Diferenças
Diz a Constituição: ‘‘Todos são iguais perante a lei.’’ Afirma que a ninguém é dado ignorar a lei. Pura retórica. Numa sociedade com cerca de 50% de analfabetos, incapazes de decodificar a escrita, outros 48% são incapazes, mesmo sabendo decodificar a escrita, de ter gosto pela leitura ou por cursos, reuniões ou congressos, e não têm acesso aos diários oficiais, nos quais se publicam os textos das leis, regulamentações, portarias, jurisprudências etc., leis federais, estaduais, municipais, estatutárias, além do estatuído em códigos as interpretações de burocratas e magistrados.
A lei nos diz que a pessoa sob juramento, se prestar falso testemunho será ou deverá ser punida. Mas tudo isso é válido para todos, em todas as condições, ou existem dois tipos da mesma lei? Uma faz valer ao povo miúdo e que sempre recebe a punição? E outra para receber determinadas cosméticas e favorecer outros?
Os senadores Magalhães e Arruda violaram a honra do Senado. Falsearam o segredo do voto. Deveriam ser punidos e a punição era mesmo a cassação. A mistificação dos pares deu-lhes o indulto da renúnica e a partir daí, ‘‘pobres vítimas’’ vão usufruir em casa dos prazeres das férias para retornarem como vítimas e sem punição. Os ‘‘anões do Orçamento’’, como a imprensa apelidou, que castigo receberam?
Qual o pacto de defesa mútua que existe entre os que detêm o poder? Que tipo de sindicalismo existe, e que para eles a lei é sempre benévola e diferente da lei que atinge o povo miúdo?
O orgulho nacional se faz pela história heróica e humanista, não simplesmente batalhas militares, de homens destemidos, capazes de enfrentar o monstro da ganância que existe no coração de cada um e destruí-lo em defesa do povo, povo que é a verdadeira razão da existência da nação, da pátria ou do país.
O orgulho nacional se faz pela sustentação da fé. Fé na justiça, na capacidade governativa, na solidariedade e no sacrifício a que são capazes de suportar os que, sob juramento, propõem-se a defender a instituição do governo, a honra da lei e o bem-estar da população. Acusa-se a época do desregramento social e da criminalidade. Quanto desse fato decorre da perda da fé nos poderes constituídos?
- FAHED DAHER, médico, Apucarana
O sebastianismo marxista
Parnell na Irlanda. Barba Roxa na Alemanha. Dom Sebastião em Portugal. Personagens que representaram uma tal esperança que a alma de seus povos os quis imortais. Passavam-se as décadas, e sonhava-se a cada infortúnio, que seus vultos gloriosos ressurgiriam das brumas do passado.
Ficaram maiores do que haviam sido em vida. Magnificados pela imaginação, vestidos com as roupagens de uma esperança que não podia mais ser conspurcada pela dura realidade. Tão marcante foi este sentimento, que em língua portuguesa passou a chamar-se de sebastianismo este desejo mítico de reencarnar uma esperança que se desfizera em pó.
Tristemente o marxismo destruiu suas figuras heróicas. Uma a uma elas foram despejadas de seus pedestais por novos líderes, estes sim, mais marxistas, mais justos, desnudadores da impostura anterior, até que fossem por sua vez depostos por novos sucessores e por sua vez enxovalhados. Resta ainda Fidel Castro, ‘‘O Eterno’’, com sua tirania, sua ditadura que ajoelhou seu povo na miséria.
Mas a cada tropeço, caracteristicamente, levantam-se os sebastianistas do marxismo a incentivar a liberdade. Ora é o capitalismo, que ‘‘só visa lucro’’, esquecendo que só ele produziu sociedades afluentes. Ora é a democracia, que permite que os que não conhecem a história e as leis econômicas votem, preferem um partido único e um grupo iluminado decidindo o que é melhor para o povo.
Quando criticam os problemas que o mundo enfrenta, põem a culpa na liberdade capitalista. Qual a alternativa que propõem nunca expressam. É que ela é a estatização, ineficiência, falta de agilidade e subordinação aos interesses políticos. É o emprego da força bruta e da coerção política, subordinando tudo a um aparelhamento do que reste aos propósitos do grupo no poder.
Estas soluções, que não verbalizam quando criticam, foram os grandes fracassos da humanidade, e os exemplos estão à volta de todo o globo. E a cada problema que enfrentamos escrevem saudosos: ‘‘Ah! Quem dera que ressurgisse ‘‘Dom Marxismo’’ e nossas esperanças’’. A fé é mais consoladora que a mera perspectiva do esforço coletivo, da responsabilidade social, do enfrentar os problemas sem salvadores míticos.
- PETRUCIO CHALEGRE, Curitiba
Bioética
A bioética representa a mais radical transformação do velho e tradicional domínio da ética médica. É um neologismo que significa não apenas a interação da ética com as ciências da vida, mas também é uma disciplina acadêmica e a sua dinâmica é um dos campos mais emergentes da reflexão filosófica. A par disso, a sua expansão é vista como um amadurecimento indispensável e uma nova força política na medicina, biologia, direito, filosofia, religião, ciências sociais, literatura e também para a própria cultura da humanidade.
Hoje, os comitês de bioética representam uma nova entidade em alguns hospitais do Brasil, apesar de já fazerem parte do cotidiano da maioria dos hospitais de grande porte nos Estados Unidos e na Europa. É um espaço independente, onde podem se encontrar, em um contexto pluralístico e com uma metodologia multidisciplinar, os diversos componentes de atividades conexas com a vida e com a saúde do ser humano.
A realidade pluralística e globalizada e o progresso científico acelerado tornaram a reflexão bioética um elemento indispensável, tanto nas decisões com o paciente, quanto nas políticas de saúde. Os comitês se orientam basicamente no respeito à vida humana em todas as suas fases, como indicado na Declaração dos Direitos do Homem, nas recomendações éticas de organismos internacionais, na deontologia médica brasileira e internacional e na Declaração de Helsinque.
Esses comitês têm função formativa, visando sensibilizar e educar a comunidade interna e externa da instituição a respeito das dimensões morais do exercício das profissões ligadas à área da saúde. São importantes órgãos consultores para médicos, pacientes e familiares, na tomada de decisões médicas complexas.
O recente estabelecimento desse comitê no Hospital Nossa Senhora das Graças faz parte do amadurecimento de um projeto de pelo menos cinco anos de atividades de um grupo de profissionais de diversas áreas da saúde e religiosos. A sua realidade e o seu funcionamento certamente trarão novas perspectivas dentro dos dramáticos caminhos inerentes à vida ética nesse novo milênio e, por consequência, refletem a constante preocupação em direcionar a ciência e o seu progresso para os cuidados de pessoas e dos seus valores.
- CÍCERO DE ANDRADE URBAN, médico oncologista e presidente do Comitê de Bioética do Hospital Nossa Senhora das Graças, Curitiba
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