O leitor escreve


Ponte Ayrton Senna
Há denominações próprias e impróprias. Nomes de ruas, quebra-molas, os grandes temas que divertem vereadores que não encontram assuntos para desenvolver na representatividade que o povo lhes dá. Louvável tal preocupação e não pretendo enfrentar ou contestar pensamentos e opiniões da ilustre personalidade. Pretendo apenas defender a personalidade de Ayrton Senna por quanto representou para o aprimoramento da técnica, a superação da capacidade humana, o equilíbrio de personalidade, o exemplo positivo para a juventude, a diplomacia brasileira, a exteriorização do patriotismo e pelo respeito mundial à sua pessoa e pela sua presença, as pinceladas positivas do Brasil, no cenário mundial, dado que o noticiário que mais aparece no exterior é o das favelas, assaltos, assassinatos da corrupção e horrores.
A história, nas escolas, procura destacar os vencedores, fantasiando muitas vezes figuras como de guerreiros com auréolas de santidade e especialmente conquistadores, políticos vencedores, não importando como venceram e não importando os erros e desacertos. Ayrton Senna. Quantos perigos enfrentou em cada acelerada, em cada freada, em cada ultrapassagem, para ao final, no pódium, desfraldar a bandeira brasileira, por quantas vezes, ouvindo e fazendo o mundo ouvir a maravilha dos acordes do Hino Nacional. Quanto teve de estudar o mecanismo dos motores e se aprofundar nestes conhecimentos, orientando, mesmo a equipe técnica para modificações de melhoria e desempenho de máquinas e que influem na economia e logicamente devem refletir na qualificação das populações? Não seria muito apropriado denominar um prédio ou um hospital Ayrton Senna. Mas uma ponte, rodovia, trânsito intenso de veículos automotores, parece-me a mais apropriada denominação, pois foi para estes aprimoramentos que participou de tantas disputas.
- FAHED DAHER, Apucarana
‘‘Guerra’’ do automóvel
Ninguém em sã consciência pode ser contra o novo Código Nacional de Trânsito, em vigor desde 23 de janeiro. Era preciso algo contra a selvageria em que se transformou o ato de dirigir. Acostumado à impunidade, o motorista brasileiro levava para o trânsito as frustrações e os problemas do seu cotidiano, pondo em risco vidas humanas. Como consequência, em pouco tempo, o trânsito das grandes cidades transformou-se em campo de batalha urbano, no qual cada um agia de acordo com o ‘‘poder’’ que o modelo ou tamanho do veículo que dirigia lhe dava. Caminhões ‘‘fechavam’’ ônibus, estes vingavam-se em cima de carros menores, que eram jogados para cima de motociclistas, os quais, por sua vez, colocavam em riso a vida de pedestres.
Foi assim que aos poucos teve início entre nós a ‘guerra do automóvel’ com a qual o Código Nacional de Trânsito pretende acabar. Exageros à parte, documentados pela mídia durante as primeiras semanas de vigência, o saldo já é e tenderá a ser daqui para frente cada vez mais positivo. Desde o finalzinho da década de 60, quando o governo ‘‘embarcou’’, feliz, no lobby do rodoviarismo desenfreado, desmantelado uma até então bem cuidada - pelo menos no Estado de São Paulo - rede ferroviária e as linhas de bondes, a sociedade vem assistindo à morte de cerca de 80 mil pessoas por ano (aí computadas também as vítimas de acidentes nas estradas). Além disso, a ‘‘guerra’’ do automóvel vem ferindo por ano 300 a 400 mil pessoas, transformando parte delas em inválidas (paraplégicas e tetraplégicas).
A Guerra do Vietnã, em dez anos, matou cerca de 55 mil pessoas. Ou seja, o preço pago pela combinação da imprudência, ausência de educação de motoristas e pedestres, consciência falha quanto ao ato de dirigir e da impunidade foi terrível: mais do que um Vietnã por ano ao longo de quase duas décadas. O automóvel já matou, desde que foi inventado, há pouco mais de cem anos, 25 milhões de pessoas, tornando-se assim um dos grandes flagelos do século 20.
- MIGUEL IGNATIOS, São Paulo
Transplante de idéias
O transplante como alternativa terapêutica é um procedimento antigo, com resultados desastrosos no início do século, passando para uma indicação rotineira e de sucesso nos últimos anos, com o controle dos processos imunológicos e da rejeição. Os transplantes exigiram a definição e a mudança do conceito da morte e a necessidade de nova legislação para tornar possível a enxertia de órgãos e tecidos. A sociedade, assustada, foi convivendo com essas mudanças. Reagiu, recusou, mas em cada situação em que foi convocada solidarizou-se, foi humanitária. Espontaneamente tornou-se doadora e a doação cresceu com o entendimento do processo do transplante.
A cada tragédia, mesmo vivendo a perda de um pai, mãe, filho, os familiares encontravam forças para, num ato humanitário e de grandeza, aliviar a dor, o sofrimento e possibilitar a luz e a vida de seu semelhante, gesto único que mantém viva a fé, a bondade e a esperança de um mundo solidário e de afeto. Desde 1968 nossos representantes políticos vêm elaborando projetos de lei, acrescidos de substitutivos. Foram tantos novos projetos para, finalmente, em 1997, após 29 anos de espera, ser aprovada e regulamentada a ‘‘lei do transplante’’. A intenção foi de aumentar os potenciais de doadores e disponibilizar um maior número de órgãos para o implante. A lei traz importantes avanços; democratiza, disciplina e equaliza a distribuição dos órgãos.
- LUIZ SALLIM EMED, presidente do Conselho Regional de Medicina do Paraná

mockup