O LEITOR ESCREVE
Natal (1)
Aconteceu num dos países da Europa do Leste, antes da queda dos sistemas marxistas. Uma professora notou que a maioria das crianças da sua classe ainda trazia de casa uma fé viva, aquela fé que o regime totalitário ateísta queria exterminar de vez. Logo após o Natal, a professora resolveu servir-se de uma artimanha maldosa para provar aos seus alunos que acreditar no Menino Jesus era o mesmo que acreditar numa fábula. Mandou que algumas das crianças saíssem da sala para o corredor e disse às que tinham ficado dentro que fossem chamando as outras, que foram entrando, à medida que escutavam chamar o seu nome.
Quando todas tinham voltado aos seus lugares, a professora explicou: Por que voltaram para a sala quando vocês chamaram? Porque estavam diante da porta e escutaram o seu nome. Agora, experimentem chamar o Menino Jesus. Ele não vai chegar, não vai escutar porque o Menino Jesus não existe! As crianças começaram a chamar: Vem, Menino Jesus, vem! A professora ria e encorajava: Podem chamar bem alto! O Menino Jesus não vem, porque ele não existe! As crianças continuaram a chamar, com toda a saudade dos seus corações, com uma fé inabalável. De repente, a porta abriu-se e o Menino Jesus entrou na sala, lentamente, como que envolto por uma esfera de luz. Abençoou as crianças e voltou a sair silenciosamente da sala, como tinha entrado. A professora, porém parecia petrificada.
Perante júbilo das crianças, saiu correndo da sala e depois da escola para a rua. Teve que ser internada numa clínica de nervos, onde não fazia repetir, com uma enorme angústica estampada no rosto: Ele veio! Ele veio! Sim, Ele veio! Veio há 2 mil anos, quando nasceu da Virgem Maria em Belém. Mas continua vindo a nós, cada vez que, com uma fé igual à destas crianças, nós pedimos: Vem, Senhor! Vem, Menino Jesus! Vem, Deus Redentor! Vem Emanuel, ó Deus-conosco, vem! Ele veio. Ele vem. É esta a grande verdade, o grande mistério que estamos celebrando neste Ano da Graça 2000, ano do Jubileu do nascimento de Jesus em Belém. Nascimento que, como concorda o Santo Padre na Bula de Proclamação do Ano Santo, não é um fato que se possa relegar ao passado. Diante Dele, com efeito, esta a história humana inteira: o nosso tempo atual e o futuro do mundo estão iluminados pela Sua presença.
- IRMÃ DIONÉIA LAWAND, diretora do Colégio Mãe de Deus, Londrina
Natal (2)
Dezembro sempre é um mês muito especial, quando lojas e casas e edifícios ficam todos iluminados, num sinal de alegria pela proximidade do Natal. É incrível como esta grande festa cristã contagia os corações humanos, irradiando uma luz de esperança e de concórdia que, talvez, em nenhum outro momento do ano vivenciamos de forma tão intensa.
O Natal é a festa da família. Jesus, o Filho de Deus, a face visível do Amor, quis nascer numa Sagrada Família, para dar o exemplo e mostrar que a felicidade do gênero humano passa, necessariamente pela família, pela comunidade, pela comunhão de homens e mulheres, todos filhos de Deus.
Que neste Natal dos 2 mil anos do nascimento de Jesus Cristo, possamos renovar nosso empenho pela integração familiar, buscar o diálogo, perdoar os que nos ofenderam, enfim, abrir o nosso coração ao amor.
Muitos, infelizmente, não vêem o Natal como um júbilo de congraçamento. E por isso ficam tristes e solitários nesta ocasião. Só há uma forma de eliminar a solidão: através da solidariedade. É comum vermos pessoas dizendo que não são amadas, nem queridas. Mas, se esquecem de perguntar a si mesmos se são capazes de amar ou fazer um bem a alguém.
Os 2 mil anos do nascimento de Jesus reforçam o convite para que amemos uns aos outros de forma corajosa, intensa e verdadeira. Jesus Cristo é o Deus vivo feito homem que veio até nós para que possamos obter força sempre quando fraquejarmos.
Que o terceiro milênio seja uma era nova em que o Espírito de Deus promova a conversão de todos os povos e nações, para que Deus seja um em todos. Ele é o fim de toda a história humana.
- VALMOR BOLAN, professor, São Paulo
Natal (3)
Todo de pedra e celofane o presépio está armado na cidade. Como um enfeite paralelo ao grande ornamento das luzes que aprofundam a humanidade na escuridão. A estrela, aquela que brilhou de noite, perdeu-se no turbilhão artificial das lâmpadas coloridas. Os pastores foram empurrados para fora da cena. No seu lugar os latifundiários, símbolo do novo capitalismo agropecuário. E seus presentes são sementes transgênicas de alta produtividade, e barris, muitos barris de petróleo, o novo ouro mundial.
O presépio agora tem portas automáticas, escadas rolantes e pisos de arenito polido. Os animais são ovelhas Dole, idênticas, e cavalos puro-sangue deitados majestosamente no meio do nada, o nada da banalidade, da mastigação dos chicletes, das aeróbicas terapêuticas e dos chavões de efeito.
A mulher bem maquiada e cheirosa prostra-se cuidadosa no centro esquerdo da cena. Loira e plástica, ela beira a imbecialidade só por existir, por estar ali, por não saber o sentido de tudo aquilo. O homem se ocupa de sua gravata. O celular aciona uma dessas músicas que poluem a sacralidade dos ambientes. O homem fala esbravejante para o oco sacrílego do aparelho metálico. Existe uma palavra presa nos dentes. Pendurada, ela cai e fere o olho do menino deitado. Sangra. Chora o menino. Há 2 mil anos. Como uma carne sem nome, esquecida. Quase uma pedra. Muito mais que um silêncio, um não-ser, algo. Bom demais para homem. Pouco demais para Deus. Uma insignificância sobre a qual todos olham um dia para não se incomodar ao longo do ano.
Aqui, do lado de fora da grade e do vidro, um outro menino espera a chuva. Espera a terra, a semente que cresce, a massa e o pão. Aqui, no meio do entulho, o menino, a mãe, o pai, os animais, os padrinhos-reis, os primos, a fantasia, as estrelas aéreas, falam de Natal no meio do relento. Como dantes. Como no começo. Eles repartem o pão da paz, sacramentalmente. Como foi desde o princípio. Como sempre há de ser.
Que neste Natal, 2 mil anos depois, façamos tudo como no princípio. Por nós agora e por nossos filhos, no futuro. E que você, meu amigo, que esteve conosco o ano inteiro do lado de cá das grades, continue não tendo dúvidas sobre de que festa participar. Feliz Natal e Próspero Ano-Novo.
- JELSON OLIVEIRA, Poeta, secretário executivo Comissão Pastoral da Terra do Paraná
Correção Por problemas técnicos, a logomarca da coluna Militão Repórter não foi impressa na edição de hoje do Folha Gente
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