O lixo que muda vidas
O consumismo exagerado que se consolidou na sociedade moderna e é o motor que faz girar a economia mundial, traz consigo sérios danos ao meio ambiente. Nunca se gerou tanto lixo como hoje, a praticidade oferecida pelas embalagens e produtos descartáveis, como copos e pratos de plástico, facilita a vida das pessoas que os utilizam em larga escala, mas produz impactos cada vez mais insuportáveis para o meio ambiente.
De tudo o que é descartado pela população brasileira, aproximadamente 35% são hoje considerados resíduos recicláveis. No ano passado, Londrina conseguiu recuperar 8%, e nos primeiros meses de 2016, com a volta da distribuição dos sacos verdes pela prefeitura, esse número ficou em torno de 11%. A reciclagem surgiu como uma forma de desacelerar o processo de degradação ambiental, diminuindo o inchaço dos aterros ao reaproveitar resíduos que se transformam em matérias-primas que realimentam o processo produtivo. Esse ciclo produção, consumo, descarte e reciclagem - além de impulsionar a economia local e desafogar o meio ambiente, tem fortes impactos sociais.
Em Londrina, o processo de catação e separação de resíduos sólidos começou na década de 1990 por meio de trabalhadores informais avulsos que trabalhavam junto ao aterro municipal em condições de extrema precariedade e insalubridade. Após um longo esforço, o sistema de coleta seletiva organizou-se e hoje conta com 7 cooperativas que atendem toda a cidade, distribuindo semanalmente sacos verdes em cada residência para que se efetue a separação dos resíduos recicláveis, os quais são recolhidos posteriormente pelos caminhões das cooperativas e direcionados aos galpões para fazer a triagem, prensa e comercialização para indústrias que os usarão como matéria prima.
Vale a pena ressaltar a importância destas organizações que geram trabalho e renda para aproximadamente 500 pessoas em Londrina e que trabalham em regime cooperativo solidário, em que todos são simultaneamente proprietários e trabalhadores da organização, compartilham as sobras e participam diretamente nas decisões, nomeadamente na escolha do corpo diretivo. Este modelo vem contribuindo significativamente para a melhoria da qualidade de vida destes trabalhadores.
E para que tudo isso seja possível, uma simples ação de cada londrinense é necessária: separar os recicláveis, preferencialmente limpos, nos sacos verdes previamente distribuídos e recolhidos pela cooperativa. O que nem todos sabem, é que esse ato de acondicionar os recicláveis (papel, vidro, plástico, metal) nos sacos verdes, separados dos orgânicos (restos de comida) e rejeitos (como fraldas, absorventes e papel higiênico usado), além de ser um dever de todo cidadão, é uma obrigação, podendo a CMTU multar aqueles que não contribuírem com a coleta seletiva na cidade.
Este ano completa 20 anos que a reciclagem está presente em Londrina. E, para que esse processo possa avançar, é essencial o empenho de todos substituir a velha lógica linear de usar e jogar fora pela cíclica de que tudo deve ser reaproveitado. O que ainda é reduzido a uma pequena parte dos resíduos produzidos, poderia alcançar perto de 100%, pois até resíduos orgânicos poderiam transformar-se em adubo orgânico ou alimentar usinas de energia a exemplo da cidade de Guatapará no interior de São Paulo, em que uma usina transforma 2,4 mil toneladas de lixo doméstico em biogás, conseguido através do gás metano liberado pelo lixo orgânico em decomposição no aterro sanitário da cidade, beneficiando 18 mil pessoas. Esta cadeia de valor, além de reduzir os impactos ambientais, promove o desenvolvimento socioeconômico de populações antes marginalizadas e que hoje apresentam importância inquestionável para se garantir sustentabilidade.
LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é professor de socioeconomia na Universidade Estadual de Londrina e MONIQUE WASSANO BURGUEZ é graduada em Administração na Universidade Estadual de Londrina
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