O Leitor Escreve
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Colonização de Londrina
Li com atenção a carta do advogado Otávio Paulo Genta, publicada aqui dia 14, onde se criticava a proposta de homenagem (através de um monumento na nova rotatória do centro) à colonização inglesa no Norte do Paraná sob o argumento de que, além dos britânicos não terem sido tão heróis como se costuma apregoar, já que se valeram de milícias armadas para repelir eventuais posseiros, não teríamos incorporado à nossa cultura nenhum traço da deles, concluindo por sugerir que sejam homenageados árabes, portugueses, japoneses, espanhóis etc e não os ingleses colonialistas interesseiros que, ainda segundo o ilustre advogado, só seriam merecedores de alguma homenagem na América do Norte, único lugar do mundo onde foram bons colonizadores. Ouso discordar em tudo.
Primeiro porque se o critério de heroísmo for utilizado para aferir qual povo merece homenagens, com absoluta certeza nenhum dos mencionados seria digno de tal honra. Os nossos portugueses, é fato notório, jamais se interessaram em colonizar o que quer que fosse. Sérgio Buarque de Holanda, em seu Raízes do Brasil, nos dá notícia que o desprezo dos colonizadores lusitanos por nossa terra e o desejo de ir embora o mais rápido possível eram tamanhos, que foi impossível ao primeiro governador-geral do Brasil cercar as vilas de Santos e São Vicente, tal o desalinho entre as casas, construídas, sempre, provisoriamente. Os japoneses são temidos e respeitados em toda a Ásia porque massacraram sem dó nem piedade os chineses no começo deste século. Para demonstrar a desumanidade dos espanhóis, basta lembrar que Ataualpa, o último imperador dos Incas, sem jamais ter visto uma cruz em toda sua vida, foi sumariamente estrangulado (e é exatamente este o termo) pelo Tribunal da Santa Inquisição. Os exemplos de atrocidades poderiam se estender ao infinito; contudo, o espaço é reduzido.
Segundo porque dizer que os ingleses foram colonialistas é, no mínimo, uma grande injustiça. Se Londrina foi um grande pólo econômico no passado e seu planejamento, através de ruas de bom tamanho e de traçado regular é até hoje invejado, devemos isso pelo menos em boa parte aos ingleses, que é bom lembrar, a projetaram para comportar no máximo 30 mil habitantes e negociaram pequenos e médios lotes de terra com absoluta honestidade. Além disso, a pejorativa referência às ex-colônias britânicas não procede. A Austrália dos degredados é hoje, não obstante sua juventude, um país com renda per capita de US$ 15.800,00, quase quatro vezes mais que a brasileira. Hong Kong, a jóia do oriente, foi literalmente disputada a tapa pela China. Por tais argumentos me posiciono a favor da justíssima homenagem proposta aos ingleses. A propósito, nem de tudo discordo. É verdade que, felizmente, não comemos muffins e sim a deliciosa feijoada.
- ARTHUR DOUGLAS VENEGAS, advogado em Londrina
Presente do Paraná
É muita grana, gente, mmmmuita mesmo. O povo paranaense dá de presente para os franceses, que já ganham uns 22 mil dólares per capita a cada ano - a nossa anda lá pelos 4.600... -, 1.9 bilhão de reais, mais uma grana como capital (uns dizem 200 milhões, outros mais, porém ninguém menos), um latifundio de 2.600.000 metros quadrados, algo como uma fazenda de 110 alqueires, a 20 mil reais o alqueire. Bota aí uns 18.600.000 reais de terraplenagem e drenagem do latifundio acima dado, pois deve ser dado bem sequinho e aplainadinho. A gaita, outra vez, é nossa. Ah, o terrenaço está no escuro, é isso mesmo. Bota uma subestação de energia. Agora ficou clarinho. A dolorosa, luminosa, custa 15 milhões. Imagina só quem vai pagar a conta... Acertou.
Ôpa, tem que ter também terminal no Porto de Paranaguá. Ninharia, detalhe. Todos merecem, afinal, ter seu terminalzinho marítimo. Alguma firma paranaense ainda está na dos sem-terminal? Vai ver que é porque só a Renault pediu, pode crer. Será que nos dariam um terminal lá na França? Sei não. Mas aqui, com todo esse litoralzão, que que custa dar um terminalzinho? Ah sim, bota na conta... E as águas servidas, os esgotos, os poluentes, o que a fábrica bota pra fora sem parar, como ficam? Nem se abalem. Aqui também somos ecológicos. Fica frio, que uma estação de tratamento vai com lacinho. Aqui é assim; quem convida dá banquete.
Tomo a liberdade de arredondar a conta para 2 bilhões de reais (os 1,9 lá de cima, mais os presentinhos), sem contar a grana investida no capital dos homens. Quando a fábrica gerar os famosos dois mil empregos, cada um estará custando a cada paranaense um milhão de reais no mínimo. Coisa de louco. Aqui no planeta do terceiro mundo um posto de trabalho industrial, dos bons, sai por 80 mil reais por pé-vermelho. É mole? Mas o nosso governo se nega a divulgar detalhes do acordo que, aliás, o Secretário afirma ignorar... Copiei estes dados da Folha de São Paulo, do dia 14. Não sou político nem oposição. Não conheço o sr. Luiz Cláudio Romanelli, e li na Veja da semana passada que a Renault está de pé no breque, pensando importar seus carros argentinos. Vai ter terminal mesmo, né? A gaita francesa que pinga na nossa fábrica: 700.000.000 de dólares, uns 800.000.000 de reais. Soma aí, nossos dois bi alí de cima. Grande grana. Fala povo. As estradas vão mal, escolas nem falar, a saúde tá-qui-tá (sou médico). O governo me informou e está na minha gaveta que agricultura e pecuária já eram. Vai ver que plantar automóvel e comer efluentes é o nosso destino.
- LINCOLN BRASIL E SILVA, médico em Londrina
Medo de Deus
Não posso aceitar que o medo de Deus continue sendo causa de estresse na infância. Infância é o paraíso perdido ao qual os adultos querem um dia, idilicamente, retornar. É a gostosa saudade de estar entre a meninada correndo, empinando pipas e deixando voar nossas fantasias para além dos fantasmas com os quais os mais velhos querem nos assombrar. Medo é o outro nome do desprazer de viver porque ele nos torna amantes e propagadores da liturgia da morte. O bom Deus não ama as Candelárias ensanguentadas. Por isso há necessidade de exorcizá-las. Os alunos não amam escolas retratadas por rostos marcados por azedume. Em seu lugar os bons educadores propõem uma pedagogia de parceria onde se dê mais ênfase no elogio aos êxitos do aluno, ainda que poucos, que à repreensão dos seus possíveis muitos fracassos.
A visão de um deus rigor que contabiliza num livro caixa nossos acertos e desacertos imobiliza os corpos para as alegrias da vida. Em lugar de pintar a divindade com um mal olhado os poemas inspirados personalizam os nomes do Sagrado como a expressão do nosso mais belo e intenso desejo.
- CARLOS ALBERTO RODRIGUES ALVES, delegado substituto do MEC no Paraná





