Apagão
Um dia destes, descascava um caqui-chocolate meditando sobre as incríveis coincidências que acontecem, sempre que as nuvens escurecem e prenunciam possíveis temporais nos céus político-palacianos de Brasília – a famosa Grande Colméia – onde metade do povo voa, enquanto a outra faz cera. Se existe uma unanimidade na corte de Henrique, o Rei-Sol, é a de que todos passam o tempo entortados em celulares, grampeados ou não, falando mal uns dos outros.
Aliás, a estação dos caquis se iniciou mais ou menos quando o cacique da tribo paraense que tomara a borduna senatorial do caro colega baiano acirrara os ânimos, e todos já estavam prenunciando a guerra, pintando as caras e expondo os brechós, barganhando as miçangas, vulgo verbas e empregos. Ocorre que o termo ‘‘crise’’, temido no Planalto Central, é muito mal-usado. Crise, em grego, é o momento decisivo de uma situação insustentável.
As coisas no céu brasiliense foram ficando feias a não mais acabar. De repente, os caciques começaram a prender os rabos dos inimigos. Era ACM de um lado, Jader do outro. A coisa desbarrancou para o lado da Sudam e da Sudene, entrou banco oficial, era grampo para carapinha nenhuma reclamar, promotores se promovendo, chovia liminar libertando almas intocáveis que por desleixo divino tinham ido passar umas horas vendo o céu quadrado. O tempo foi ficando seco, os argumentos a favor e contra foram minguando e, de repente, nós passamos a ligar na TV Senado, pois o drama parecia dar em alguma coisa séria. O arranca-rabo crescia, e por algum tempo muitos pensaram que assistiam ao fim da pizza-de-todas-as-pizzas.
De repente, para milhões de brasileiros, parecia afinal que após cinco séculos de impunidade em nossos palácios e nas cortesanias do poder, desde o federal até os municipais, que a luz teimava em reluzir no fim de um longo túnel, e que os pecados seriam revelados e, os pecadores, iriam para o caldeirão do capeta.
Foi aí que inventaram o apagão, apoiado pela situação, pela oposição e pela ilusão. Meu caqui-chocolate, que seca mais providencial essa, você não acha? De repente inventaram um parente. Cada dia ele canta um verso diferente do de ontem. Ainda não apagaram um consumidor ou usuário, mas que apagão, hein? Túnel, cadê a saída dessa escuridão?
- LINCOLN BRAZIL E SILVA, Londrina
Tarifa
As ciências sociais não conseguem explicar, tampouco os economistas, o que vem ocorrendo em Londrina. Ninguém consegue entender a alta no transporte coletivo. Cadê os nossos representantes? ‘‘As empresas de transporte coletivo estão tendo prejuízo mas vamos subir a passagem para R$ 1,15’’, dizem. E o salário do povo que está congelado há anos. Como fica? O povo não pode ficar quieto. Os governantes têm o poder político eletivo, nós somos imbuídos do poder comum de cidadania, conferidos por uma Constituição, que infelizmente não é cumprida.
É certo que o novo prefeito Nedson pegou uma prefeitura caótica, mas pessoas que nunca saíram às ruas para eleger alguém acreditaram nas propostas dele, foram à luta e mostraram sua preferência cheia de esperanças em tentativas de dar novos rumos a Londrina. Prefeito: não decepcione, repense suas ações, olhe para o povo. O nosso transporte coletivo não é tão maravihoso assim como foi mostrado nos jornais: ônibus novos, bonitos. A região sul, por exemplo, é pessimamente servida por ônibus ultrapassados e com itinerários pouco frequentes. Observem e andem nos coletivos do Jardim Adriana, Roseira, Vitória, sempre lotados e pouco conservados.
Sobe a passagem, dando mais lucros aos donos de um negócio que é uma mina de ouro, onde o trabalhador tem que pagar à vista. Um ônibus, mais cobradores e motoristas, mais combustível com passagem a R$ 0,50. Isso já dá lucro considerável. Será que não temos engenheiros de tráfego ou setor técnico capacitado a organizar o transporte coletivo, através de pesquisa e planejamento urbano para o transporte de massa e coerência em planilha?
As autoridades governamentais devem ponderar muito antes de aprovar ações antipopulares, projetos que prejudiquem a classe assalariada, tão sofrida e massacrada nesse conturbado mundo em que vivemos. Senhores que nos governam, saibam que há muita gente que não tem nem o dinheiro da passagem para ir ao trabalho. Vejam a realidade. Não é o que o cidadão tem, mas o que ele é, o que ele faz e onde mora, que faz a diferença de alguém em plena cidadania. O que vale é o caráter, mãos limpas e inabalável honestidade.
- OSVALDO CARDOSO RIBEIRO, sociólogo, Londrina
Resposta
A análise feita pelo sociólogo Osvaldo Cardoso Ribeiro, em correspondência enviada a esse jornal, acerca do aumento da tarifa do transporte coletivo em Londrina está equivocada. O transporte coletivo, no que diz respeito ao usuário, traz o ingrediente político, mas no que tange à sua planilha de custos exige avaliação técnica criteriosa, embasada no equilíbrio econômico financeiro do sistema, contemplando o custeio e os investimentos.
O valor concedido de R$ 1,15 foi fruto de exaustivos estudos da equipe técnica da CMTU-LD, baseado em planilhas orientadas pelo Geipot. Saliente-se que a tarifa em Londrina não sofria reajustes há um ano e quatro meses. Ademais, o leitor foi informado como toda a população de tais estudos que foram disponibilizados na Internet para receber as críticas técnicas, que não ocorreram. O prefeito assinou o decreto do reajuste com toda a transparência que o assunto exigia.
Concluindo, informamos que os eventuais problemas em linhas do transporte têm tido pela CMTU-LD soluções de curto prazo, e estamos nos preparando para mudanças significativas no sistema, que visam a melhoria da qualidade e eficiência do transporte coletivo em Londrina. Continuamos à disposição para qualquer esclarecimento.
- WILSON MARIA SELLA, presidente da CMTU, Londrina
Troco
Lendo a carta de André Acorsi, de Jaguapitã, publicada na Folha, no dia 3, não me contive e resolvi apresentar o ‘‘outro lado da moeda’’. Não apenas pelas suas idéias mas também pela resposta do nobre diretor da empresa Ouro Branco, Galdioli Nóbrega. Falo à vontade, de cátedra, pois cobrador de ônibus foi meu primeiro emprego, vindo da roça, pouco alfabetizado, mas sabia muito bem fazer (ou deixar de fazer) o troco. Agora quero levantar algumas questões que já nos anos 60 me deixavam intrigado: 1. Por que a passagem tem que custar exatamente R$ 4,98 ou R$ 5,02, pois, se somando e dividindo daria a média R$ 5, sem necessidade desta briga!? 2. A diferença a maior (ou a menor) não fica com a empresa, mas no bolso do cobrador; já presenciei cobrador com uma maquininha contabilizando o bloco (por que será?). Portanto, não se compra ônibus com esse dinheiro. 3. Nunca fiz isso, em meus cinco anos de cobrador, nem tampouco vi algum cobrador dando dinheiro a mais ao passageiro. É um grande equívoco do nosso caro Nóbrega, pois passageiro ou tem dinheiro ou não viaja.
- OSVALDO DE ALMEIDA SOUZA, professor, Porecatu
- As cartas devem ser datilografadas e assinadas e vir acompanhadas da fotocópia de documento de identidade, endereço e telefone para contato e profissão/ocupação do remetente. O jornal poderá resumi-las conforme disponibilidade de espaço. Correspondência via Internet deve conter: nome completo, cidade de origem, telefone, documento de identidade e endereço eletrônico e profissão/ocupação. E-mail da Folha de Londrina/Folha do Paraná: [email protected]

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