O leitor escreve
O leitor escreve
Reeleição
O presidente Fernando Henrique Cardoso obteve mais uma vitória ao lhe ser facultado o direito (embora imoral) de continuar na curul presidencial, enquanto seus concorrentes deverão pastar no capim ralo dos palanques e na arena grossa dos comícios de fundo de quintal. Num país do coronelismo, enxada e voto, de que já nos falava Vitor Nunes Leal há 40 anos, esse tipo de privilégio é uma rasteira na democracia, no direito de disputa igualitária, pelo menos aparente.
Sairá o Nando com enorme vantagem para disputar a reeleição, que já lhe parecia fácil pela falta de concorrentes que lhe ameaçassem a campanha. Agora ficou pior. Nando isola-se, pelas inúmeras vantagens que tem para usufruir da máquina, mesmo não querendo. Sua campanha é natural e automática. Basta um gesto, chega uma palavra, satisfaz um bocejo, para que o público saiba que alí está o candidato, enquanto os demais deverão submeter-se à ditadura do tempo, aos segundos da televisão.
FHC se transforma, aos poucos, num presidente perpétuo. É possível que o tenhamos até 2.010. Depois desta reeleição virá uma terceira, uma quarta e, se longe for, uma quinta. Teremos o nandismo ou o efeagacesismo como práxis filosófico-política para o bem do Brasil, diriam os bajuladores, mas certamente, para tristeza dos verdadeiros democratas. Até quando o Congresso votará subservientemente os desejos do filho do saudoso general petebista Leônidas Cardoso?
- JORGE BALEEIRO DE LACERDA, Francisco Beltrão
O pacto
Já se preparam as campanhas para as próximas eleições. Políticos e partidos se posicionam. Vantagens são levantadas e avaliadas. Pactos são firmados. Mesmo dessemelhante, pela época, local e circunstâncias, um pacto especial, extremamente inspirador, merece, agora, ser conhecido ou lembrado, pois, marcando determinada etapa histórica, ele transcende o tempo e adquire significado atemporal.
No final de 1620 chegaram na Baía de Plymouth, na costa leste do que hoje constituem os Estados Unidos da América, 102 ingleses, homens, mulheres e crianças, que passaram à História com o nome específico de Pilgrims (Peregrinos). Eram negociantes, agricultores e soldados que, cheios de esperança, estabeleceram modo de vida inteiramente novo no Novo Mundo. Eles haviam recebido, pouco antes de partir da Inglaterra, uma carta de despedida de John Robinson, estimado pastor que ficara na Holanda. Robinson lhes dissera que deveriam constituir-se num corpo político no Novo Mundo. E os seus dirigentes decidiram agir de acordo com as suas palavras. Antes de desembarcarem, quando ainda o Mayflower navegava lentamente ao longo da costa, William Brewster e Stephen Hopkins foram incumbidos de redigir um breve pacto. Os dois homens trabalharam, então, num documento que seria mais tarde celebrado como marco na longa luta do mundo pela liberdade e dignidade.
Cito literalmente o documento: Em nome de Deus, amém. Nós, abaixo assinados, leais súditos do nosso venerado e soberano Senhor Jaime, pela graça de Deus Rei da Grã-Bretanha, da França e da Irlanda, defensor da fé etc. Havendo empreendido, para a Glória de Deus, a extensão da fé cristã e a honra do nosso Rei e da nossa Pátria, uma viagem para fundar a Primeira Colônia nas Partes do Norte da Virgínia, pelo presente solene e mutuamente na presença de Deus e uns dos outros nos unimos num Pacto e nos constituimos num Corpo Político Civil para melhor ordem, manutenção e cumprimento dos fins supra mencionados, para, em virtude disso, decretar, promulgar e baixar justas e iguais leis, regulamentos, atos, constituições e funções à medida que julgadas mais próprias e convenientes ao bem geral da Colônia, à qual prometemos toda a devida submissão e obediência. (Fonte: Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América)
A célebre Declaração de Direitos do Homem, francesa, é de 1791. A Declaração Americana é de 1776. Assim, o Pacto aqui citado é 171 anos anteriores à Declaração Francesa e 156 anos anteriores à Declaração Americana. O Pacto não tinha a intenção de atrair a atenção do mundo. Não havia em nenhum deles a consciência de que se tratava de um momento histórico. O Pacto não buscava poder para um pequeno grupo ou uma pessoa. Mas quando o examinamos mais atentamente, em sua tranquila grandeza, as frases fundamentais se destacam: Na presença de Deus e uns dos outros; leis justas e iguais, bem geral.
Essas idéias criaram pouco a pouco raízes no solo virgem de um continente novo, ganhando força até o dia - mais de 150 anos depois - em que floresceriam em frases tão sonoras como todos os homens são criados iguais e governo pelo consentimento dos governados. E, posteriormente, no célebre Gettysburg Adress de Abraham Lincoln: ... governo do povo, pelo povo, para o povo.
- RICARDO SATHLER, cirurgião dentista em Londrina





