O LEITOR ESCREVE
Desastres ambientais
Segundo os mestres budistas, não há coincidência. Mas, a primeira delas, o que está ocorrendo com a Petrobras, ultimamente, traz sérias preocupações a brasileiros bem intencionados e que sempre viram nessa estatal um modelo, verdadeiro ícone da nacionalidade. Só para lembrar, a atual geração, a Petrobras foi criada no País por um projeto de autoria de um dos mais respeitados juristas da época, o então deputado Bilac Pinto. Pertencia ele à ala mais radical da direita, mas, nacionalista convicto, não hesitou em propor o monopólio estatal do petróleo, através da criação da Petrobras.
A resistência dos grupos internacionais ao nascimento de uma empresa que iria ser o símbolo da futura independência energética do País, provocou fortes reações e somente foi instituída com o grande clamor popular. Com saudade, recordo-me, ainda universitário, dos inflamados discursos dos grandes defensores da idéia nacionalista, sobretudo os produzidos nas gloriosas Arcadas da Faculdade de Direito da USP, em sessões públicas, com grande participação popular, sobretudo de jovens, operários e universitários.
Mas, hoje, sub-repticiamente, o governo, a pretexto de liberar ativos, faz a venda das ações utilizando uma forma diabólica para engodar: a possibilidade dos trabalhadores comprarem-nas utilizando parte do FGTS e, ao mesmo tempo, lançando as mesmas ações na Bolsa de Nova York. Comparando-se o que adquiriram os brasileiros e o que foi vendido fora do País, é significativo indício de que, brevemente, a Petrobras não será mais controlada por brasileiros e, com isso, o monopólio estatal do petróleo virará pó ou mera ficção.
Outra coincidência é que, às vésperas dessa mega operação financeira, ocorrem dois graves desastres ecológicos causados por derramamento de petróleo na Baía da Guanabara e em importantes afluentes paranaenses. Jornais empedernidos já culparam a ineficiência da empresa e de sua administração; os comentaristas do mesmo diapasão, vociferam que o Ministério Público deveria processar criminalmente os diretores da empresa poluidora; o Ministério do Meio Ambiente, sem mais nem menos, aplica uma multa equivalente a cem milhões de dólares, enquanto que a Secretaria do Meio Ambiente também tirava sua casquinha. Seria preferível que o governo FHC dissesse claramente, como faz Roberto Campos, que o monopólio do petróleo deve ser extinto, simplesmente. Procurem desmistificar usando melhores e mais engenhosas fórmulas. Ninguém, com o mínimo de formação intelectual e política, acredita nessa multa aplicada.
- JAYME VITA ROSO, advogado em São Paulo
Questão de Justiça
A cada dia que passa, fico mais intrigado de como funciona a Justiça em nosso País. Dias atrás foi publicada a morte de uma jornalista em São Paulo, pelo seu ex-namorado. O crime foi presenciado por testemunhas, o acusado se declarou culpado, tentou suicídio, teve sua prisão preventiva decretada e após tudo isso, foi se internar em uma clínica psiquiátrica de luxo, para se tratar dessa comoção toda. Está hospedado em uma suíte a R$ 550/dia, com direito a um enfermeiro particular para lhe servir as refeições.
Agora, fico imaginando o Zé Mané da Vila, que roubou uma galinha, é preso, alega que roubou por estar passando fome, seria possível imaginar que ele fosse encaminhado a uma bateria de exames clínicos e laboratoriais para comprovar sua real situação de subnutrição? E se comprovada, seria o caso de encaminhá-lo a uma clínica de recuperação nutricional e física? Claro que é utopia da minha parte imaginar isso acontecendo, mas em se tratando de justiça social, quando se confrontam duas classes sociais distintas, me dá a nítida impressão de dois pesos e duas medidas e uma delas sempre perde de longe.
- WALTER ABOU MURAD, biomédico, Londrina
Baixa nos juros?
Os juros que se pagam em um ano de cheque especial, demora-se 10 anos para ser recuperado no mesmo banco em aplicações. Se estivéssemos em local público e ouvíssemos a seguinte frase: Nossa, os juros baixaram!, Olha como está barato!. Com certeza seria obrigado a gritar: Pára, será que ninguém notou que tivemos um aumento de 120% no crédito? O Banco Central baixou de 75% para 45% o compulsório dos depósitos à vista e de 20% para zero nos depósitos a prazo, e os juros não baixaram proporcionalmente. Hoje, o mercado mudou e o crédito, tão guardado a sete chaves pelo gerente de ponta dos bancos, tornou-se motivo de manutenção de emprego. O gerente ou se porta bem ou está fora do mercado.
E mesmo assim, o crédito continua caro. Você, consumidor, sentiu a baixa dos juros proporcionalmente à injeção de recursos no mercado? (aumento de 120% na oferta). Hoje o Banco Central vem dizer que a taxa de juros de 140% a 150% ao ano no cheque especial está de bom tamanho, e que a redução é satisfatória. Somente para informar: 150% ao ano é somente 10 vezes e meio maior que uma aplicação de poupança e 8 vezes e meio que a do CDB. Ou seja, os juros que se pagam em um ano, demora-se 10 anos para retornar em aplicações no mesmo banco. O crédito pessoal está por volta de 60% a 110% ao ano, ou seja, numa média de 85% ao ano. O que se paga em um ano com garantias, demora 8 anos, aproximadamente, para receber. No mercado, chama-se a diferença entre a tomada de dinheiro à juros e o empréstimo de spread diferença muito boa para quem cobra, não?
Então, estão novamente em evidência os produtos dos bancos para estimular os lucros dos banqueiros (poupança, CDB, seguro, capitalizações e previdências privadas, etc.). A inadimplência Ó, diminuiu da tão falada percentagem de 9% para 3,80%. Poderia o mercado falar: o desconto de duplicatas está em 1,9% a 3% ao mês. E aí, eu pergunto, quem tem acesso a este crédito? Quais são as condições para tomar este recurso? É risco sacado? Pois o dono da duplicata só é analisado no 2º plano. Este juro é balizador de mercado? Falsa ilusão para o mercado financeiro, quando diz: Olha, os juros do financiamento de veículos estão entre 0,85% a 1,99%. Este procedimento é atípico, pois o objetivo do financiamento, além do lucro financeiro, estaria somado à venda do veículo novo. Queremos custos vivos e de acesso a todos.
- PAULO AFONSO RODRIGUES, assessor financeiro de Londrina
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