Geadas (1)
Sabemos que em nossa vida nada é fácil, mas quando lutamos e buscamos nossos ideais, com certeza chegaremos ao ponto almejado. Pensando nisso é que os cafeicultores da região devem encarar as terríveis e irreparáveis perdas ocorridas na lavoura com as constantes geadas dos últimos dias. Todos nós, que estamos no ramo da cafeicultura, sabemos como é difícil chegar de manhã em uma lavoura e vê-la toda queimada, e saber que todo aquele esforço que tivemos caiu por água (ou melhor, geada) abaixo. E pensar que a lavoura que prometia frutos para o ano seguinte agora não passa de uma árvore com folhas secas. Somente quem é produtor, nasceu e cresceu na cafeicultura sabe como dói ver aquelas cenas.
Mas não devemos nos abater como vários produtores se abateram em 1975, quando a geada preta destruiu a cafeicultura do Paraná, até então o maior produtor do País, quando a cultura andou vários anos esquecida em nosso Estado. Devem agora os produtores que confiam e sentem prazer com a cultura não abaixar a cabeça e ficar calculando perdas. Devemos encarar de frente, buscando assim recuperar aquilo que o frio destruiu, tendo certeza que não perdemos o nosso café, apenas adiamos por mais um ano a sua maior produção de frutos dos últimos 25 anos no Paraná.
Da mesma forma, as entidades que de alguns anos para cá vêm dando força à volta da cultura no Estado, devem manter a mesma ajuda que vinham prestando aos nossos cafeicultores, para que somente assim, juntamente com os produtores, possamos realizar o nosso sonho de fazer com que o Paraná volte a ser o ‘‘celeiro nacional do café.’’
- JOSÉ ANTONIO BONI, corretor de cereais em Santa Cruz do Monte Castelo
Geadas (2)
Já se passaram 25 anos desde a grande geada negra. Me lembro bem daquela noite, pois estava em serviço na guarda do quartel do Exército ao qual eu servia no Estado de São Paulo. Mas no auge da minha juventude – não tão inconsequente – não me dei conta dos malefícios que aquela mudança brusca de temperatura acarretaria na vida das pessoas. Lendo a Folha do último dia 23, deparei com uma reportagem com histórias reais de pessoas que tiveram suas vidas mudadas bruscamente, em decorrência daquela fatídica noite.
Pessoas que até então tinham investido seu tempo, dinheiro e trabalho nos cafezais e outras culturas, em suas propriedades, na esperança de uma colheita próspera e abundante. São pessoas que perderam não só suas propriedades rurais, pela ganância e selvageria de um sistema, em consequência do não pagamento de suas dívidas do financiamento bancário. São cidadãos que se viram obrigadas a tomar rumos desconhecidos em suas vidas, para conseguir sobreviver.
Alguns exemplos citados na referida reportagem são de cortar o coração. Retratam bem a falta de uma política de securidade social mais humana e mais abrangente, que olhasse casos como esses, de pessoas que até hoje não conseguiram se aposentar, que para vender seus produtos de porta em porta, precisam aos mais de 70 anos de vida, caminhar até 18 km e perceber ao final do mês, cem reais, menos que o menor dos salários.
Num final de século, em que as estatísticas demonstram que já não somos um país de maioria jovem, temos que começar a ensaiar mudanças para proporcionar aos nossos ‘‘velhos’’, o conforto e respeito a que tem direito, pois se ainda não percebemos, a memória da nossa real história está com eles – e somente eles que a poderão contar.
- WALTER ABOU MURAD, biomédico, Londrina
Programa Saúde da Família
Entra governo e sai governo, é colocado em pauta a discussão sobre a saúde da comunidade. Embora o assunto seja tese de alunos de graduação, pós-graduação e técnicos municipais e estaduais, a comunidade sempre assume papel secundário. Claro, reconhecemos que a situação melhorou nos últimos anos por causa das leis que criaram o Sistema Único de Saúde e estabeleceram o tal do controle social. No entanto, a decisão de investir neste ou naquele programa ainda depende da vontade do prefeito de plantão.
Nos últimos anos, o Ministério da Saúde tem incentivado os municípios brasileiros a investir na reestruturação do serviço básico de saúde com a implantação de programas como o Saúde da Família (PSF). Mais que incentivo o PSF é uma alternativa para a saúde pública, frente ao caos do setor: desvio de recursos, prioridades duvidosas e gestores incompetentes. As equipes do PSF são a garantia de acesso da população aos serviços básicos já que os profissionais atuam diretamente na comunidade.
Não é à toa que Londrina sedia nos próximo final de semana a Mostra de Saúde da Família paralelamente ao 1º Encontro Paranaense de Saúde Coletiva. Mais que modismo, o programa é uma proposta viável defendida inclusive pela academia (universidades) que historicamente tem um papel de ‘‘pensadora’’, por vezes distante quilômetros da realidade.
A implantação do PSF passa necessariamente pela reorganização dos serviços oferecidos pelas unidades básicas de saúde. É preciso repensar a atuação dos profissionais dos postos de saúde que, hoje, estão centrados principalmente em procedimentos curativos no chamado modelo medicocêntrico em que tudo gira em torno do umbigo do médico. Com o PSF, a equipe do posto deve avançar na promoção da saúde comunitária incrementando e valorizando a atuação de cada integrante da equipe.
O PSF é uma medida eficaz e barata se comparada com o modelo que privilegia a doença. Além disso, a população pode acompanhar e ajudar a planejar as ações de promoção da saúde que serão organizadas em benefício dela própria, melhorando assim a qualidade de vida de crianças, adolescentes, adultos e idosos. Londrina foi um dos primeiros municípios brasileiros a implantar o PSF, que começou na região rural, em 1995. O programa que poderia ter sido estendido a outras regiões da cidade, inclusive a zona urbana ficou limitada aos distritos iniciais. Os médicos que moravam no distrito, hoje moram na cidade e cumprem uma carga horária de oito horas diárias com agenda dentro e fora do posto de saúde. A atual administração não avançou na proposta mesmo com os inúmeros apelos comunitários.
Enquanto em Londrina o PSF não avança, municípios vizinhos estão a todo vapor. Para se ter uma idéia, somente Cambé, Ibiporã, Apucarana, Arapongas e Maringá estão implantando cerca de 125 equipes. Cada equipe atende 3,5 mil pessoas, beneficiando no total cerca de 437.500 pessoas. Seja por causa do incentivo do ministério ou por preocupação com a saúde comunitária, esses municípios dão um exemplo que pode – e deve – ser seguido.
- NELSON CARDOSO, presidente do Conselho de Saúde da Região Sul de Londrina
- As cartas devem ser datilografadas e assinadas e vir acompanhadas da fotocópia de documento de identidade, endereço e telefone para contato e profissão/ocupação do remetente. O jornal poderá resumi-las conforme disponibilidade de espaço. Correspondência via Internet deve conter: nome completo, cidade de origem, telefone, documento de identidade e endereço eletrônico e profissão/ocupação. E-mail da Folha de Londrina/Folha do Paraná: [email protected]

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