O governo francês acaba de lançar consulta pública de um vasto programa de reforma dos currículos colegiais. A razão decorre da defasagem de seu sistema educacional diante de seus congêneres europeus, asiáticos e americanos. Essa defasagem que tem sua origem no após 1968 e vem se acentuando nos últimos anos.
Em média, 150 mil franceses chegam ao final do colegial sem conseguir se diplomar. Entre os diplomados, a dificuldade de entrar no mercado de trabalho ou seguir estudos superiores vem ficando mais e mais complicada.
A estratégia da reforma envolve suprimir o estudo de línguas antigas como grego e latim, redefinir as classes bilíngues ofertadas hoje em inglês e alemão e reelaborar os conteúdos de História a serem ensinados.
Todos esses pontos vêm suscitando imensa discussão. Mas o lugar da História nos colégios foi transformado no núcleo de todo o furor.
Em lugar do ensino cronológico, tematizado e periodizado da antiguidade aos nossos dias, a proposta sugere a eleição de temas e subtemas de interesse. Em essência, o Islão, o Judaísmo e o Cristianismo ganharam centralidade em detrimento de pontos de história francesa, europeia e mundial.
As demandas dos conflitos religiosos e sociais contemporâneos derrotaram a tradição da história pátria e do elogio ao romance nacional.
Entre os historiadores, Pierre Nora foi um dos primeiros a vocalizar o mal-estar causado pela proposta. Sua avaliação sugere que a nova orientação – que será aprovada ou não no decorrer deste ano para entrar em curso em 2016 – traduz a severa crise identitária que atravessa França. Entre os franceses – e demais ocidentais e não ocidentais – teria virado obsessão a promoção das vítimas. A história dos de baixo teria, assim, começado a solapar as demais histórias.
Michel Winock, outra grande referência da historiografia francesa, lança sua reflexão sobre a reforma pela dimensão ideológica da História, especialmente da História ensinada no colégio. Ele tem razão ao afirmar que o ensino de História serve, antes de tudo, a promover a identificação da nação e a memória de regiões, religiões, patrimônios, classes sociais, minoritárias ou não.
O aspecto ideológico do ensino de História, nunca é demais lembrar, carrega pesada carga política. Sua função visa essencialmente a promoção do amor pela pátria e pela nação. Amor sem ilusões nem nacionalismos exacerbados. Como dizia o general De Gaulle: "Podemos amar nosso país sem detestar os outros".
Nos dias que correm, a história francesa na França entrou em concorrência com a história da Europa, da União Europeia, do norte-africano e do Ocidente. Em tempos de globalização essas escalas confrontam as fronteiras da nação e da imaginação nacional. Isto é um fato. Mas nada disso é exclusivo da França ou dos países europeus. Muitas demandas conjunturais afligem o ensino de História no Brasil. Resta saber quando e como entraremos discuti-las.

DANIEL AFONSO DA SILVA é graduado em História pela Faculdade de Filosofia de Jacarezinho (Fafija/Uenp), doutor em História Social pela USP e pesquisador no Ceri-Sciences Po de Paris (França)



■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

mockup