O lixo que assoreia os rios urbanos agrava problemas sanitários e enchentes de regiões ribeirinhas. O lixo dos feriadões nas praias e pela Ilha do Mel prejudica o turismo realmente gerador de renda afugentando o turista. O lixão de Paranaguá está saturado e o local escolhido para o aterro sanitário seria inadequado. Rolândia quer um aterro sob normas técnicas. Fazenda Rio Grande poderia aceitar o lixo de Curitiba, que Rio Branco do Sul não admite. Todos estes casos são uma ínfima amostra em nosso meio mais próximo, do grande problema representado pelo enorme volume de resíduos sólidos gerados pelas grandes concentrações de população. Este é um subproduto da cultura de desperdício displicentemente dominante em grande parte da população humana.
Os seres vivos, para seu desenvolvimento e sobrevivência, são seletivos em suas necessidades de aproveitamento dos recursos naturais. A casca e a semente dos frutos cuja polpa alimentou um pássaro poderá ser consumida por um roedor ou fertilizar o solo. Os ciclos naturais tendem a se fechar nos ecossistemas estabilizados. Do universo de produtos químicos, naturais ou não, apenas uma pequena parte pode ser diretamente aproveitada. Parcelas que são rejeitadas por não serem assimiláveis por alguns organismos, são nutrientes para outros.
Até certo ponto é análogo o que ocorre com o homem em relação a seus produtos industrializados. Para disponibilizar um produto, alimento ou não, é gerado material descartável do qual se destacam as embalagens. A analogia tem parado por aqui, pois o produto é consumido e as embalagens descartadas em um meio ambiente sem capacidade para decompô-las fechando um ciclo natural. Há que ser considerado que a viabilização de uma embalagem, além de consumir recursos financeiros, consome energia e matéria-prima, insumos muitas vezes escassos.
Todos estes valores, se de um modo ou de outro forem reaproveitados, mitigarão consideravelmente os problemas da disposição dos resíduos sólidos, do ponto de vista de espaço, de contaminação do ambiente e também econômico. Considere-se que em inúmeras situações estas embalagens têm um valor monetário que excede o custo do próprio produto.
A disposição dos resíduos sólidos é um problema que ocupa técnicos em todo o mundo em face da gravidade. Volumes cada vez maiores de matéria são descartados, em uma taxa difícil de ser assimilada e decomposta por processos naturais, num tempo que não permita a degradação do local de disposição.
O modo primitivo de descarte rudimentarmente organizado é a formação de um lixão, que é o acúmulo indiscriminado do resíduo sólido da população. Nesta situação, a par da decomposição natural principalmente da matéria orgânica, há o acúmulo de grandes volumes de material de lenta e difícil decomposição.
Estes materiais não decomponíveis fazem com que espaços cada vez maiores sejam requeridos para o seu acúmulo. Felizmente, talvez a maior parte do material de um modo ou de outro pode ser reaproveitado, porém isto se dá apenas se for separado adequadamente do lixo orgânico comum. Estes lixões são com o tempo envolvidos pela malha urbana ou periurbana, que passa a sofrer as consequências diretas da degradação das águas, do ar e do solo, provocada pelos efluentes líquidos, resíduos sólidos ou emanações aéreas geradas.
A alternativa mais adotada para os lixões é a dos aterros sanitários. São eles não apenas lixões periodicamente aterrados e escondidos das vistas das pessoas, porém disposições controladas de resíduos sólidos, de modo que sejam minimizadas as consequências danosas ao meio ambiente.
Para isso, vários requisitos devem ser obedecidos. Eles vão da adequação da localização do aterro, do dimensionamento e procedimentos de tratamento dos efluentes líquidos gerados, ou chorume, até o monitoramento constante das condições ambientais vizinhas. Como o meio natural mais afetado por efluentes de lixo é a água, os corpos hídricos relacionados ao aterro são as prioridades para terem sua qualidade monitorada. A água que chove e percola o lixo, seja em lixões ou mesmo em aterros sanitários tende e vai se incorporar aos aquíferos e posteriormente aos rios. Estes corpos são geralmente os mananciais que irão abastecer a população que produziu o lixo.
Independentemente da adequação ou não de um aterro, a solução em longo prazo apenas virá com a diminuição do lixo gerado per capita. Uma otimização no emprego de embalagens, a separação do lixo reaproveitável e mesmo a disposição individual do lixo orgânico de modo adequado seriam de uma ajuda significativa para minimizar os problemas de acúmulo de resíduos a serem descartados. Por enquanto isto é praticamente uma utopia.
Outro aspecto que tem sido ressaltado pela mídia é o fato de que o lixo pode contribuir para mitigar a falta de energia, pelo aproveitamento do gás metano gerado pela sua decomposição. Este aspecto, conhecido desde muito tempo pelos técnicos, está finalmente sendo analisado pelo poder decisório como uma opção. O paradoxal é que a fração do lixo que produz o biogás é a matéria orgânica, que realmente não pode ser reciclada, cujo aproveitamento é prejudicado pela mistura com material reaproveitável.
Novos lixões travestidos de aterros sanitários não podem ser aceitos. Se existe conhecimento disponível para fazer bem as coisas de interesse da população, que estas sejam bem-feitas e todos sairão ganhando. Programas de coleta seletiva são iniciativas que necessitam ser estendidas e aperfeiçoadas, tanto por parte dos consumidores como dos produtores de material descartável e obviamente, daqueles que o povo elegeu para cuidar dos interesses coletivos. Afinal de contas, a produção indiscriminada de lixo não é luxo e sim irresponsabilidade social. Trate-se o lixo com inteligência que de vilão ele passará a ser parte da solução.
Estas considerações certamente não são novidade para os especialistas, porém devem ser ressaltadas para que objetivos imediatistas não inviabilizem ações mais consistentes e de alcance bem mais longo.
- ANDRÉ VIRMOND LIMA BITTENCOURT é engenheiro químico, doutor em Geologia e professor universitário em Curitiba

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