O leitor escreve
O LEITOR ESCREVE
Aterro do Igapó 2 (1)
Raiava o sol. Manhã de um dia em meados de 1940. Meu pai e eu em um velho caminhãozinho Chevrolet 1928 descíamos por uma estradinha no meio do cafezal do Dr. Palhano, quando demos de frente com uma mata ao lado de uma outra estrada. Dobramos à direita. A manhã era de cerração. Conseguíamos ver alguns metros à frente. De repente, como num toque de mágica, abre-se na nossa frente todo o campo de visão. Sob o manto úmido da cerração, uma paisagem belíssima. Estávamos na altura onde hoje existe um posto de gasolina. A estrada de então é a Faria Lima. O cafezal transformou-se na Colina Verde. A mata lindíssima sumiu e deu lugar ao hoje Jardim Universitário.
Estávamos na estrada. Mais abaixo, à direita, contemplávamos o Vale do Cambezinho desde o fundo, alguns capões de mato, pastagem de quicuio, que naquela época do ano ficava com um tom dourado. Pomares, casas com chaminés fumegantes. Minha vista veio subindo e o caminhãozinho foi descendo, quando meus olhos se fixaram num barracão comprido e cá na sua extremidade o forno de queimar telhas. Soltava vapor e fumaça. Era a olaria do Sr. Mizubuti. Na frente da olaria passaria a hoje Avenida Faria Lima. Nos fundos, o barreiro de onde se extraía a argila com a qual se modelavam as telhas.
Nosso destino naquele dia era comprar telhas. Ao chegarmos meu pai o cumprimentou: - Bom dia, sr. Mizubuti. Vim buscar as telhas. Ele respondeu: - Têria du chinhôro tá arí, tudo crachificada, primera, hein? Enquanto transferiam as telhas do chão para o caminhão, o cachorro do Sr. Mizubuti me apresentou toda a olaria. Fixei minha curiosidade no barreiro onde já cedo o pessoal cortava barro e o transferia para umas carroças de rodas esquisitas. Eram raiadas em madeira, com aro de ferro. Sobre o aro era fixada uma chapa larga, também de ferro e sob esta prendiam-se pedaços de pneus, para não afundar no barro.
O caminho do barreiro à olaria era revestido com cacos de telha. Entre os varais da carroça e ao lado de um deles, dois burrinhos com olhar conformado iriam puxar aquele material do barreiro ao amassador, apenas alguns metros. O barreiro de então mudou mais do que eu. Quanta coisa aconteceu na minha vida. Quanta coisa aconteceu com o barreiro. Hoje olho para trás e vejo que caminhei de menino de sítio a engenheiro e professor universitário. O barreiro do Mizubuti virou o aterro construído com imprestáveis da cidade. Falta lá apenas a idéia que o fez executar.
- JOSÉ AUGUSTO DE QUEIROZ, engenheiro em Londrina
Aterro do Igapó 2 (2)
Londrina é uma cidade privilegiada por universidades, centros de estudos superiores e entidades de pesquisa, mas suas opiniões só são aceitas por nossos administradores se elas forem de acordo com o que eles previamente já definiram. Opiniões contrárias não são consideradas, ou no mínimo eles vão em busca de outros, até achar alguém que concorde. Sem menosprezar o excelente trabalho da Ong Patrulha das Águas, é inconcebível comparar seus conhecimentos com os da Universidade Estadual de Londrina (UEL), cujo Departamento de Arquitetura e Urbanismo é totalmente contra a privatização do aterro do Igapó 2.
Posso estar enganado, mas se forem consultados os demais segmentos competentes da UEL, como os departamentos de Biologia e de Agronomia, bem como os da Unopar e Cesulon, acredito que eles também serão contrários a doar o aterro para a iniciativa privada. Outra questão a ser tratada é a de respeito! Nossos vereadores, para ter o respeito e a consideração que merecem, devem respeitar a Lei Orgânica do Município, que eles mesmos aprovaram. É essencial que sejam preservados e restaurados os processos ecológicos essenciais, e que se garantam as opiniões públicas e das instituições de ensino e pesquisa. Vamos pensar no futuro e na qualidade de vida de nossos filhos e netos.
- GIL ABELIN, zootecnista, Londrina
Paradoxo
Quando quiseram taxar as igrejas com impostos, foi aquele alvoroço em favor de instituições sem fins lucrativos. Mas, pera aí. No caso do desabamento daquela empresa (Errei, é igreja) o proprietário disse que nem iria esperar decisão da Justiça para indenizar familiares de mortos e pagaria até mesmo cirurgias plásticas para quem ficou com marcas do acidente. Paradoxo, não? Como indenizar se não tem lucro? Essas entidades sem fins lucrativos adquiriram redes de TV e outras empresas. A maioria dos pastores prefere carros Fiat. Como já disse Jesus, faça o que os doutores da lei falam, pois eles sabem da lei de Moisés, mas não façam o que eles fazem. Ou então: Se queres ir para o reino dos céus, venda tudo que tem e dê para os pobres e depois me siga. Esta é a frase mais usada pelos doutores da lei, principalmente sobre os 10%.
- MÁRCIO DICESAR BENASSI, Sertanópolis
Arquivo Cultural
O Arquivo Cultural de Londrina agradece o apoio recebido por ocasião da sua inauguração. Considerando as características desta instituição e especialmente seus objetivos de preservar e difundir o nosso patrimônio cultural e, principalmente, realizar junto à comunidade um trabalho de educação permanente para formar a consciência da importância do bem cultural, é essencial poder contar com a colaboração da Folha. O trabalho já realizado de divulgação e registro atesta a preocupação desta empresa em atender às necessidades da comunidade. Colocamo-nos à disposição para trabalhar em conjunto para ampliar nosso patrimônio cultural e nossa memória e agradecemos a atenção que nos será dispensada.
- IARA STROBEL, coordenadora do Arquivo Cultural de Londrina
- As cartas devem ser datilografadas e assinadas e vir acompanhadas da fotocópia de documento de identidade, endereço e telefone para contato e profissão/ocupação do remetente. O jornal poderá resumi-las conforme disponibilidade de espaço. Correspondência via Internet deve conter: nome completo, cidade de origem, telefone, documento de identidade e endereço eletrônico e profissão/ocupação. E-mail Folha do Paraná/Folha de Londrina: [email protected]





