O lugar do
negro no
Brasil atual
Arlei de Espíndola
O dia 20 de novembro foi o dia da chamada ‘‘consciência negra’’, porque nesta data comemora-se o aniversário da morte de Zumbi dos Palmares, acontecida há exatamente 304 anos. Zumbi foi o líder do maior movimento de resistência contra a escravidão e o racismo no Brasil, durante o período colonial. Com perfeita razão, ele no presente é lembrado por todos aqueles que reconheceram sua bravura, grandeza, e a firmeza dos seus atos; na frente dos negros, que habitavam o Quilombo dos Palmares, Zumbi morreu lutando para desfazer a discriminação racial e atenuar o episódio de maior injustiça já verificado em nosso país, nestes seus 500 anos de história.
No século XVII, quando se formou o referido quilombo, os negros, reconhecidamente, subsistiam, ocupando aquela posição servil e desumana, sendo obrigados a trabalhar sem terem o direito de usufruir de sua liberdade e menos ainda de protestar contra essa tentativa de sua anulação. Atualmente, em nosso meio social, é comum, ao longo dos meses do ano, se fazer vistas grossas ao problema e, de forma curiosa, procura-se consolidar a imagem de que, no tocante ao racismo, trata-se de uma coisa do passado.
Não se tem aqui, efetivamente, uma idéia um tanto quanto falsa e equivocada? Vale, pois, a colocação de uma pergunta, para testar a sustentabilidade deste enunciado: qual a posição ocupada pelo homem negro e pela mulher negra na sociedade brasileira deste final de século? Ou seja, qual o posto ou o lugar na nossa sociedade em que eles são a maioria da população e onde eles são a minoria?
Há um processo, vergonhoso, de exclusão social em nosso meio, e essa dita exclusão é manifestada quando se observa que o homem e a mulher de cor negra quase não figuram, por exemplo, nas universidades, não têm presença marcante nos quadros diretivos, são a minoria no Parlamento e nas cadeiras do Senado, assim como nas entidades eclesiásticas, e não aparecem dentre os executivos, grandes empresários etc.
Tenta-se afastar este problema indicando que os negros surgem em grande escala nos maiores clubes de futebol do País, quiçá nas grandes equipes de vôlei e também nos grupos do gênero de música chamado pagode. Não obstante, os negros são convidados a permanecer sempre do lado de fora, exercendo, costumeiramente, o papel menor. Não há dúvidas de que eles compõem a maioria dos pobres de nossa população, dos menores abandonados, dos analfabetos, e marcam forte presença no mundo do crime, na delinquência, no tráfico de drogas, não, é claro, como seus mentores intelectuais etc.
Existe racismo em toda parte do mundo. Ele é manifesto nos Estados Unidos, na Itália, na Espanha, na Europa Oriental etc. No Brasil, este fenômeno é bastante robusto, porém, costuma ficar sempre velado. Como pudemos ver pelos exemplos acima citados, sua concreticidade se mostra pelo processo de exclusão. A rigor, esta é uma prática que não pode se perpetuar, visto que, em primeiro lugar, tudo o que há de belo no território nacional, e que foi construído no curso dessa sua breve história, contou com a ativa contribuição dos negros, que sempre trabalharam, forçadamente ou não.
Uma sociedade plurirracial como é a brasileira não pode ter enquanto critério, no final de contas, a cor da pele para abertura de oportunidades. Isto é algo que ainda infelizmente ocorre. Contudo, cabe uma mudança radical na política, não em seu plano constitucional, mas na conduta efetiva dos indivíduos. Enquanto isto não acontece, o homem e a mulher negra não podem assumir o papel de vítimas, pois há o desafio de efetuar a ocupação dos espaços reservados, inicialmente, aos ricos, bonitos, e com raízes fincadas no continente europeu.
- ARLEI DE ESPÍNDOLA é professor universitário em Marechal Cândido Rondon

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