Eleições
Mas que absurdo é esse? Em que país estamos? Como não ficar indignado com o anúncio feito pelo desempregado Osmar de Angeli de vender o voto? O voto é coisa sagrada. Vender o voto constitui crime eleitoral e quem compra também está sujeito às mesmas penalidades. Tá certo que o Brasil passa por momento difícil, delicado (altos índices de desemprego, violência) mas não é com desespero e falta de bom senso que o trem é recolocado nos trilhos. Esse tipo de prática demagógica cai muito bem aos maus políticos. Figuras patéticas, cômicas, mas astutas. Sempre estão por perto em tempo de eleição. Viram o Zorro, defensores dos pobres e oprimidos, mas fazem o papel do Tonto. Defendem a moral, os bons costumes, a honradez, mas fazem de tudo para trocar o voto do eleitor por uma dentadura, uma promessa de emprego. Sem falar no característico corpo-a-corpo, é aquele blablablá com os adultos, potenciais eleitores, mas buscam as crianças, querem pegar, levantar, brincar, chegando a babar em algumas delas.
Como se vê, é preciso estar alerta com esse tipo de político. Muita asneira vai correr solta. Muita gente pintando o céu de preto e o mar de vermelho. Muita sujeira, trambicagem, amolação. E o eleitor? Ora, o eleitor tem que lembrar que urna não é penico. Caso contrário é o eterno retorno das más notícias: ‘‘políticos envolvidos com o tráfico de drogas’, ‘‘instalada mais uma CPI para aprovar desvio de dinheiro público’’, ‘‘cassação de mais um mandato político’’, e por aí vai.
- ANTONIO AZEVEDO, Santa Cruz de Monte Castelo
Tortura
No presente, o homem se faz através da posse da razão. Se as árvores e as bestas selvagens crescem, os homens moldam-se. Podemos demonstrar que não existe animal mais perigoso e mais selvagem do que um homem que atue por ambição, desejo, ira, inveja ou mau gênio. É por meio da razão que o homem é capaz de superar o seu estado natural. Estou de pleno acordo com o leitor de Goioerê, Sérgio Toreto, que escreveu repudiando o ato sanguinário do toureiro Manuel Diaz. Uma pessoa que ganha a vida à custo do sofrimento de pobres animais não pode ser considerado humano e sim uma besta sanguinária.
Presumo que esse toureiro seja humano e possuía a tal razão e se isso for verídico confirma-se a minha teoria. Pois, sendo homem, possuindo a razão, luta armado contra um pobre animal já estressado pelos urros insanos das outras bestas que estão na platéia assistindo ao sacrifício. O touro vai para a arena contra a vontade e totalmente desarmado. Adoraria ver esses e outros toureiros voarem pelos ares com a barriga furada pelos chifres do touro, sofrerem bastante, não serem socorridos para sentirem na pele o que o touro sofre. A imprensa também é culpada desses abusos porque publica, faz reportagens e as agências de viagem incentivam esse crime cruel. Vale o mesmo para qualquer pessoa que torture qualquer animal.
- NEUSA DEL CONTE, professora, Londrina
Heróis da existência
Após brigar a noite toda com o cachorro, por causa do latido insistente, alguns minutos para um cochilo, o despertador o convida ‘sutilmente’ para um novo dia. Tenta abrir os olhos para observar a hora, levanta num sobressalto. A disputa pelo banheiro é grande. A água do chuveiro não esquenta. O vaso sanitário mais uma vez entupiu. Abre o guarda-roupa e entre poucas escolhe a que vai usar. Vai à cozinha, derruba as panelas devido à desarrumação da louça lavada na noite anterior. O fogo é aceso, a geladeira aberta, o ovo e o tomate cuidadosamente retirados. Marmita pronta. Saída próxima.
Olha ao seu redor e percebe uma correria intensa. Seria algum assalto ou um prédio pegando fogo? Não. São pessoas correndo para disputar espaço nas paradas de ônibus, onde os coletivos vêm sempre lotados e fora de horário. Enfim, chega a lotação. Temos a impressão de que não cabe sequer mais uma pessoa. Todos estão atrasados e já que o motorista parou, vai ter que dar um jeito.
Chegando ao escritório não adianta esboçar o melhor sorriso antes de dizer bom dia ao chefe, pois a bronca é certa. Após justificativas e ânimos acalmados inicia o trabalho. Trabalho e mais trabalho. O estômago dói. Está quase na hora do almoço. Mas se lembra que é segunda-feira e que precisa ir ao banco, enfrentar filas para pagar água, luz e telefone.
A comida desce rapidamente, pois o tempo é curto. Retorna suado, cansado, disfarçando disposição para o reinício do trabalho, das broncas, dos telefonemas grosseiros de clientes. O ponteiro do relógio marca 17 horas e 57 minutos. Olhar atento para os três minutos passarem faz desses momentos uma eternidade. Enfim, hora de voltar para casa e dar início a mais uma jornada: a doméstica. Novamente o ônibus demora. Aperto, briga, trânsito, cansaço e fome. Trinta dias de trabalho e chega o dia tão esperado: pagamento. Resultado? Contas, contas e contas. Mera sobrevivência.
- ZENI MENEZES DE SOUZA GARCIA, professora, Londrina
Vocação
A palavra vocação, do latim ‘‘vocare’’, quer dizer chamado. Deus nos chama a vida e a sermos cristãos pelo batismo. Para viver o batismo temos várias escolhas. Através da vocação matrimonial, de vida religiosa, sacerdotal ou missionária. Vocação batismal não falta e a matrimonial também temos em grande número. A vocação missionária também está bem sobressalente e o aumento do diaconato permanente é um dos sintomas desse crescimento. A vocação religiosa e a sacerdotal precisam de atenção especial.
Acredita-se que a falta de resposta ao chamado reside no fato de o mundo ser materialista e ter esquecido de Deus. Apóia-se o fracasso e a ausência de vocações ao ditado evangélico: ‘‘muitos são os chamados e poucos os escolhidos’’, como se Deus fosse cretino ao ponto de chamar um número insuficiente de criaturas para anunciar e pôr em prática seu projeto de amor. Atribui a desistência às chantagens do mundo e, até mesmo, à atração humana pelo outro sexo. E por que, no caso de desistência, pensa-se apenas na condição do vocacionado? Como se a Igreja, a congregação, fossem isentas de responsabilidade.
Indo direto à questão, o problema não reside no vocacionado, mas na instituição que não se renova espiritualmente, tornando-se um ninho de neuroses, tamanhas contradições que apresentam internamente, suportadas pelos que ali estão através de remédios para pressão e coração. De modo que poderemos ter o mais santo vocacionado, jamais sobreviverá em tal ambiente.
Deus continua chamando e os jovens respondendo, até que podem. Não apontar caminhos de soluções seria injusto. Respostas prontas também não temos. Mas ao invés de a instituição ficar indiferente diante da saída de seus vocacionados, seria bom que lhes fosse dada a possibilidade de apresentar as razões profundas de sua saída. E que isso seja feito não apenas diante das quatro paredes da instituição religiosa, considerando que a acolhida é festiva e envolve toda a Igreja, paróquias, capelas. O que a desistência deveria também incluir. Dificilmente a Igreja, povo de Deus, fica sabendo as verdadeiras causas da desistência de um seminarista, padre ou freira. A partir daí, se poderia apontar as contradições institucionais internas e caminhar verso a uma reparação. Deus continua fazendo a sua parte. Nós é que devemos rever a nossa, e com urgência.
- PAULO SÉRGIO DE FARIA, professor, Curitiba
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