O Limite do Alerta
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de agosto de 2002
Nivaldo Cordeiro 
Muitos não concordam com a tese de que o Brasil havia quebrado ao perder a sua capacidade de pagamentos internacionais, além dos financiamentos externos às exportações. Considero relevante rebater esse comentário porque sei que ele expressa a opinião de uma parcela significativa da elite econômica e intelectual do Brasil.
Essa falsa percepção da realidade é um perigo, pois desarma os espíritos para o enfrentamento da realidade que está por vir. A única alternativa para se manter uma aparente normalidade cambial - e, portanto, no fluxo de comércio internacional - é um aporte substancial de recursos do FMI, vez que o mercado privado está fechado para nós.
Considero que as chances desse aporte de recursos do FMI vir no curto prazo são mínimas. Não podemos esquecer que até esse momento nenhuma ajuda daquela instituição foi concedida à Argentina, cuja elite dirigente não se entende e, por conta disso, vimos o desastre que tem sido: recessão profunda, crise social, invasão de supermercados, distúrbios nas vias públicas, entesouramento do meio circulante nas residências e empresas, inviabilizando os serviços bancários, queda das exportações. O Uruguai, segunda a imprensa, está na mesma situação, estando já há dois dias em feriado bancário. Saques a supermercados foram notificados.
Se aceitarmos a hipótese de que a ajuda do FMI não vem durante o exercício em curso, é razoável esperar que a taxa de câmbio não volte ao patamar inferior a R$ 3,00, podendo inclusive ser desvalorizada a qualquer patamar, uma vez que os portadores de moeda estrangeira não deverão abrir mão da liquidez e da segurança, provocando uma crise insuperável. Nesse cenário, todos os preços que dependem de importações ou são referenciados no mercado internacional ficariam com dificuldade para serem fixados em reais.
Da mesma forma, todos aqueles que têm passivo em dólares poderão quebrar, pois as suas operações em reais não seriam capazes de gerar recursos o suficiente para bancar o custo de seu passivo.
Pior mesmo é o que pode acontecer com os empregos e com os salários reais de toda a população. Poderíamos ter um desemprego galopante e um arrocho salarial sem precedentes, especialmente se o governo mantiver a política suicida de permitir que os monopólios das empresas que industrializam e distribuem derivados de petróleo e as que produzem os serviços públicos essenciais indexem seus preços plenamente ao dólar. Seria o desastre em grandes proporções.
Assim, poderíamos ter não apenas uma explosão inflacionária, mas um desabastecimento físico dos bens essenciais ao funcionamento da economia e para a vida normal das pessoas. Dentro desse cenário, não serão apenas os mais pobres que sofrerão, mas toda a gente. Seria, como na Argentina, o horror econômico.
É como se parte de nossa elite política e econômica se comportasse como a aristocracia francesa às vésperas da Revolução, como se nada estivesse acontecendo. Mas está. Como diria Toynbee, a História está novamente em movimento. Um cenário como esse pode perfeitamente se materializar, para minha tristeza. Que Deus nos acuda e abra os olhos dos desavisados!
NIVALDO CORDEIRO é economista e mestre em Administração de Empresas pela FGV - SP


