Administração pública (1)
O povo londrinense cumpriu sua tarefa. Derrotou, silenciosamente, todos os grupos políticos locais, inclusive suas ramificações estaduais e federais e todas as ‘‘lideranças’’, pois não têm mais para assim se nomearem, tal o tamanho de suas derrotas, pela voz silenciosa e clara do povo nas urnas.
Ao PT, além da glória de uma candidatura que o povo elegeu de modo suprapartidário, deve se lembrar que em votos iniciais, ganharam mais 140 mil, os quais não pertencem ao partido, mas ao candidato. Cabe ao PT, porém, assessorar e escorar o seu vitorioso mas sem lotear sua vitória, numa difícil, porém não impossível, tarefa de democratizar a administrar, sem tentar tingi-la com arreglos e políticos de ontem, que foram derrotados de modo claro e contundente.
O povo elegeu, e ao mesmo tempo derrotou. Votou em quem quis e não há a menor autenticidade em vencidos aproveitadores. Não se precisa de ibopes para perceber a revolta e a recusa popular para com os ‘‘diretórios’’, as ‘‘lideranças’’, as ‘‘bases’’, disfarces eternos de manipuladores e políticos profissionais, os mesmos que se calaram o tempo todo, e que agora disputam uma ‘‘corretagem’’ na carona de sua própria derrota política.
Ainda que o prefeito seja um Guga eleitoral, um fenômeno popular da simpatia e da confiabilidade, é claramente uma escolha brilhante e isolada de seu partido e a ambos caberá administrar, antes e acima de tudo, a emocionante intenção popular que o consagrou.
Quanto à Câmara, à vereadora mais votada, claramente de campanha mais pobre e simples, logicamente pertence a presidência, se ela a buscar. Seus votos, que seriam muitos mais se ela os pedisse ao invés de insistir que cada um escolhesse com sua melhor cabeça, os outros que formariam a nossa Casa de Leis, evidentemente a apontam como um momento histórico a ser respeitado. Também seus votos, não pertenceram a um partido, e isto ficará evidente em seu futuro político.
Não tivemos somente vitoriosos. Também tivemos derrotados, correto?
- LINCOLN BRASIL E SILVA, médico, Londrina
Administração pública (2)
Muitas questões devem ser colocadas, muito se deve inquirir. Muito me indigna o fato de um governo estadual leiloar um banco, e ter gasto um valor, não tão diferente do obtido, em propaganda. Nada contra o leilão, mas para pagar propaganda? Ou que por meio de decreto baixe pela metade o preço do pedágio, uma grande coincidência, pois isso foi um pouco antes das eleições?
Podemos falar também de um governo municipal que quase vende o aterro de um lago para construção de um shopping, que de modo mágico faz desaparecer alguns milhões de reais da venda de parte da companhia telefônica, que não nota a estranha quantidade de lixo coletado pela concessionária, ou que quase inaugura seu elefante branco com a presença da Xuxa, ou, quem sabe na capital, onde se furta de licitação com um estranho ‘‘convênio’’.
No Legislativo, uma Assembléia onde os deputados criam região metropolitana sem o mínimo de critério, iniciam e terminam uma CPI em menos de um dia, onde até pouco tempo certo agente político honrava-se de ser o ‘‘que mais criou municípios na história’’, como se isso fosse motivo de alegria, sendo que o que fazia era enfraquecer uma pequena população com o ônus de um prefeito, nove vereadores e todo o aparato que os segue.
O que fazia na realidade era criar apenas mais um reduto político dependente dos favores do Estado à custa de um bairrismo local, ou quem sabe vereadores que doam praças em área nobre de uma cidade, como também já vimos há bem pouco tempo? Nosso único apoio, nossa única pilastra contra estes desmandos, o Judiciário, quantas vezes não é subserviente ou está em conluio com esta podridão e este amadorismo? Para isto basta lembrar de alguns TRTs pelo Brasil afora. Mas, os ares estão mudando. O Ministério Público cumpre com sua função constitucional e zela pelo patrimônio público cada vez mais atento e severo.
Juízes sentenciam de forma louvável contra agentes corruptos, assim, talvez esta cultura imunda e o amadorismo dos governos deixem de existir e o interesse da coletividade se sobressaia sobre os interesses privados. Quem sabe assim não se cogite mais, nunca mais, de se reabrir um frigorífico numa área residencial como tem ocorrido, o que deve prevalecer, sempre, é o interesse coletivo, garantido pelo governo das leis. Afinal este é um estado democrático de direito.
- CARLOS RENATO CUNHA, universitário, Londrina
Pesca proibida
O governador de Mato Grosso, Dante de Oliveira, solicitou um estudo para definir a ‘‘real necessidade de proibir a prática das atividades de pesca em todo o território mato-grossense’’. Numa solenidade em que entregou a solicitação ao seu secretário de Meio Ambiente, o governador afirmou estar preocupado com a redução dos estoques pesqueiros e defendeu a proibição das atividades pesqueiras, exceto, talvez a do pesque-e-solte.
Um dos motivos desse ato onde se discutia a importância do parque e mais três Reservas Particulares de Proteção Natural serem transformados em Sítio do Patrimônio Natural Mundial, foi tentar desviar a atenção sobre a Hidrovia Paraguai-Paraná e a construção do Porto de Morrinhos.
A proibição da pesca por dois anos, como pretende o governador, é uma medida extremamente reducionista que será no máximo paliativa. Reducionista porque a pesca não é o principal problema da redução do estoque pesqueiro de Mato Grosso e sim a poluição industrial, o volume de lixo nos rios que não pára de crescer, o despejo in natura do esgoto nos rios, que em Cuiabá chega a 80% do total produzido, e os agrotóxicos usados em lavouras que atingem o lençol freático ou vão para os rios levados pela chuva.
Além disso, a proibição total da pesca geraria um problema social gravíssimo, pois deixaria cerca de 4 mil pescadores desempregados. O governo deveria, pelo menos, indenizá-los e pagar seguro-desemprego durante a proibição. Mais interessante e eficiente seria se fossem buscados recursos para que fossem estimulados o tratamento de esgoto das cidades e o incremento da agricultura orgânica.
Outro ponto que precisa ser colocado em evidência é que com essa proibição está-se anunciando a morte da pesca profissional. É estranho que o governo não tenha anunciado essa preocupação com os peixes quanto do fechamento das comportas da Usina Hidrelétrica de Manso ou agora, como pode acontecer no Rio Paraguai se a navegação de comboios transportando soja se intensificar, caso haja a construção do Terminal Portuário de Morrinhos.
É triste que parte da tradição mato-grossense, os pescadores ribeirinhos, seja encarada como a vilã da história. E não é!
- ANDRÉ LUÍS ALVES, jornalista, Cuiabá
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