O leitor escreve
O LEITOR ESCREVE
Atrevimento
Estarrecidos, vimos Havelange, secular presidente da FIFA, ameaçar o Brasil de participar da Copa do Mundo em 1998, na França, caso o Congresso Nacional aprove o Projeto de Lei Pelé que visa moralizar e reorganizar o futebol brasileiro. Nosso ministro Pelé, indiscutivelmente homem sério e orgulho nacional, conhece muito bem os meandros do cartorialismo do futebol brasileiro e mundial. Aqui cabe-lhe o papel de direcionar e organizar o esporte nacional, capítulo da educação, questão prevista e prescrita na Constituição da República.
Estádios de futebol repletos, patrocínios milionários, promoções gigantes e transações mirabolantes fazem parte do futebol, que virou um baita negócio. Que fazem os homens do futebol com todo esse dinheiro? O que passa com os 400 milhões de dólares que, segundo consta, a CBF coletou junto à Nike, para que a multinacional use a seleção brasileira como garoto-propaganda? As cores nacionais são propriedade de quem? Com certeza não pertencem a João Havelange e nem ao seu genro Ricardo Teixeira, presidente da CBF, ou a outro apadrinhado do futebol brasileiro. As cores nacionais, a camiseta da seleção, suas glórias e conquistas são patrimônio de todos nós. São do Brasil e dos brasileiros. Mas eles, ungidos do futebol agem como se tudo isso dissesse respeito somente a eles. E aí de quem quiser se meter nisso...
Quanto custou e está custando o Pinheirão? Qual o teor dos contratos para a sua construção? Queremos saber. Somos atrevidos? Fizeram do futebol um cartório, um negócio particular e privado, intangível e infiscalizável, com organismos e instituições acima da lei, do bem e do mal. Isso num país onde o esporte amador sobrevive a duras penas e com o idealismo de abnegados. Logo este esporte que tanto forma e educa nossos filhos.
Havelange não tem o direito de dizer o que disse. Não tem o direito de interferir na soberania nacional brasileira. A organização e regulamentação interna do nosso esporte é atribuição e competência nossa. Exorbitar das atribuições de presidente da FIFA é invadir seara alheia.
- ELISEU AUTH, promotor de Justiça e vice-prefeito de Umuarama
Betinho
Alguns revolucionários, frontalmente combatidos em vida, costumam, logo após a morte, receber uma espécie de canonização, forma através da qual é absorvido o impacto transformador de suas idéias e práticas. Essa sentença, paráfrase do que escreveu um revolucionário no início do século, faz pensar no que ocorreu com o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, recém-falecido.
Líder do movimento pela cidadania e contra a fome, Betinho não precisou morrer para ser canonizado. Desde o início dessa campanha veiculou-se sua imagem, contra sua vontade e despojada personalidade, como a de uma espécie de santo que vinha redimir os excluídos. Agora, com seu falecimento, acentuou-se sua imagem e há gente falando literalmente em sua canonização. Essa idéia dificilmente vai prosperar, mas é desnecessário o aval da Igreja para ser consolidada a imagem, bastante sedimentada, de santo laico.
A imagem que usei no início teve o sentido de sugerir que tinha morrido um revolucionário. No início dos anos 60 Betinho ajudou a fundar uma organização revolucionária, a Ação Popular, que visava a conquista do poder, mas seria revolucionária a campanha que vinha liderando? Em certo sentido, sim.
A canonização em vida serviu para personificar e atenuar o sentido da campanha pela cidadania. O culto póstumo a Betinho pode servir para colocar uma bela lápide em um projeto que não veio para expiar as culpas da sociedade, mas para encontrar soluções para problemas perenes.
- REGINALDO DIAS, professor da Universidade Estadual de Maringá
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