O leitor escreve
O LEITOR ESCREVE
Saúde de mercado
Você ligou para o hospital Cajuru. Vamos tornar sua espera a menor possível... Primando pela qualidade de seus serviços, o hospital está ampliando suas instalações, para tornar o tratamento seguro e eficaz, visando a satisfação do cliente... O hospital dispõe de uma equipe médica de especialistas e investe na qualidade de seus profissionais... A gravação é do telefone nº 362-1100, mas ao paciente do Sistema Único de Saúde (SUS), Emílio Alves, meu vizinho, idoso e deficiente, com retorno marcado para o último dia 17, foi negado atendimento. Seu Emílio pagou o táxi para levá-lo ao Cajuru com as sobras do que ganhou como engraxate, antes de se ferir, num tombo acidental, sua única ferramenta de trabalho, as mãos. Tinha pressa em voltar a engraxar, daí a insistência em tirar os pontos da mão que ainda doía no exato dia marcado pelo médico, que de plantão não estava. A enfermeira que podia tirar os pontos escafedeu-se. Na folga do atendente que faria o curativo, um funcionário da portaria mandou o Emílio para o 24 Horas. Já no Boqueirão, sem dar nome e número de ruas.
Indignado com a excelência, acesso a gravação publicitária faturada por conta do sofrimento humano. A voz repica que o hospital investe na qualidade de seus serviços e amplia as instalações para atender a demanda maior de doentes do mundo globalizado. A telefonista intervém no solilóquio virtual e convoca uma suposta atendente de enfermagem para demonstrar o que sabem fazer em momentos de crise: irritar-se com o descalabro.
O senhor já ligou uma vez. Não vou dizer meu nome, não temos condições de atender o paciente, aqui ninguém faz curativos. Insistimos e ambas coincidiram em desculpar-se, afirmando que nada podiam fazer, porque médicos e administradores não fazem plantão hoje. Traga o paciente amanhã (segunda-feira), em qualquer dia útil, porque aos domingos, somente casos de emergências são atendidos. É desta forma que o SUS classifica seus pacientes. São meros casos casuísticos esfarrapados de si próprios. Então atenda o Sr. Emílio, exigi. O caso dele não é grave, rebateu. É sim, ameacei, sem lograr êxito no pleito de ajuda ao engraxate. O grave descaso não pode ser legitimado pelos hospitais privados que mordiscam o SUS, nem pelos neoliberais planos de saúde de mercado e seus profissionais mercantilistas, que lacram em aprendizado tratando a ricos e pobres. Por ser e morrer mais, com a demanda reprimida de doadores, depauperada deveria ter um tratamento justo e preferencial em qualquer pronto socorro.
- JOSÉ A. FIORI, Curitiba
Injustiça
Não tenho a intenção de falar sobre pintura. Meus conhecimentos sobre essa arte não me autorizam vôo tão alto. Todavia, tal fato não impede que me refira a um artista para enaltecê-lo pela contribuição que deu à cultura paranaense. Contribuição que não vem recebendo atenção das autoridades, encontrando-se, por isso, esquecida, vitimada por atitude de cunho político que deixou a população tomada por um misto de tristeza e revolta. Esse artista, Guido Viaro, de quem muito se tem falado ultimamente, em razão do centésimo aniversário do seu nascimento, deveria, pelo menos, por uma questão de reconhecimento, ter seus trabalhos expostos permanentemente, num local em que o público pudesse apreciar o seu talento.
Pelo que tenho lido a respeito desse artífice da pictografia, aquele local, um museu que levava o seu nome, existiu. Infelizmente, tudo ficou no passado. O museu acabou. Suas portas foram cerradas, impedindo o deleite dos amantes do belo. Foi um acontecimento lamentável que, mais uma vez, aponta o nosso país como lugar de administradores insensíveis às manifestações culturais. No caso, além do sacrilégio contra um santuário da arte de pintar, houve a prática de injustiça contra a memória de um artista.
- DARIO LIVINO TORRES, de Curitiba
Reeleição
O presidente Fernando Henriqe Cardoso obteve mais uma vitória ao lhe ser facultado o direito (embora imoral) de continuar na curul presidencial, enquanto seus concorrentes deverão pastar no capim ralo dos palanques e na arena grossa dos comícios de fundo de quintal. Num país do coronelismo, enxada e voto, de que já nos falava Vitor Nunes Leal há 40 anos, esse tipo de privilégio é uma rasteira na democracia, no direito de disputa igualitária, pelo menos aparente.
Sairá o Nando com enorme vantagem para disputar a reeleição, que já lhe parecia fácil pela falta de concorrentes que lhe ameaçassem a campanha. Agora ficou pior. Nando isola-se, pelas inúmeras vantagens que tem para usufruir da máquina, mesmo não querendo. Sua campanha é natural e automática. Basta um gesto, chega uma palavra, satisfaz um bocejo, para que o público saiba que alí está o candidato, enquanto os demais deverão submeter-se à ditadura do tempo, aos segundos da televisão.
FHC se transforma, aos poucos, num presidente perpétuo. É possível que o tenhamos até 2.010. Depois desta reeleição virá uma terceira, uma quarta e, se longe for, uma quinta. Teremos o nandismo ou o efeagacesismo como práxis filosófico-política para o bem do Brasil, diriam os bajuladores, mas certamente, para tristeza dos verdadeiros democratas. Até quando o Congresso votará subservientemente os desejos do filho do saudoso general petebista Leônidas Cardoso?
- JORGE BALEEIRO DE LACERDA, Francisco Beltrão
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