Mudança de mentalidade
Uma reportagem na TV mostrou uma menina de 12 anos, assistida por uma casa de apoio a crianças soropositivas no Rio de Janeiro, foi justamente com uma orientadora até um colégio particular para matricular-se na 3ª série do 1º grau. Com documentos e cheques prontos sobre a mesa, e, para seu espanto, a orientadora é chamada pela direção da escola para uma conversa reservada. Volta minutos após para junto da criança que a aguardava e para poupá-la do constrangimento, diz a ela que já não tem mais vaga nesta escola e que iriam procurar outra para matriculá-la e se retiram. Nitidamente, não foi bem isso que aconteceu.
Na realidade, a história foi outra: esta escola agiu de forma a não aceitar aquela criança como sua aluna, por ela ser portadora do vírus da Aids. Mas aí é que está outro grande problema, não o epidemiológico, mas o social. Apesar dos grandes esforços da ciência, para se chegar à cura efetiva, esta criança, além de ter de enfrentar a dúvida de uma perspectiva futura, enfrenta também o preconceito das pessoas, o que potencializa ainda mais o efeito da ação exercida pelo vírus, em detrimento do sistema de defesa do organismo e, o que é pior, um preconceito produzido, neste caso, por pessoas nitidamente despreparadas, que demonstram não saber discernir os perigos que podem existir no convívio diário com um soropositivo, que Aids não se adquire pelo vento, pelo olhar, pelo encostar, pelo brincar.
Falta informação. Já passou da hora de o governo agir de forma mais efetiva e educadora, com campanhas veiculadas por toda a mídia, para que os mais longínquos também a acessem. E torcer para que estas campanhas tenham pelo menos um nível razoável para instruir e educar, não como aquelas gafes como a campanha do ‘‘Bráulio’’.
- WALTER ABOU MURAD, biomédico em Londrina
Corrupção
Poucas vezes, na moderna história do Brasil, a imprensa colaborou tanto em advertir o povo das consequências funestas da corrupção como tem feito atualmente. E isso tem acontecido graças ao trabalho dedicado e eficiente de alguns membros do Ministério Público Federal. Ressalte-se ao ocorrência com o desvio de verbas na construção do prédio do TRT de São Paulo. Algumas reflexões são necessárias sobre esse fato, os desdobramentos e o interesse público.
O fato em si já é conhecido. Entretanto, precisa ser um pouco mais esmiuçado, no que se refere à tramitação das verbas que foram passadas às construtoras e solicitadas pela presidência do TRT de São Paulo. Já se sabe que existiram irregularidades na aplicação das verbas nas obras, na concessão de verbas suplementares e no acompanhamento das edificações. O que não se tem questionado, sendo indispensável que se faça, agora, para não se perder a grande oportunidade, é a determinação da responsabilidade de todos os agentes que participaram do processo de lobby, na fiscalização contábil e financeira dos valores recebidos, no acompanhamento do contrato, na sua auditoria, nas próprias obras e seu desenvolvimento e, sobretudo, no destino dado ao dinheiro público.
É preciso que o Ministério Público, desta vez, conte com a boa vontade do Banco Central, do Tribunal de Contas da União e da Justiça Federal, para esquadrinhar todos os escaninhos e meandros desse labirinto, que foi montado para desviar valores que se destinavam a minorar a crise permanente por que passa a execução da Justiça do Trabalho, no Estado de São Paulo. É inconcebível que os processos demorem cinco ou seis anos para serem julgados. A eficiência dos trabalhos depende, também, da adequação dos locais onde a justiça é praticada.
É preciso que todos se unam para a preservação e conscientização da indispensável conduta ilibada da maioria dos magistrados, a fim de que todos eles, inclusive os funcionários, pagos com o dinheiro dos contribuintes e, principalmente, com o que é extorquido, até mesmo dos mais miseráveis, a título de impostos, deixem de viver como se estivéssemos no reino encantado das fadas e não numa sociedade pobre, estigmatizada pela deficiência de escolas, hospitais, saneamento e segurança.
- JAYME VITA ROSO, advogado, São Paulo
Gaiola
Na cidade de Nijni Novgorod, terceira maior da Rússia, o povo, frustrado com a Polícia, resolveu fazer justiça com as próprias mãos. Confeccionaram várias gaiolas de ferro, e a cada escândalo e roubo colocam os maus políticos e ladrões dentro das gaiolas em praça pública onde a execração pública dura um dia. Ali todos podem tirar sua casquinha, descontar sua raiva. Virou uma atração popular zombar dos engaiolados que são conduzidos com coleiras de cachorro. Que bom se a moda pegasse por aqui. Só que infelizmente faltaria gaiola para acomodar tanta gente, principalmente os que roubam o dinheiro do povo.
- JOSÉ PEDRO NAISSER, Curitiba
Criminalidade
Nas últimas semanas, o Brasil está envolvido numa ampla campanha contra a criminalidade. O principal motivo desse barulho todo não é o aumento da violência, mesmo que tenha ocorrido, mas a ampliação de seu raio de ação. O crime rompeu o círculo restrito da favela e da periferia e invadiu definitivamente a vida da classe média e alta. Os assaltos a condomínios de luxo tornaram-se frequentes e os sequestros-relâmpago, atrás do dinheiro dos caixas eletrônicos, tornou-se o pavor do momento.
Não bastasse isso, a lista dos bandidos mais procurados passou a contar com juízes, banqueiros, policiais e empresários, desbancando do seu topo os assassinos e traficantes. Todos os padadigmas foram rompidos. Todos os limites que mantinham o cidadão comum envolto numa ilusão mínima de decência e segurança desabaram.
Mas parece que existe uma luz no fim do túnel. Provavelmente engajado no grande esforço do governo em se atrelar (atrasado, como sempre) aos clamores da opinião pública e às iniciativas populares, o eminente ministro da Justiça, José Gregori, indagado sobre o fracasso na busca e prisão do juiz Nicolau Lalau, nos deu uma pista do que talvez seja o verdadeiro plano do governo. Sua resposta foi que a Polícia Federal está esperando o juiz megaladrão ‘‘cansar’’ para então prendê-lo.
Pronto! Está explicado. A partir de agora, todos podemos dormir mais tranquilos porque o fim da carreira criminosa dos bandidos brasileiros está decretada. Basta apenas esperar que eles se cansem de sua trajetória de delinquência, batam na porta da delegacia mais próxima e se entreguem. Caso isso não aconteça, ainda assim a versão do ministro para a velha frase ‘‘a longo prazo, todos estaremos mortos’’ ainda funcionará a nosso favor. Se o criminoso não se cansar a ponto de entregar-se, certamente ele encerrará sua carreira criminosa por causa de uma bala na cabeça disparada por um outro criminoso traído, ou se aposentará, ou morrerá de velhice. É só esperar tempo suficiente e todos os problemas com falta de segurança estarão resolvidos. Só falta o eminente ministro nos dizer o que as pessoas de bem devem fazer contra a violência, enquanto esperam. Um resposta honesta seria: ‘‘Provavelmente, morram’’.
- KLEBER BOELTER, empresário, Porto Alegre
Correção
Foto da página 2 utilizada em ‘‘O que foi dito’’ de ontem é do senador José Eduardo Arruda (PMDB-SE) e não do ex-secretário Eduardo Jorge, como aponta a legenda. Foto da página 5, identificada como sendo do ex-governador do Sergipe João Alves Filho, é do ex-deputado João Alves.
- As cartas devem ser datilografadas e assinadas e vir acompanhadas da fotocópia de documento de identidade, endereço e telefone para contato e profissão/ocupação do remetente. O jornal poderá resumi-las conforme disponibilidade de espaço. Correspondência via Internet deve conter: nome completo, cidade de origem, telefone, documento de identidade e endereço eletrônico e profissão/ocupação. E-mail da Folha de Londrina/Folha do Paraná: [email protected]

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