Sempre que um município reclama, Curitiba já tem pronta a resposta: que tal comuna reivindicante recebe mais do Governo, em forma de verbas e obras, do que fornece em impostos. Agora às vésperas do encontro de lideranças do Norte do Paraná, que iam se reunir em Londrina amanhã (o encontro foi, à última hora, adiado) justamente para reivindicar do governador Jaime Lerner mais atenção para o interior, o Palácio Iguaçu se apressou em afirmar que Londrina e Maringá - para citar as duas maiores cidades - recebem em torno de R$ 1,3 para cada R$ 1 que recolhem aos cofres do Estado. Como o município de Curitiba deve receber em proporção maior (ou alguém duvida?), então se imagina que a banca de JL está estourada, ou então os municípios pequenos estão pagando a conta; ou deve haver uma fábrica de dinheiro nos porões do Palácio, para dar tanto assim aos municípios e receber deles tão pouco...
O prefeito Antônio Belinati - que quase deu um beijo no governador quando ele veio a Londrina em novembro para cumprimentá-lo pela vitória, mostra que, embora a ajuda decisiva de Lerner para elegê-lo e pertencerem ambos ao mesmo partido, não é subserviente, e dá um brado de independência. Com diplomacia, mas mostrando as garras. E o fez rápido, menos de dois meses depois de assumir.
Como a Londrina rebelde de saudosa memória!
Belinati tem, cheios, quatro anos de mandato; Jaime Lerner tem apenas dois, excluída aí a hipótese de reeleição, de ambos.
O prefeito de Londrina convidou o próprio governador a comparecer a esse encontro de lideranças, agora adiado mas que com toda certeza se realizará. Bom se ele estiver presente, porque esta não é uma briga, é uma reivindicação. Ademais, Lerner não conhece a cara de muitos prefeitos novos, nem as lideranças regionais; em verdade conhece pouco as próprias cidades.
JL é um político essencialmente curitibano, até porque já foi três vezes prefeito da Capital, e não é fácil para ele desacostumar-se. Os de lá lhe cobram muito, e se ele não sai de Curitiba (a não ser para ir à França e aos EUA), não ouve as vozes que bradam aqui destes cafundós do Norte. Para os curitibanos tradicionais o Paraná acaba no Parque do Barigui; para eles, fora de Curitiba é desperdício investir.
Os líderes do Levante dos Pés Vermelhos deveriam também convidar o deputado vitalício, porque em Curitiba nenhuma decisão oficial é tomada sem o seu conhecimento e a sua permissão. Uma oportunidade para que o quarentenário parlamentar venha conhecer Londrina. O prefeito Belinati que lhe providencie umas botas de cano longo, por causa da lama que nos afunda até os joelhos, e esta terra mancha!
Vão ver, os dois governantes, que aqui tem gente competente. É que Lerner declarou que seu critério de escolher Secretários foi pela competência. Conclui-se então que, em Londrina - a segunda cidade do Estado - ele não viu nenhum destes. Só Emilia, a vice-governadora. Mas ela não foi indicação de Lerner, foi eleita! (É que Lerner disse, também, que se Londrina já tem a vice-governadora, para que Secretário?). Dá para retrucar: se Curitiba já tem o governador, para que tanto Secretário de lá?!
Somos hoje quase 9 milhões de paranaenses (a população do Estado vem aumentando), e só 2 milhões e pouco habitam a Grande Curitiba. Os ‘‘demais’’ 6 milhões e meio devem valer alguma coisa!
Quando sussurram aqui e acolá as vozes do separatismo, Curitiba se manifesta em defesa da unidade, proclamando que o Paraná é um só. Mas na prática segrega, pela ação e reação de seus Poderes.
Antônio Belinati pode se transformar no grande líder do renascimento das lutas reivindicatórias norte-paranaenses, ele que tem, por circunstâncias políticas e familiares, a esposa como vice-governadora. Uma mulher habilidosa e inteligente e que tem pés vermelhos.
Mas não pensem os líderes do movimento que só uma reunião bastará. Será preciso muitas delas, aqui e nas demais cidades-pólo; será preciso gastar solado e ir a Curitiba até à exaustão e vencer os governantes pelo cansaço. Não é preciso nenhum tiro, mas invadir o Palácio Iguaçu e acampar lá; tingir de vermelho os tapetes palacianos, de tanto pisar e pisotear; dar murros na mesa e esbravejar.
Muitas conquistas do Norte do Paraná, sobretudo a abertura e asfaltamento de estradas e a implantação de núcleos de ensino e pesquisa, se deveram à luta de respeitáveis lideranças de outrora, que construiram história pela convicção, pelo destemor e pela perseverança, adubadas que eram, também, pelo engajamento dos veículos de comunicação, notadamente a ‘‘Folha de Londrina’’.
Tempos heróicos!

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