O Leitor Escreve
O Leitor Escreve
A toga e o índio
Com a decisão polêmica de amenizar a situação dos jovens burgueses, que assassinaram cruelmente o índio Pataxó em Brasília, a meritíssima juíza coloca em xeque a credibilidade do Judiciário. A impressão que fica é a existência de duas leis, que correm paralelas: a lei que se aplica ao pobres e a que se aplica aos ricos. A magistrada veio a público e alegou que sua atitude não foi emocional, que agiu profissionalmente enquanto a sociedade, indignada, condenava o ato cruel praticado. Disse, também, que a tristeza e desespero das mães dos rapazes a comoveram.
Cabe aqui uma pergunta: E o desespero da família do índio Galdino, da esposa, dos filhos, dos amigos? Pobre não tem sentimento? Querer explicar que jogar álcool em uma pessoa que dormia e atear fogo eram simples brincadeirinha, e que os assassinos não queriam matar, é no mínimo tão cruel, quanto o próprio crime, cruel com a sociedade, cruel com a vítima e cruel com a própria lei, de que a meritíssima juíza faz parte e aplica.
- PAULO NEGRI, Londrina
Lenha na fogueira
Espero que este espaço, meio que oportuniza a manifestação dos leitores, nunca desapareça. Ele nos mostra os mais diversos pontos de vista. No artigo publicado aqui, dia 18, de autoria de Procurador do Estado do Paraná, percebe-se clara defesa à decisão da juíza que amenizou uma possível condenação dos garotos que atearam fogo num índio pataxó. Tenho dúvida se haverá punição aos garotos.
Longe de ofender o sistema judiciário brasileiro, deixo registrado meu pesar a respeito do andamento daquele processo. Estamos à beira do ano 2000 e ainda não aprendemos a ter respeito pela nossa brasilidade. É muito fácil alguém posicionar-se contra ou a favor de outrem. Difícil mesmo é nos posicionarmos diante de nós mesmos. O ato de três ou quatro moços não queima apenas a pele de um índio qualquer que dorme ao relento. Queima toda uma nação que tem fibras indígenas em suas raízes. Queima toda uma cultura. Queima a todos nós. Somos tão humanos e brasileiros quanto o índio Galdino. Com este ato provamos que, ao longo destes quase 500 anos de história, ainda não aprendemos a ver nossos irmãos nativos como nossos irmãos. Não é preciso lembrar como muitas tribos e a cultura que representavam foram dizimadas pelas mãos de brancos, nossas mãos.
O próximo argumento da defesa dos moços poderá ser: Talvez os garotos não tivessem intenção de tirar a vida de ninguém e estivessem até preocupados com o frio e a saudade que Galdino pudesse estar sentindo de seus costumes, estando numa cidade e ao relento. E que, num gesto caridoso, aqueles mesmos compadecidos garotos proporcionaram um pouco de calor para remediar o frio e, ao mesmo tempo, ofereceram ao pataxó adormecido uma bela fogueira como aquela avistada por Galdino no dia da sua partida para Brasília, aquela fogueira bem em frente a sua casa. Foi pena não haver lenha nas proximidades e uma fatalidade o índio ter morrido...
- ALEXANDRE NEGRI JULIÃO DA SILVA, Campo Mourão
Fila única
Há anos, nós, brasileiros tínhamos dificuldade em cumprir obrigações e reivindicar direitos, devido ao péssimo atendimento nas repartições públicas e privadas. Diz-se que os sistemas se modificaram para facilitar e ajudar. Mas facilitar o quê? Ajudar a quem? Naquele tempo muita gente perdia a calma nas imensas filas no caixa dos bancos, no INPS etc. Hoje não é muito diferente.
Com a progressiva implantação da informática, todos prometiam agilizar o atendimento ao público, para que se tivesse tempo para outras atividades. Mas nas repartições públicas e privadas continua o caos, um tormento causado pela implantação do sistema de fila única, pois o número de funcionários para atender é insuficiente, num país onde muitos dão a vida por um emprego, fazendo com que se perca horas numa fila morosa e interminável.
O ritmo é corrido e a maioria das pessoas só tem disponível seu horário de almoço para resolver problemas bancários pessoais, dos patrões ou de empresas, por que não pensar em remanejamento no período? É nessa hora que a coisa pega. A maioria dos funcionários está na hora do almoço e o povo tem que perder o seu. É lamentável que num país que quer fazer parte do primeiro mundo, as empresas gastam tanto em máquinas enquanto a classe trabalhadora está despreparada para utilizá-las.
- CLARICE MACHADO, Londrina
Modelo do Paraná
Quando a senhora Ruth Bolognese, chefe de gabinete da Secretaria de Estado da Comunicação Social do Paraná, contesta artigo escrito por um deputado estadual, dia 15, usa a mesma retórica que preenche os vazios da racionalidade política do governo Lerner. Dessa forma conduz a administração Lerner ao Nirvana da vanguarda, pois é governo que se defende da oposição utilizando estatísticas aquém do poder de julgamento da maior parte da população. O povo não quer saber se a CIC foi criticada em sua origem, pela oposição, e sim como o governo pretende dar emprego a milhares de pessoas à procura de colocação. Só em Curitiba ultrapassam 130 mil.
A CIC emprega menos que as empresas instaladas no Boqueirão. Grandes multinacionais não vêm para cá fazer caridade e implorar mão-de-obra. Elas vêm porque aqui a mão-de-obra é barata e as pessoas estão com a barriga vazia e não têm outra opção. Os operários que serão contratados pela Renault, por exemplo, serão altamente especializados ou serão fiscais/operadores de equipamentos automáticos de metalurgia. No Boqueirão existem pequenas e médias empresas, essas que empregam bastante gente, assim como acontece no campo.
Não interessa saber o que pensam os brasileiros de outros estados sobre o Paraná, muito menos o que pensam os estrangeiros. A eles o governo dedica todo seu instrumental de investimento em mídia para mostrar somente o que interessa. E se estamos mesmo à frente de São Paulo ou Rio de Janeiro, deve-se perguntar de que forma esses estados estão melhor do que o Paraná. Industrialização já foi sinal de riqueza. Faz tempo que sinal de riqueza é cultura, informação, saúde, moradia e bem-estar social. Coisas que nenhum estado brasileiro pode se gabar de ter disponível para toda a população, mas só para uma minoria. Industrialização num mundo globalizado significa para nós colocar os pés pelas mãos e sermos triturados pela incessante ganância de capital.
- FERNANDO F. FERREIRA, Curitiba





