O leitor escreve
O LEITOR ESCREVE
Colonização de Londrina
Manifesto solidariedade ao sr. Valter Durães Monteiro, que levantou polêmica ao tomar posição contrária a de se prestar homenagem, com monumento e tudo, na nova rotatória central, aos inglêses que colonizaram Londrina. Bem a propósito a pergunta que encerra a matéria publicada na edição de 20 de agosto da Folha: Os inglêses foram mesmo os heróis que a região pensa que foram? Aliás, a resposta à pergunta formulada já teve início na matéria, também publicada pela Folha dia 13 de abril, na capa do caderno Folha Paraná, que trazia corajoso artigo do professor e sociólogo Nelson Dacio Tomazi, que em sua tese de doutorado, defendida junto à Universidade Federal do Paraná, apontou alguns dos mitos e estórias que transformaram os inglêses da Companhia de Terras do Norte do Paraná em heróis, como tendo sido patrocinados por historiadores que defendiam os interesses da então poderosa empresa.
Naquele artigo são reveladas as violências cometidas pela milícia armada particular da Companhia inglêsa, numa época que era comum encontrar posseiros mortos nas ruas da cidade. Nem a figura de George Craig Smith é poupada, pela revelação de que ele chegou em 1929, deixando a cidade em 1937. Talvez fosse mais apropriado dizer que os inglêses foram mais nossos loteadores do que nossos colonizadores. Ao contrário da novela global, onde a comunidade colonizada pelos inglêses deles herdam nítida influência no idioma e na cozinha, poucos de nós saboreiam o chá preto ou preparam muffins. Se o fazem é só pela oportunidade de terem se habituado em viagens além mar.
De fato, é na culinária que se registra um dos primeiros sinais de integração
cultural. Visitando a prestigiada e tradicional Feira da Lua, ao lado do Moringão, senti o aroma de muito sushi, bolinho de bacalhau, queijo provolone e esfiha, muitos cozinheiros exibindo vestimentas típicas, mas nada lembrava as ilhas britânicas. Fica a sugestão ao competente urbanista e secretário, filho do ilustre e saudoso Mário Stamm: vamos homenagear os nossos japoneses, italianos, espanhóis, portugueses e árabes, já que os nossos inglêses foram mesmo mais colonialistas interesseiros do que colonizadores, não sendo possível esquecer do que sucedeu na Índia de Gandhi, na África do Sul do aparthaid, Austrália dos degredados, Arábia de Lawrence, Hong Kong recém-independente e, vergonhosamente, até hoje nas nossas vizinhas Ilhas Malvinas, tão próximas à costa do nosso continente. O único lugar do mundo para onde os inglêses foram mesmo como bons colonizadores foi para a América do Norte, onde merecem monumentos. Mas aqui, como bem sentenciou o filho do pioneiro, Valter Durães Monteiro, tudo bem, lotearam, venderam mas receberam. Estão pagos.
- OTÁVIO PAULO GENTA, advogado em Londrina
Dentadura
A cada mês, FHC nos brinda com palavras pouco usuais, demonstrando que seu calepino é rico. Lido nos clássicos, nascido em berço de vetusta tradição lusíada, Nando usa a língua com certa pureza. Sua mania de lançar arcaismos em discursos, sempre que pode, é salutar. Ajuda a enriquecer o pobre vocabulário do povo, ainda mais do jovem, que só sabe, em média, 800 palavras, segundo pesquisa.
A língua portuguesa tem muito a oferecer. A cada semana, se o Nando quiser, poderá lançar à turba um termo esdrúxulo, desviando, destarte, a atenção de assuntos importantes do momento para o universo verbal luso-brasileiro, tão abundante em palavras e expressões. Pode, também, valer-se dos nossos regionalismos. Por exemplo, quem saberia dizer no Amazonas o que seja presidente roncolho, como certa vez usou a expressão João Goulart ao perder parte do poder para o regime parlamentarista. O que significa, por exemplo, pitiú do poder? Duvido que um gaúcho traduziria com correção. A inflação está descendo de bubuia no mar da economia ou o emprego no Brasil está perrengue, mas vai melhorar?.
Não sabia que Nando gostava tanto de palavras inusuais. Pois vou mandar-lhe um texto sobre o supério-do-hiper-supra. Encerro perguntando ao Nando quando este país deixará de ser um pactolo para transformar-se em riqueza usufruída pelo povo. Não adianta ter dentadura, mais conhecida no Paraná por perereca e chapa, se não há muito o que comer, exceto pescoço de frango e perna de galinha (no bom sentido). A concentração de renda nunca foi tão grande. Os excluídos aumentam e FHC não consegue tirar as soluções da manga da batina do seu tio padre.
- JORGE BALEEIRO DE LACERDA, Francisco Beltrão
Revolução do coração
Atualmente é surpreendente ler algo produtivo nas páginas de opinião. Foi o que aconteceu dia 12, no inteligente e necessário artigo do jornalista Walmor Maccarini: Antes a revolução do coração. O autor foi ao centro dos nossos problemas. Nada é feito com o coração, e enquanto isso não acontecer, vamos continuar sofrendo por causa dos nossos erros. É nojento ver o ser humano (e não me excluo) tomar atitudes visando um objetivo, um interesse. Nós não conseguiremos caminhar pela caridade, pela consciência, pelo amor. Temos muito ainda que crescer para, realmente, merecermos o título de civilizados. Ainda nos encontramos numa civilização muito pequena e nem nos damos conta. Tudo o que vimos colhendo temos semeado? A Natureza Divina provê e dispõe tudo, e há em abundância para todos. O homem envolveu demais os pés na terra, criou raízes fundas e agora não consegue desprender-se. As frases do Walmor são fortes e não fazem sentido para aqueles que não percebem a necessidade da revolução do coração. Parabéns, Walmor, por dizer isso em uma hora tão oportuna.
- REINALDO C. ZANARDI, Londrina





