Mirian Guaraciaba
Dizem que Fernando Henrique Cardoso ainda não começou o segundo mandato. Argumentam os aliados que o presidente não pode governar porque está desde janeiro administrando crises. Meia verdade. Os problemas são muitos. Foram 18 crises - mais ou menos graves - em apenas seis meses, mas o presidente está governando, sim. Pode-se até discutir a qualidade do grupo, mas, sabemos todos, há um núcleo de decisão no País, e no comando está o sociólogo Fernando Henrique Cardoso.
Se não, como seriam explicados atos de governo concedendo sucessivos aumentos de combustível, energia elétrica, telefone, planos de saúde, impostos? Quem está autorizando reajustes generalizados em pleno aniversário do Plano Real, o plano da estabilidade econômica?
Que situação é essa? Reajustes mensais para os combustíveis, como ameaça o governo, certamente afetarão a vida do consumidor. Dificilmente, deixarão de provocar reajustes de preços nos supermercados. Ontem, o governo admitia subir as passagens de ônibus.
Os brasileiros recebem atônitos - e indignados - as notícias sobre aumentos. Afinal, depois da crise de janeiro, quando o real quase virou pó, o presidente disse orgulhoso que a economia estava sob controle, a inflação seria negativa. Então, por que tantos reajustes?
Ainda que valham as explicações econômicas para cada percentual de aumento anunciado pelo governo, como convencer os mais velhos, aposentados, que não têm de onde tirar dinheiro novo, que pagarão mais pelo plano de saúde?
Os novos preços começam a ser cobrados a partir desta quinta-feira, 1º de julho, com aumentos médios de 5%, mas a gigantesca Golden Cross reajustou seus serviços em 9,09%.
Os aumentos da gasolina, em Brasília, ficaram entre 13,42% e 17,41%. Como explicá-los aos funcionários públicos que estão com seus salários congelados há cinco anos? E aos trabalhadores? E aos empresários que não têm mais gorduras para cortar, a não ser gente?
E não foi só. O governo permitiu aumentos nas contas de luz, água e telefone. Todos de uma vez. Juntos, significarão um impacto de 12,33% nas despesas domésticas, segundo estudo do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento da Federação do Comércio do Rio de Janeiro.
O clima desfavorável tem feito despencar a popularidade do presidente da República. Aparentemente, ele não se importa. Na semana passada, repetiu um de seus discursos preferidos, com a arrogância própria dos tucanos. Disse, pela voz do ministro Pimenta da Veiga, que o Congresso pouco tem feito pelo País.
Nas últimas semanas, houve uma paralisia dos trabalhos legislativos, o que não é bom para o governo, para o Congresso e, consequentemente, para o País, discursou o ministro das Comunicações. Aconselhou, como se faz aos mais jovens, que os parlamentares cumpram uma agenda efetiva, indispensável ao desenvolvimento nacional.
E, para encerrar, falou o próprio Fernando Henrique, referindo-se à desobediência de funcionários públicos e a críticas de aliados e opositores: ‘‘Devo dizer que, no meu caso, a minha tolerância chegou ao limite’’. A recíproca é verdadeira, presidente.
- MIRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília

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