O LEITOR ESCREVE
Um ano depois
Passado um ano do desaparecimento de Elias Abrahão do nosso convívio, a sua memória, todavia, permanece como chama que não se apaga. É o mistério da pessoa cuja fé e obras fazem com que ainda fale, mesmo não presente em corpo visível. Para os companheiros e amigos do grande homem, a fatídica manhã da antevéspera da primavera prolongou o inverno nos corações, pela ausência de alguém que soube aquecer vidas com palavras sempre carregadas de calor e de renovada esperança, transformando trevas da noite em dia claro.
Sedento de fraternidade e amizade entre as criaturas, inimigo de toda espécie de violência, encarnou programas no sentido de promover a concórdia e a paz, humanizando as relações humanas. Nesse espírito, dentre tantas atividades na seara do mestre e nas demandas educacionais e políticas, foi um dos paladinos da criação da Associação Comunitária Pró-Paz, instituição que, embora singela e limitada no mundo de incontida violência, voluntariamente se propõe: a - promover programas que visem combater a violência, pugnando em prol da paz e da concórdia, pela conduta normal das pessoas na vida comunitária; b - dar assistência material, moral e jurídica às vítimas de qualquer espécie de violência, notadamente às desprovidas de recursos ou de orientação; c - desenvolver e cultivar valores sociais, artísticos, esportivos e culturais na comunidade; d - colaborar com as autoridades no combate pacífico à violência, através de programas apropriados ou orientação especializada; e - divulgar, através de cartazes, panfletos, jornais, revistas etc. matéria que possa motivar as pessoas à coexistência pacífica, inspirada principalmente nos princípios cristãos.
Quando já vai se distanciando a trágica noite que ceifou essa vida em pleno vigor da existência fecunda, por último com destacada atuação no Parlamento nacional, a memória e os feitos de Elias Abrahão devem permanecer acesos na lembrança de todos quantos com ele conviveram. Para isto nada melhor que aceitar o desafio de promover a paz.
- JOEL PUGSLEY, magistrado e coordenador da Associação Pró-Paz
Pilantropia
Por ocasião da elaboração da Constituição, uma das grandes preocupações dos constituintes era encontrar uma forma de beneficiar as entidades beneficentes de assistência social, que há muito vinham desenvolvendo atividades de cunho social, ocupando um espaço que não era preenchido pelo Estado brasileiro. Assim nasceu o parágrafo 7º do artigo 195 da Constituição, que reza: ‘‘São isentas de contribuição para a Seguridade Social as entidades beneficentes de assistência social que atendem às exigências estabelecidas em lei.’’
Para regulamentar o preceito constitucional a Lei nº 8.212/91 criou brechas que estão sendo exploradas por empresas de diversos segmentos econômicos. A Previdência Social vem sofrendo drasticamente com essa excrescência que são as isenções, trazendo prejuízos imensos aos contribuintes que pagam religiosamente as suas contribuições e não conseguem usufruir de uma Previdência Social pública de qualidade. Criou-se uma rede de ‘‘entidades filantrópicas’’ que, sob o manto protetor da lei, foge das contribuições previdenciárias patronais. Essas entidades são na realidade os hospitais e escolas mais caros das grandes cidades, onde o acesso para os carentes não passa de letra morta dos estatutos. Na realidade só usufruem dos ‘‘benefícios filantrópicos’’ os diretores que estão enriquecendo a olhos vistos. Há pouco houve um embate jurídico para se provar que a Golden Cross não era entidade filantrópica. Ressalte-se que a Golden Cross só praticava ‘filantropia’ para os seus diretores.
Recentemente o ministro da Previdência Social disse que vai declarar guerra à pilantropia. Alvíssaras, ainda bem que o governo teve a sensibilidade para este grave problema que está deteriorando a ética comportamental e erodindo as contas públicas, além de causar enormes prejuízos às verdadeiras entidades filantrópicas que são preteridas na hora de receber recursos públicos. O Brasil é um país cheio de contradições. Enquanto o governo reclama a falta de recursos para as escolas e hospitais públicos, a renúncia fiscal prevista na proposta orçamentária para o ano que vem é quase igual ao valor do orçamento do Ministério da Saúde em 98, cerca de R$ 19 bilhões. Já o Ministério da Previdência Social deixará de arrecadar a importância de R$ 3 bilhões por conta da farra das pilantrópicas.
Democracia com justiça social só se alcança com equidade na forma de participação no pagamento de impostos e contribuições, o que não ocorre no Brasil porque a nossa política tributária é extremamente injusta e perversa e as nossas leis mais parecem queijos suíços por onde evade toda sorte de pilantropia.
- ÁLVARO SÓLON DE FRANÇA, fiscal de contribuições previdenciárias, Brasília
Doutrina de FHC
Outro dia, em prolixa entrevista à ‘Veja’, dez páginas no corpo 9, FHC falou que o Brasil não o entende e o critica sem saber que seu governo tem um norte, uma direção, uma ‘derrota’ que o levará a ancoradouro certo. A ‘Carreira da Índia’ do Nando não é obra de nauta sem experiência nem de timoneiro de primeira viagem. Só que a ele, somente a ele, cabe a culpa de o país não conhecer sua filosofia de governo, seus dogmas em matéria de Brasil, o que é sagrado, indiscutível, intocável como essência nacional e o que padece de mudanças.
Ora, só uns poucos, em 150 milhões, têm oportunidade de tomar o café da manhã com FHC. Raros privam de sua intimidade. Como, então, vamos conhecer seu pensamento, saber das suas análises profundas, do entendimento que tem do Brasil ou dos Brasis, do que acha da globalização e do neoliberalismo, da fome e do desemprego, do aborto e do MST. Cabe a ele, obviamente, vir à nação (Para isso tem rádio e TV de graça) e explicar, como o fez à grande revista dos Civita, sem nhem-nhem-nhem, o que pensa e como pensa, o que faz e o que gostaria de realizar. O Nando tem meios e modos, além de ser excelente expositor, de vir à televisão e explicar seu Governo, ‘ex cathedra’, como está habituado a fazer como ‘scholar’ e acadêmico que foi durante décadas. Oxalá ele possa prestar esse serviço à nação. Num país que lê pouco, falar pela TV é saber que será ouvido e visto por 50 ou 70 milhões. As mesmas respostas que deu ao notável jornalista Roberto Pompeu de Toledo deveria oferecer aos telespectadores.
Como o Brasil poderá saber do que pensa o Nando se ele, num mutismo inexplicável, só fala de sonhos e angústias, dos seus planos e metas para meia dúzia de amigos e iluminados do Planalto Central? Fala à nação antes de nos culpar por não ‘vos’ entender.
- JORGE BALEEIRO DE LACERDA, Francisco Beltrão

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