O presidente da empresa que construirá a terceira linha de transmissão de Itaipu admitiu ter pago propina a fiscais da prefeitura de São Paulo.
O que pode ter em comum a Enterpa Ambiental S/A, empresa envolvida no escândalo do lixo e da máfia dos fiscais de São Paulo, contratada sem licitação pelo governo do Distrito Federal - o contrato foi cancelado - e o blecaute que apavorou o país há 15 dias?
A empresa com nove mil funcionários, instalada em sete Estados, com faturamento médio mensal de R$ 23 milhões, ganhou licitação para construir a terceira linha de transmissão de energia de Itaipu. O trecho tem 135 quilômetros, entre Ivaiporã, no Paraná, e Tijuco Preto, em São Paulo.
O contrato vale R$ 11,7 milhões e a obra deveria ter começado em fevereiro. Até agora, entretanto, o governo federal - leia-se Furnas - não obteve licença ambiental para sua construção. A previsão inicial era de que fosse concluída até fevereiro do ano 2000.
Semana passada, depois do blecaute, o ministro das Minas e Energia, Rodolfo Tourinho Dantas, encolheu o prazo para novembro deste ano. Aí é que entram as preocupações dos técnicos que atuam na região Sul-Sudeste.
A Enterpa não faz uma obra de porte na área de transmissão de energia há pelo menos 14 anos. A linha a ser construída é pesada e está entre as de tensão mais altas do mundo - 750 kW.
Além disso, a empresa está envolvida até o pescoço nas denúncias de corrupção dos fiscais da prefeitura de São Paulo. O escândalo produziu revelações surpreendentes, rompimentos políticos - Paulo Maluf e o prefeito Celso Pitta - e revelou um esquema de propina sustentado por algumas empresas. A Enterpa, entre elas.
Há uma semana, o presidente Roberto Rocha informou à polícia que os fiscais exigiam propinas para liberar o pagamento de serviços prestados pela Enterpa à prefeitura. Os acusados devolveram a suspeita: disseram, em depoimento, que a Enterpa corrompia fiscais para que fingissem não ver o serviço mal-feito.
Em Brasília, a Enterpa quase prestou serviços na área de coleta de lixo. O SLU, porém, não conseguiu provar o caráter de emergência para justificar a contratação da empresa sem licitação. A repórter Karla Mendes denunciou o fato e o contrato, que já havia sido publicado no Diário Oficial, foi cancelado.
No pé em que está o caso, dificilmente a Enterpa cumprirá os prazos determinados pelo ministro. Como o fornecimento de energia elétrica em praticamente todo o país encontra-se em situação crítica, é recomendável que as velas estejam à mão. Podemos até começar a acendê-las agora.

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