O LEITOR ESCREVE
Último ato
É comum um fato se avolumar na memória das pessoas e dar-se a ele contornos e dimensões que não existem. Assim está acontecendo na imprensa local, que analisa a não ida de Cheida à cerimônia de transmissão de cargo ao seu sucessor, atual prefeito. Por dever de ofício e até porque participei como chefe de gabinete das situações que levaram a isso, devo esclarecer. À manifestação do Sindicato, marcada para a transmissão de cargos, amplamente divulgada, seguiu-se inúmeras manifestações em contrário, que iam desde produtores rurais e lideranças de bairros, até cidadãos sem nenhum cargo ou representação, que, indignados, telefonavam à Prefeitura ou até lá se dirigiam dispondo-se a promover um ato de desagravo, a favor de Cheida e contra o Sindicato, durante a solenidade. O confronto, analisamos, seria inevitável. Em razão disso, Cheida procurou Belinati e ambos conversaram, por telefone, por duas vezes, analisando o caso. Cheida argumentando que um eventual conflito empanaria o brilho de uma cerimônia, que deveria ser lembrada como um momento de festa e alegria. A sugestão de Belinati foi que a transmissão se resumisse, portanto, a uma simples cerimônia dentro do Gabinete. O que, em nosso entendimento, não evitaria os problemas, que já dávamos como certos.
Assim foi argumentado neste último contato com o prefeito atual e assim foi feito. Muitos estranharam. Talvez, para os que ansiassem por um quebra-quebra, o ex-prefeito tenha, realmente, decepcionado. Não decepcionou, entretanto, os que sempre pugnaram pelo equilíbrio e pela serenidade. Mais uma vez, deu mostras de maturidade, informando o prefeito atual e desfazendo, com sua ausência, qualquer hostilidade entre o sindicato dos servidores e boa parte da população que reconhece o trabalho realizado nestes quatro anos. Desfazendo, ainda, qualquer ato que pudesse vir a macular uma posse, que como todas, deve ser um momento de alegria. Resumir sua atitude a um ato de esquivar-se de manifestações contrárias é contrariar a história (e essa não mente) de um prefeito que, como poucos, encarou sempre de frente, problemas que foram de sua alçada.
- AGNALDO KUPPER, ex-chefe de Gabinete da Administração Luiz Eduardo Cheida.
Fim do ganho fácil
Nos últimos 30 anos o país viveu sob os efeitos de duas situações muito peculiares, que, juntas, contribuíram para a formação de um quadro especial, que nos isolou do resto do mundo. Essas duas situações foram a inflação e as barreiras protecionistas. Os elevados índices de inflação, que privilegiaram a especulação financeira, em detrimento da produção, mantiveram o país, por quase 40 anos, fora da realidade da economia internacional. A festa acabou. A inflação está sob controle e a caminho da estabilidade digna de países de primeiro mundo e o mercado está sendo aberto para a competição internacional. As empresas agora terão de ganhar dinheiro via produção e venda de bens e serviços. Mas, como fazer para absorver o que os países do Primeiro Mundo e os Tigres Asiáticos levaram 40 anos para aprender? Como alterar, a curto prazo todo um caldeirão cultural alicerçado no ganho fácil e imediatista, onde a competência e as capacitações técnica e gerencial eram absolutamente desnecessárias? Isso é muito mais fácil do que parece. Após dois anos de razoável estabilidade monetária e de um mercado em processo de abertura, ainda encontramos empresários sonhando com um passado que não voltará mais.
As empresas que não quiserem ser engolidas pelo mercado competitivo e pelo consumidor, que exige qualidade e preço, precisam reorganizar todo seu sistema de custos por atividade. A evolução tem que ser rápida, para permitir a venda dos produtos e a entrada do dinheiro no caixa, destinado ao investimento nesta transformação. Identificar os desperdícios, a ociosidade e o custo decorrente da defasagem tecnológica é mais fácil do que pode supor o empresário. Basta iniciativa e, principalmente, visão empresarial para que o seu negócio não sucumba tão rápido como o ganho financeiro de antigamente.
- GERALDO F. SPILIMBERGO, Curitiba
Militares
O final do milênio acena com interessantes rupturas na normalidade dos tecidos político e econômico planetários. Uma grande novidade é o fato de que, no atual nível de incorporação de tecnologia aos processos produtivos, o capitalismo destrói mais postos de trabalho do que é capaz de criar. Isso significa desemprego crescente e irreversível, ou seja, a geração de um exército planetário cada vez mais numeroso de excluídos. Esse processo de exclusão social vai ampliar muito os fenômenos do crime organizado na América Latina, do fundamentalismo islâmico no mundo muçulmano, do neofacismo na Europa, dos conflitos étnicos na África Negra e das lutas raciais nos Estados Unidos, gerando a barbárie generalizada em escala mundial.
O governo mundial das grandes sociedades anônimas, para se transformar em realidade, tem que lidar com duas grandes questões. Em primeiro lugar, precisa encontrar soluções para os exércitos de desempregados, o que significa transferir-lhes renda, a fundo perdido, e/ou organizá-los em formas razoavelmente viáveis de economia de subsistência, numa espécie de neofeudalismo. Em segundo lugar, deve submeter ao seu controle o último grande baluarte do Estado-Nação - as forças armadas, que teriam que ser transformadas em aparatos policiais. Um cenário alternativo à constituição do governo mundial das grandes sociedades anônimas seria, é claro, uma série de rupturas institucionais, que criassem regimes políticos contrários ao livre mercado. Na Rússia, com o fantasma sempre presente do golpe militar, na Argélia e no Egito, com a perpectiva da criação do Estado islâmico, esse cenário está prestes a se materializar.
- MARCELO AFFONSO MONTEIRO, Brasília.
Chica da Silva
Parece-nos que os autores da novela Chica da Silva, que a TV Manchete vem apresentando com grande propriedade, ‘‘comeram barriga’’ na denominação de uma escrava. Focalizando um fato histórico acontecido no Brasil colonial, surge uma escrava com o nome de Fátima. Ora, esse nome é um topônimo de um lugar de Portugal, e só passou a ser usado em pessoas, nos países católicos, em decorrência da aparição de Nossa Senhora, em Fátima - Freguesia do Conselho de Vila-Nova-de-Ourém, distrito de Santarém, fato acontecido no dia 13 de maio de 1917. Daí veio a adoção deste nome em muitas crianças, até hoje: Maria de Fátima.
O assunto da novela aconteceu muito antes de 1917, não se justificando o nome da escrava: Maria de Fátima. Foi nome da filha de Maomé, que não seria o caso. Salvo melhor juízo da produção da novela.
- JOÃO LISBÔA DE MACÊDO, Ladário-MS.

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