O leitor escreve
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segunda-feira, 30 de dezembro de 1996
Reflexão sobre drogas 
Gostaria que este artigo fosse lido por qualquer pessoa, sem preconceito, por achar que droga não é assunto só para o Governo, Polícia, Justiça e a família dos viciados. É um grave problema que nós todos, mesmo que não tenhamos essa preocupação, temos tudo a ver na prevenção e no uso indevido. O vício de drogas (narcóticos, álcool) é um problema biopsicossocial. Diariamente, assistimos, vemos e ouvimos: Aumento cada vez maior de apreensões; quadro de viciados em crack é assustador; o Brasil passou do nono para o segundo ou terceiro lugar no consumo de drogas; o refino, tráfico e distribuição cada vez mais sofisticados; a AIDS cada vez aumentando; o consumo saiu do uso exclusivo dos adultos para as crianças. Por tudo isso e mais devemos nos interessar, darmos as mãos e evitar a disseminação desse câncer social. O grande defeito da nossa sociedade é tudo esperar das autoridades e dos organismos oficiais. Quando a Polícia e a Justiça agem ela já está instalada e pouco há a fazer, senão reprimir e castigar. Cabe a nós, pais, educadores, cidadãos em geral, os encargos de prevenção.
O Brasil é um país de jovens! Um dia os nossos filhos também terão filhos! A juventude cada vez maior, a maturidade das crianças hoje é mais precoce; o acesso ao ensino superior é mais frequente. O casamento em idade mais avançada hoje é mais frequente que no passado. Há uma mística criada em torno de tudo que é ou tem a ver com a juventude. O período da puberdade e da juventude corresponde a uma fase de inquietação, na busca de identidade e afirmação dos conflitos - fator biológico. O jovem convive hoje com uma família em desagregação; escola falha... uma sociedade sem líderes para ser admirados e seguidos; sem ideal e sem perspectivas de um futuro confiável e seguro. Vivendo um presente, sem bens ou sem moral, o jovem brasileiro tem todo um quadro de favorecimento para aceitação de uma fuga às drogas - fator social. Com a vivência e o conhecimento que tenho, inclusive de congressos recentes, concluo que a crise do mundo e nossa não é de bens, mas de amor.
Os especialistas conseguem apenas recuperar no máximo 15% dos viciados. Dirigente de Centro de Viciados, ateu confesso, diz que só se consegue recuperação com dois ingredientes: religião e amor (no sentido lato da palavra). Não é o amor de novelas, mas o amor cristão (sentimento: valores cívicos, morais, educação, etc). Para enfrentar o problema com resultados positivos, além da nossa participação como cidadãos, necessitamos do rádio, revistas e televisão, com informação sobre os valores que norteiam a família e a Pátria (Educação - Religião - Trabalho). Os órgãos de informação precisam juntos conosco (cidadãos-escola) ser instrumentos de conscientização, transformação e mudanças da sociedade moderna. Não é só ao Governo, à Justiça e à Polícia, que competem. Quando chegam ou entram no assunto, o narcotráfico já está instalado e só resta reprimir e castigar. Se alguém falar que nada disso vale a pena, responda como o médico Elias Murad: Vale a pena sim, porque esse um pode ser seu filho!
- HENRIQUE ALVES PEREIRA JUNIOR, médico em Londrina


