O LEITOR ESCREVE
Grades
É mais fácil manter o povo longe do que fazê-lo feliz. As grades ao redor do Centro Cívico, onde os poderes habitam em Curitiba - nem sempre atentos e céleres para resolver as questões da sociedade desarmada - protegem os prédios públicos das repentinas fúrias populares. Inaugurado em 1953, no centenário da emancipação política do Paraná, o Centro Cívico foi projetado como um espaço de liberdade e fluência entre os poderes.
O primeiro a cercar-se de grades foi o Poder Legislativo, vulnerável pelo apodo de ''casa do povo''. As grades foram motivadas pelos protestos dos professores e a ofensiva do movimento diante da Assembléia Legislativa. Anos depois, ficou provado que eram insuficientes no episódio da votação do projeto que proibia a venda da Copel.
Também o Palácio Iguaçu, depois do último e longo acampamento dos sem-terra, em 1999, considerou que era hora de isolar-se. As grades alongaram-se por toda a praça. Foram-se os jardins de Burle Marx, foram-se os bancos de madeira, onde o cidadão podia sentar-se.
Agora se fecha o cerco. O Poder Judiciário também está repleto de grades ao redor. O Centro Cívico já tem seu fosso medieval. Do lado de fora, a população poderá catapultar para dentro dos pátios do poder o que lhe aprouver. As grades são ornamentos, avisos de que, também aqui, a guerra é ombro a ombro. Se não é possível um acordo com a sociedade, porque os interesses dos poderes são - inexplicavelmente - divergentes daqueles dos cidadãos, melhor manter distância.
Quando os poderes se isolam, a pretexto de proteger a chamada ordem pública, coloca-se em dúvida a autoridade desses poderes. E quando a autoridade se torna vulnerável fica a sociedade sem seu apoio explícito, com a preocupante sensação de que está só diante das necessidades que pressente mas não consegue identificar.
Espera-se que as grades, por inócuas, cedam com a passagem do tempo, senhor da razão. O equívoco se desfará à medida em que os poderes forem se democratizando, atingindo, com rapidez e justeza, cada cidadão. Enquanto não entender o Poder que é sua responsabilidade ser um operador completo do serviço público, as muralhas se manterão, obstáculos frágeis como o compromisso supostamente assumido.
- MARILENA BRAGA é jornalista em Curitiba
Universidade pública
''Que esta greve não seja como um aguaceiro no sertão, isto é, depois dele volta a mesma seca e nada parece mudar.'' Na universidade hoje e sempre tudo deve ser criticado, analisado e, quando necessário, confrontado. Há uma dimensão fundamental na universidade que às vezes sua estrutura acaba fragmentando: a convivência das múltiplas expressões do saber e do ser.
A universidade tem ainda o papel de formar a cidadania. Cabe-lhe, e talvez seja esta a sua principal função, desenvolver a inquietude do ser social. Espera-se que cada jovem que integra a universidade se torne, para o meio onde vive, uma fonte de energia para as transformações históricas.
Uma universidade indiferente à economia e à sociologia é uma universidade amputada. Uma universidade pública desrespeitada, desvalorizada e desconsiderada só reflete a visão deste governo quanto à população. O pagamento de mensalidades diminuiria ainda mais as chances dos menos abastados conseguirem um dia ter a oportunidade de se manterem estudando em uma universidade e não resolveria de maneira alguma o problema financeiro da UEL e de nenhuma das universidades brasileiras a não ser que fosse uma mensalidade similar à das universidades privadas.
Na universidade deve-se conciliar a competição e a cooperação. Nela deve emergir uma identidade universal. Isso proporcionará uma visão do mundo em que os valores da competência individual não sufoquem os da equidade e solidariedade.
O indivíduo que está sendo formado neste País, tendo como modelo o norte- americano, quer obstinadamente vencer, realizar-se materialmente. Distancia-se cada vez mais do papel de sujeito para se tornar objeto do processo. Essa reflexão nos leva a pensar sobre a relação dos indivíduos com a tecnologia e seu uso para o bem e para o mal. Você já pensou nisso? Quero este futuro para os meus filhos?
Todos se queixam da desumanização em todas as profissões. Não seria a oportunidade de começar a mudar inicialmente dentro de nós, à nossa volta e na nossa comunidade? A Universidade Estadual de Londrina (UEL) precisa ser valorizada pela comunidade interna e externa. Salvem a UEL e salvem a dignidade da população de Londrina. Salvem o maior patrimônio dessa cidade.
- EVA MARIA JANOWSKI, professora universitária, Londrina
Aids e idoso
O Ministério da Saúde faz um alerta: o número de idosos com Aids está aumentando, sendo necessário adotar medidas de prevenção direcionadas para essa faixa etária. O aumento da população idosa e a melhoria da qualidade de vida dessa população está fazendo com que seja cada vez maior o número de pessoas contaminadas pelo HIV.
A Aids caracteriza-se por uma grave alteração no sistema imunológico do indivíduo infectado pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV). O vírus atava os linfócitos T, que são células do sangue (glóbulos brancos) responsáveis pela defesa imunológica do organismo.
Entre os fatores que predispõem o idoso a essa situação, enumeramos: 1) Por mais saudável que seja, o idoso apresenta uma redução dos mecanismos de defesa, estando mais sujeito a adquirir infecções; 2) Admitir que o idoso já não apresenta vida sexual ativa constitui um erro, dificultadno ou retardando o diagnóstico; 3) Tratamento eficaz da disfunção erétil (impotência) melhora a performance sexual. O mesmo ocorre com a terapia de reposição hormonal, tanto na mulher como no homem; 4) Controle das doenças crônico-degenerativas, como a diabete melito e a hipertensão arterial; 5) Reconhecer que doenças como demência, penumonia, dermatites, diarréia crônica, podem estar associadas à Aids. Sinais e sintomas, como cansaço fácil, perda de peso sem motivo aparente, febre persistente, gânglios, moniliase oral e esofagite por cândida, devem ser investigados em pessoas com fatores de risco; 6) Idosos que vivem sozinhos, viúvos(as) com variações frequentes de parceiros sexuais sem o uso de preservativo, hábito pouco comum nessa faixa etária, facilitam a contaminação pelo HIV.
Como a cura ou a vacina ainda não estão disponíveis, as principais armas continuam sendo a prevenção por meio do reconhecimento dos fatores de risco, educação em saúde e tratamento dos pacientes. No caso de suspeita de qualquer outra doença sexualmente transmissível, procurar imediatamente orientação médica.
- LUIZ BODACHNE, médico geriatra, Curitiba
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