o embaixador José Osvaldo de Meira Penna. Parecendo um lord inglês, Roberto Campos cumprimentou-me com o formalismo do diplomata que talvez escondesse a índole de um homem reservado e tímido.
Diante dele recordei-me dos meus tempos de estudante de sociologia, quando juntamente com meus colegas costumava gritar slogans como ''yankee go home'', e chamar Roberto Campos de Bob Fields. Efeitos da lavagem cerebral comum nessa área do conhecimento, na qual o marxismo se resume a uma doutrinação mal feita e a palavras de ordem. Éramos todos ''perfeitos idiotas latino-americanos'', como diria Carlos Alberto Montaner, um dos autores do ''Manual'' que leva este título. Os ''idiotas'' continuam por aí, mas naquele congresso de 92 eu já ultrapassara há um bom tempo ''a doença infantil do esquerdismo'' e foi com respeito e admiração que olhei para aquele homem que fora um dos maiores criadores do Brasil evoluído, do Brasil inteligente, do Brasil racional.
Sobre seu extenso curriculum, sua colaboração vital a inúmeros governos, sua vida diplomática, me absterei de descrever, pois o espaço de um pequeno artigo é incompatível com tão grande vida. Além do mais, muitos dos seus amigos já apresentaram em excelentes artigos, com muito mais propriedade do que eu poderia fazer, a trajetória do diplomata, do economista, do estadista, do político, do filósofo, do escritor, do grande liberal, do ilustre brasileiro Roberto de Oliveira Campos.
Neste sentido posso citar Carlos Hugo Studart, que assim escreve num trecho do seu artigo intitulado ''A vida, o pensamento e os muitos pecados de Roberto Campos, Bob Field, O Profeta do Capital'': ''Charles de Gaulle, em um dos seus delírios megalômanos, de certa feita comentou: 'Estive certo quando tive todos contra mim'. Talvez por vingança, Roberto Campos reproduziu a frase em suas memórias, 'A Lanterna na Popa'. Poderia ter passado seus últimos dias irradiando a felicidade dos bem sucedidos. Continuou, talvez pelo hábito de eremita, um homem de poucos sorrisos e quase nenhum afeto público''.
Já o Embaixador Meira Penna escreveu no seu artigo ''O homem mais lúcido do Brasil'', publicado no O Estado de S. Paulo do dia 10 deste, o que pode ser considerada uma homenagem ao amigo e colega do Itamaraty, Roberto Campos: ''Frio, dando às vezes a impressão de mal-humorado, dotado no entanto de um 'humor' ferino e capacidade de granjear fortes laços de amizade, ele representava a entrada do Brasil na Idade da Razão cartesiana, sem a qual dificilmente solucionaremos nossos problemas econômicos e políticos''.
Em 1999, o deputado Roberto Campos despediu-se da vida parlamentar num discurso magistral. Em determinado momento, acentuando a ''nossa insuportável mesmice'' que o deixava melancólico, ele disse: ''Continuamos longe demais da riqueza atingível e perto demais da pobreza corrigível''. E mais adiante, acrescentou: ''O Brasil, conquanto capaz de saltos de desenvolvimento, não aprendeu a tecnologia do desenvolvimento sustentado. É um saltador de saltos curtos e não um corredor de resistência''.
Pena que empobrecemos mais ao perder Roberto Campos. Ele foi dos poucos que conseguiu quebrar a mesmice da vida nacional.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária. E-mail: [email protected]

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