Existem eméritos entesouradores de objetos que muitas pessoas consideram lixo. Estando incluso nesta classe, tenho tendências de guardar inclusive aquelas embalagens que já cumpriram sua finalidade precípua, porém são de material resistente e que praticamente ‘‘pedem’’ para ter um destino mais nobre do que o simples descarte. Quem não resistiria em lançar fora uma caixa de charutos daquelas de madeira, bonitas e práticas?
Atualmente, em face da publicidade sobre os malefícios do fumo, muitos seriam capazes de se livrar dos charutos e ficar com a embalagem, porém esta é uma exceção. O problema é que o aproveitamento suplementar aparece apenas para alguns itens e à custa de uma boa dose de criatividade. Em pouco tempo, o volume de material armazenado excede à capacidade do espaço destinado para tal finalidade e vai tudo para o lixo que não é lixo.
Muitas vezes, o limite entre o reaproveitamento de uma embalagem ou protetor de um equipamento qualquer durante o transporte, está em certos detalhes de seu desenho e este é o ponto. A peça poderia ter sido imaginada para usos alternativos, com um custo muito pequeno se comparado com os benefícios advindos do não-descarte.
Só para exemplificar, sinto uma pena enorme de jogar fora aquelas pecinhas plásticas de armazenar lâminas de barbear, pois elas são tão interessantes e práticas para sua finalidade primeira quanto inúteis para qualquer fim alternativo que me ocorra e, de quebra, não são biodegradáveis.
Se a utilização alternativa como um recipiente para pequenos objetos não for suficiente para evitar o descarte imediato, um projeto que viabilizasse seu uso como um módulo para montagem de um objeto maior, poderia inclusive servir de marketing para o produto original.
É o caso das bojudas embalagens de plástico transparente, para transportar frango assado, que só servem para entupir o lixo que não é lixo. O volume ocupado é também o problema das garrafas de refrigerantes, frascos de xampu, detergentes e de outros materiais plásticos, recicláveis ou não. Faça-se justiça às indústrias que estão começando a produzir garrafas corrugadas passíveis de serem comprimidas após vazias.
Nesta linha pode-se ir mais além, pois muitos produtos e equipamentos, totais ou em parte ao menos, após o fim de sua vida útil, poderiam ter um formato que viabilizasse fins outros que não o mero aproveitamento de sua matéria-prima. Considere-se que na sociedade de consumo a vida útil para equipamentos é programada para ser cada vez mais curta e não existe um sistema eficiente de recolhimento da sucata gerada. É tendência já observada em países mais desenvolvidos exigir que o produtor se responsabilize pelo destino residual de seus produtos. Mais do que tendência, em futuro próximo será esta uma necessidade e quem se adiantar neste sentido, colherá frutos antes dos outros.
Como se percebe, mitigar o problema do lixo não compete apenas aos engenheiros, geólogos, biólogos e outros ‘‘logos’’, pois contribuir para a diminuição do volume de lixo gerado pela sociedade é um grande desafio também para os designers de produto. A sociedade necessita que estes profissionais exerçam sua criatividade nesta dimensão pós-utilização dos produtos, é só usar uma dose extra de imaginação.
Já que estamos abordando a importância do design na questão do lixo, seria ótimo que as empresas também recorressem mais aos designers que se ocupam da comunicação visual para diminuir a poluição. Não vamos querer que a população passe a pendurar embalagens nas paredes de suas casas como objetos decorativos, porém a poluição visual que campeia desde os rótulos de produtos até as placas de estabelecimentos comerciais, passando pelos folhetos distribuídos nas esquinas é de doer.
- ANDRÉ VIRMOND LIMA BITTENCOURT é engenheiro químico, doutor em Geologia e professor em Curitiba

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