Privatização da Copel
Sobre a notícia da venda da Copel publicada ontem na Folha Economia, com todo respeito ao presidente da Copel, o exemplo que trouxe a lume não foi o melhor. Ele argumentou que, além da Argentina e Austrália, os Estados Unidos e alguns países europeus ‘‘já venderam suas companhias elétricas para a iniciativa privada’’. Todavia tenho quase certeza de que em nenhum dos casos essas empresas foram arrematadas por capitais estrangeiros, como brasileiros ou mexicanos. Imagino até que o montante utilizado naquelas transações sequer chegou a cruzar as fronteiras do Primeiro Mundo, apenas aumentando sua riqueza.
Em sentido contrário, quanto a nosso processo de privatização, penso como o engenheiro Soares: o melhor da fatia desses negócios, que é o lucro, certamente não ficará aqui, mas terá como destino negócios em economias consideradas mais estáveis.
Embora não estejamos falando de alfajores argentinos, a venda da Copel pode significar mais um duro golpe no que restou de nosso orgulho empreendedor (ainda que realizado pelo Estado). Não podemos permitir que o esquecimento oculte a importância que indústrias como a metalúrgica ou a de geração de energia tiveram, desde a década de 50, na consolidação de nossa economia. E tudo montado com dinheiro inclusive do mais humilde cidadão.
Quero pensar que o exemplo argentino não deva ser seguido. As coisas por lá não estão nada boas, e será muito difícil para aquele povo irmão recuperar o desgaste sofrido por sua economia nas últimas décadas, em grande parte em função dessa política de entrega fácil da coisa pública ao domínio privado estrangeiro.
- HERMANN DE OLIVEIRA, servidor público federal, Florianópolis
Petrobras
Na sua incansável capacidade de produzir matéria-prima para o anedotário nacional, o governo protagonizou mais um belo vexame, esse através de uma de suas estatais. Falo da nati-morta PetroBrax. Mexeram numa abelheira furiosa com o tato de uma retroescavadeira.
A gritaria dos intelectuais, cronistas, cartunistas e todos os que têm espaço na mídia e emitem a opinião do povo no lugar deste, foi ensurdecedora. Cercada de todos os matizes de um falso levante popular, a mudança de nome da Petrobras foi atacada com todo o arsenal de frases prontas, desde a famigerada ‘‘O petróleo é nosso’’ até a velha denúncia de entreguismo ao modelo neoliberal americano. Não vi uma única discussão razoavelmente séria sobre os argumentos técnicos que levaram executivos com experiência no mercado internacional a tomar tal decisão.
É claro que fica difícil fazer uma argumentação séria quando o presidente da estatal brasileira encarregado de dar a notícia chama-se Henri Phillipe Reichstul. Além disso, se as justificativas para a mudança se resumiam às frases capengas que proferiu Reichstul, ele merecia mais do que a reprimenda pública que acabou recebendo de FHC.
Tudo isso teria pouca consequência além dos R$ 700 mil jogados fora na criação da nova marca e alguns milhões de dólares perdidos em negócios futuros caso a mudança fosse realmente necessária do ponto de vista de estratégia de marketing.
O que realmente importa é a constatação do reacionarismo de boa parte de nossa mídia opiniática, e o poder dessa minoria barulhenta. Diante de mudanças que atinjam nossos ícones nacionais, sejam eles importantes ou insignificantes como a marca de uma empresa de petróleo, eles reagem com fúria avassaladora e com rara coordenação.
Não sei se a mudança de nome da Petrobras seria uma idéia boa ou ruim para o seu desempenho futuro e para aquilo que realmente interessa: melhores serviços e preços mais competitivos. Mas sei que existe uma confraria que também não tem a menor idéia dessas coisas, mas possui o poder de destrui-las.
- KLEBER BOELTER, empresário, Porto Alegre
Mordaça
O Brasil está na contramão da história. Enquanto todos os países, ditos civilizados, dão caça acirrada aos megaladrões que dilapidam o erário, esse governo que aí está, talvez por razões inconfessáveis, procura amordaçar o Ministério Público Federal (MPF) com uma Medida Provisória (MP), ameaçando os procuradores e promotores com uma multa de R$ 151 mil se fizerem denúncias infundadas contra autoridades públicas.
Ora, tal medida é um insulto à inteligência dos promotores e procuradores, que jamais se pronunciariam sem estar alicerçados em provas contundentes e irrefutáveis. Além disso, tal medida é ofensiva a autonomia do Ministério Público Federal. Graças à pressão da opinião pública, o governo ‘‘num gesto generoso’’ suspendeu a multa de até R$ 151 mil. Contundo isso não basta. É preciso respeitar a autonomia do MPF, sem exercer pressão política descarada ou sub-reptícia.
Em consequência da ação drástica e eficiente do MPF, vários membros do primeiro escalão do governo já foram defenestrados, porquanto enleados em rombos de bilhões de reais, sem mencionar dezenas de outros processos em andamento.
O regime democrático exige um procedimento transparente do governo, para que o povo deste País saiba como é gasto o dinheiro dos impostos escorchantes que paga, para aferir se não está sendo lesado. No regime absolutista, ao contrário, Fernando Henrique Cardoso, como a mídia reiteradas vezes já cognominou de ‘‘Imperador do Brasil’’, impõe sua vontade absoluta aos vassalos, ao arrepio da lei.
Daí por que é imperioso que tal MP seja abortada, a fim de que a imagem do governo não seja enxovalhada perante a Nação e a opinião pública internacional.
- ANTONIO D#NATZ RIBEIRO DA SILVA, Curitiba
Psicologia
Pensar a profissão de psicólogo nos faz olhar para um processo de construção social. A Psicologia tem superado sua identidade exclusivamente advinda da clínica individual e ganhado o espaço coletivo, emaranhado-se na pluralidade das relações e espaços sociais de construção do cotidiano brasileiro. Se olhamos o processo de construção das relações sociais no Brasil, percebemos que a dificuldade de conviver com a diferença, criando inúmeras formas de segregá-la, torna nossa sociedade cada vez mais fragmentada. Assim o desempregado se sente incapaz, a criança se percebe burra, a mulher e o negro absorvem sua inferioridade, e justifimos e perpetuamos uma política de exclusão que hoje segrega a maior parte dos brasileiros.
O psicólogo tem ousado se colocar como profissional capacitado para trabalhar com esta rede de determinações, trabalhando nas áreas da saúde, da educação, da Justiça, do trânsito, da psicopedagogia, do trabalho, nos diversos espaços de atenção à criança e adolescente, nas prisões. Tem inovado em espaços como a psicologia do esporte, no trato com as relações mediadas por meio remoto, tem amadurecido sua atividade de pesquisa e produção de conhecimento.
Num evento recente realizado pelos conselhos de Psicologia do Brasil, a 1ª Mostra Nacional de Práticas em Psicologia, que reuniu 15 mil pessoas, a Psicologia mostrou que tem assumido o desafio de ser parceira e protagonista na busca por um processo de transformação social no Brasil, consciente de que o fazer profissional não é neutro e assim imprimindo neste uma intencionalidade.
- LUMÊNA ALMEIDA CASTRO FURTADO, presidente do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo
- As cartas devem ser datilografadas e assinadas e vir acompanhadas da fotocópia de documento de identidade, endereço e telefone para contato e profissão/ocupação do remetente. O jornal poderá resumi-las conforme disponibilidade de espaço. Correspondência via Internet deve conter: nome completo, cidade de origem, telefone, documento de identidade e endereço eletrônico e profissão/ocupação. E-mail da Folha de Londrina/Folha do Paraná: [email protected]

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