Se cada um dos 222 milhões de habitantes do Mercosul comprasse cinco livros por ano, meta mais próxima dos índices verificados em países desenvolvidos, seriam comercializados em cada exercício 1,11 bilhão de exemplares. Este volume de vendas é praticamente três vezes maior do que o registrado no Brasil em 1997 (348 milhões). No entanto, a média de compra de livros no bloco de nações está abaixo de dois exemplares por habitante/ano.
Este índice médio no Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e nos novos sócios - Bolívia e Chile - pode ser explicado por uma série de razões históricas e econômicas, a começar pelos recentes regimes de exceção, nos quais a leitura era desestimulada devido à falta de liberdade de expressão. Também pesa o grau de subdesenvolvimento a que estão submetidos contingentes populacionais expressivos.
A população economicamente ativa do bloco representa apenas 38% do total de habitantes. O desemprego é alto na região, como atestam os índices oficiais da Argentina (13%) e do Brasil (cerca de 8%, que deverá chegar a 12% em janeiro, segundo estimativas atuais). O analfabetismo, embora gradualmente combatido, ainda atinge 13% dos brasileiros, 17% dos bolivianos, 3% dos uruguaios, 4% dos argentinos, 5% dos chilenos e 8% dos paraguaios.
Tudo isso, é verdade, conspira contra a leitura, num ameaçador círculo vicioso, pois o acesso à cultura é fundamental à liberdade, desenvolvimento e progresso dos povos. Porém, a despeito da realidade socioeconômica - e considerando a necessidade de estimular o hábito de leitura no Mercosul - há uma série de medidas que os governos da região poderiam adotar para que o povo pudesse ter mais facilidade de acesso à leitura. No 1º Encontro de Editores do Mercosul, realizado em Porto Alegre, chegou-se a algumas conclusões sobre as gestões a serem realizadas junto aos governos do bloco.
A primeira é a necessidade de investimentos crescentes na educação, ampliando a oferta de vagas no sistema público de ensino e melhorando a sua qualidade, inclusive no sentido de aumentar o número de anos de permanência das crianças e jovens nas escolas. Outro aspecto é a ampliação do número de bibliotecas públicas escolares, universitárias e especializadas.
Os governos da região também deveriam privilegiar a compra de livros didáticos destinados a alunos de baixa renda nas livrarias, estimulando a população a visitá-las. Nota-se, particularmente no Brasil, um distanciamento das pessoas em relação às livrarias. Aqui, o principal contato do grande público com o livro acontece nas feiras, como as bienais do Livro e as feiras regionais. Os editores entendem, ainda, que os programas de incentivo à leitura devam ser dirigidos principalmente às crianças. Assim, seria importante enfatizar a leitura nos currículos escolares.
Os editores também reivindicam aos governos da região a adoção de medidas na área aduaneira e tarifária: no que tange à certificação de origem, considerar apenas a editora responsável pelo livro; sistema especial de exportação e importação intra-zona, com o mínimo de exigências de documentação; período gratuito de sete dias úteis nos armazéns alfandegados; e retificação dos acordos de Florença e Nairobi, de livre circulação de livros.
O setor editorial, independentemente das ações do governo, tem as suas próprias lições de casa, que começam pelo equacionamento do problema da distribuição, especialmente no Brasil. Nesse sentido, chegou-se à conclusão de que são necessários investimentos, mesmo que estrangeiros. Outro ponto definido é relativo à cooperação entre as editoras do Mercosul, por meio de co-edições, compra conjunta de direitos e associações para negócios comuns. Da mesma forma, elas deverão atuar unidas no combate à pirataria, que, no caso do livro, se expressa na reprografia não-autorizada.
Esta mobilização do setor editorial é oportuna e necessária. Afinal, não se pode pensar no desenvolvimento pleno do Mercosul se em seus países membros persistir a exclusão cultural de milhões de habitantes. E o livro continua sendo o principal e mais importante instrumento de democratização do conhecimento.
- RAUL WASSERMANN é editor e vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro em São Paulo

mockup