O lixo é lixo - Maria Josefa Rafart de Seras
Maria Josefa Rafart de Seras
- Menina, joga essa coisa fora, na lata do lixo.
Há anos, essa era a solução final das coisas que não nos serviam mais, e que não íamos dar para um orfanato, ou para a empregada, ou para a campanha do agasalho da escola. Jogávamos o lixo na lata de lixo, que os muitos cachorros insistiam em revirar.
Muitas crianças de hoje não entendem a origem da expressão vira-latas, pois já não há mais latas a virar. A lata tradicional, com tampa redonda e com duas alças, aquela habitada pelo gato Manda-Chuva, amigo do Batatinha e inimigo do Guarda Belo, foi aposentada. No seu lugar surgiram sacos plásticos pretos, azuis, e as indefectíveis sacolas de supermercado, que estão em toda parte.
Nos anos em que existiam as latas de lixo e os carrinhos do Dom Camilo, em Curitiba, não tomávamos leite em caixinhas nem guaraná pet de um litro e meio. A película transparente não recobria nossas frutas e verduras, e nas vendas e os pacotes eram de papelão, sem alças, que carregávamos segurando por baixo para não rasgar. Antes de que a vendedora a domicílio do Yakult viesse nos seduzir de porta em porta com sua bicicleta e os seis yakultinhos nas garrafas de plástico, só tomávamos iogurte de garrafa de vidro, com uma tampa de papel-alumínio que entortávamos para abrir.
Quando quebrava a alça de uma panela, pedíamos ao senhor do carrinho conserta-panelas-e-afia-facas para arrumá-la. Quando o guarda-chuva tinha uma haste espetando, mandávamos consertar na Sombrinha de Ouro. Quando uma calça rasgava, era remendada; se rasgava de novo, costurava-se uma proteção de couro; se a peça era nova, merecia um cerzido da Casa Ling.
Pertencíamos a uma sociedade que aproveitava ao máximo os objetos, como se a sua vida útil tivesse obrigatoriamente de ser esticada no limite do possível. Na outra ponta da cadeia de um surrado uso, restava um esquecido depósito de lixo, que era malcheiroso, que ficava muito longe, e que tinha muitos urubus no céu voando em círculos.
Hoje a situação é diferente. A indústria descobriu que uma de suas maiores fontes de lucro não é o produto em si, mas sim... a embalagem. Tetra pak, tetra-brik, pet, plástico, plástico, plástico. E zilhões de latas. E tome isopor. O antes branco iogurte vestiu-se com plástico multicolorido, que atrai as crianças, que atormentam suas mães a cada ida ao supermercado. A embalagem seduz. Dá lucro. E produz uma quantidade catastroficamente maior de resíduos.
Muitas administrações compraram a briga do lixo. E iniciaram programas de reciclagem, envolvendo grande parte da população. Os que podem mais separam o lixo, e os que podem menos o recolhem e vendem para reciclagem. Uma solução à brasileira, adaptada às necessidades sociais da população. Eficiente, reduziu no período de dez anos mais ou menos 20% do aterro sanitário.
Mas resta ainda muito o que fazer. Nem todo o lixo é reciclado, porque nem todo o lixo é separado, e também porque nem todo lixo é reciclável. Certos objetos são destinados a sobreviver à raça humana, assim como as baratas sobreviveram aos dinossauros, e estão até hoje nos incomodando.
O problema do lixo é uma equação que envolve fatores múltiplos, mas que poderiam ser resumidos a: coleta seletiva (mesmo) + materiais reutilizáveis ou biodegradáveis ou facilmente recicláveis = lixo responsável. Algumas cidades da Itália e da Alemanha estabeleceram engenhosas armadilhas para pegar em flagrante o cidadão que não separa o lixo. Mais ou menos como no 1984 de Orwell, o Grande Irmão (a prefeitura) distribui sacos de lixo numerados. Cada casa usa (e paga por eles) os seus; assim, toda sacola de lixo tem a sua origem estampada. Uma cor, geralmente amarela, para os sacos do lixo molhado. Lixo molhado é a comida em geral, é biodegradável. O lixo molhado vai diretamente para uma usina que o transforma em fertilizante.
Algumas pessoas têm no jardim um curioso e prático depósito de plástico verde, onde se pode jogar o lixo molhado, e em poucos meses ele se transforma em adubo para o próprio jardim, fechando, assim, o ciclo em casa mesmo. O lixo seco, ou seja, todo o resto, é depositado em contêineres separados: vidro com vidro, plástico com plástico, lata com lata, papel com papel.
Os resultados da coleta seletiva são sem dúvida mais eficientes, e as técnicas também poderiam ser adaptadas para o modelo brasileiro de sociedade. Na Itália, ninguém remexe o lixo recém-jogado para revender, e por isso a solução do contêiner seletivo é válida. Para o Brasil, basta adaptar o sistema, e existe suficiente inteligência e imaginação para isso. Na eficiente Alemanha, a coleta seletiva é levada muito mais à risca.
A mesma Alemanha tem uma lei que dá às indústrias o prazo de alguns anos para regularizar a produção de embalagem. Sessenta por cento deverá ser biodegradável. E a melhor tecnologia para isso é brasileira. Sim, produto nacional, na paulista cidade de Serrana. O desenvolvimento da técnica é da Copersúcar e do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) para um plástico biodegradável feito de cana-de-açúcar, com boas condições de produção comercial e que bate de longe as qualidades dos demais.
No Paraná, o governador Jaime Lerner lançou um programa de construção de aterros sanitários nos municípios, o que demonstra um grande avanço ambiental no Estado. Outro passo gigantesco, e perfeitamente factível, é a educação da população, para que participe efetivamente, e em definitivo, da coleta seletiva. Através de uma legislação específica, poder-se-ia incentivar a eliminação gradual das embalagens que congestionam os aterros e encarecem os produtos. Poder-se-ia usar o plástico biodegradável brasileiro!
É impossível promover uma radical e saudosista volta ao passado dos iogurtes-em-garrafas-de-vidro e das compotas caseiras. A filosofia do usa-e-joga-fora é por demais arraigada em nossa sociedade atual até por uma questão de regras macroeconômicas, que nos transformam em eternos consumidores para que a indústria sobreviva, e para que assim permaneçam os postos de trabalho...





