O LEITOR ESCREVE
Os jornais estamparam que agora o fato é real: a Seleção Brasileira de futebol foi, finalmente, superada pela Argentina no ranking da Fifa depois de oito anos. Talvez o mais cruel nesta história seja perder, exatamente, para os argentinos. Fosse lá Portugal, Dinamarca, Japão, Itália. Até o Afeganistão seria suportável. Devo confessar que, pessoalmente, o fato não me atingiu assim, digamos, em cheio. Em matéria de futebol estou escolado: tenho sofrido nos últimos anos como poucos. Uma justificativa? Sou torcedor do Londrina. Ou quer mais?
Em Curitiba, faço parte daquele ínfimo universo que os institutos de pesquisas tratam como outros, afinal, por aqui, o LEC não tem uma representatividade expressiva. Nas rodinhas de amigos sou execrado. Noutro dia, me perguntaram na cara dura: qual a escalação do seu time? Gaguejei e não soube informar. Sou da geração pré-tubarão, quando o ventríloquo e dublê de centroavante Taquito sacudia o povão no velho Vitorino Gonçalves Dias; Toquinho, um meio-campista franzino e lépido era o pulmão do time; Neneca, o inesquecível goleiro que só brilharia no futebol após a saída de Ado, para o Corinthias. Em 1977, a consagração. A máquina azul-celeste, daí sim transformada em Tubarão, foi a grande sensação na Taça de Prata. Inesquecível para mim foi a vitória por 2 a 0, em pleno estádio de São Januário, no Rio, contra o Vasco da Gama de Roberto Dinamite, Andrade, entre outros. Do outro lado, Paulo Sérgio, um goleiro que tinha a onda T do coração invertida e foi dispensado do Corinthians, Carlos Alberto Garcia jogando beijinhos à torcida e se não estou enganado, Marinho, zagueiro-central que brilharia pelos gramados do mundo afora como campeão mundial pelo Flamengo.
O futebol perdeu todo o romantismo do passado. Com ele, foi-se a ginga, a malandragem, o amor à camisa que, juntos, levaram o torcedor a se afastar dos estádios. O ideal teria sido a união do ''business'' com a arte, pois assim, ganharíamos todos. Meu consolo é que sempre me referi ao Tubarão como ''o azulão''. Agora, quando ouço uma menção ao São Caetano, o líder do brasileirão, sinto-me vingado e faço de conta que ainda estou no velho VGD ou vibrando na geral do estádio do Café. Viva o Tubarão!
- RENÉ RUSCHEL, economista e jornalista, Curitiba





