O leitor escreve
Além do indivíduo
Um dia desses, em uma das minhas andanças pelo Paraná, um candidato a vereador por um pequeno município me disse algo sobre o qual vale a pena refletir. Aqui na nossa cidade ninguém sabe praticamente a que partido os políticos locais pertencem. O partido tanto faz, todos votam nas pessoas e não nos partidos. Este raciocínio seria válido se o mundo fosse simples como a quase totalidade das nossas ações cotidianas. O meio em que a maioria das pessoas vivem, sobretudo nas cidades do interior, é um convite a pensar o mundo de um modo simples. Todos se conhecem e a rotina da vida não precisa de intrincadas análises para ser compreendida.
Entretanto, esta simplicidade é aparente. Basta ligar o rádio ou a televisão ou ainda ler um jornal qualquer para se perceber que por trás das ações normais, com as quais estamos acostumados, esconde-se uma infinidade de segundas atenções a passar quase imperceptiveis por nós. Eu disse imperceptíveis. De fato, nosso comportamento, que à primeira vista se reveste de um caráter pouco complexo, é burilado pelas informações obtidas através da convivência com outras pessoas ou por intermédio de algum meio de comunicação.
Assim também acontece com a política no Brasil. Poucas as pessoas que gostam ou suportam falar dela. Mas todos sofremos as consequências das decisões tomadas a partir dela. Gostemos da política ou não, nossa vida está amarrada a ela. É ela quem dita as normas sobre os preços dos produtos, o valor do salário, as relações entre empregados e patrões e assim por diante. Não é exagero dizer que o nosso dia-a-dia, em todos os setores, vive em função de decisões políticas tomadas.
Mas quem as toma? Como isso se dá? Nosso equívoco reside na idéia de que os políticos somente defendem o próprio bolso. Claro que isso acontece e muito. Mas é preciso lembrar que eles são movidos por maneiras de pensar o mundo a partir das concepções de seus partidos (inclusive aqueles que enchem os bolsos). Através de ações legislativas e do Executivo eles destilam as concepções dos partidos no cotidiano das pessoas que, aos poucos, ou porque não tem outro jeito, as incorporam.
Nem sempre é fácil identificar isso. Mas o certo é que todos os políticos implantam seu modo de ser e de ver as coisas na sociedade, às vezes até mesmo sem que eles mesmos tenham plena consciência disso. Infelizmente a nossa cultura não ajuda a desenvolver um grau de percepção capaz de levar as pessoas além da barreira do analfabetismo político. Quadro este inteiramente favorável à manutenção do poder por quem o ocupa e que faz questão de ocultar os princípios partidários, em geral contrários aos interesses da maioria.
- PADRE ROQUE ZIMMERMANN, deputado federal pelo PT-PR
Confisco
Ainda hoje, acusam Fernando Collor de haver confiscado a poupança. E o próprio o confessa e se diz arrependido. Entretanto, o que houve foi uma indisponibilidade por tempo certo, exaurido o qual todos readquirimos a faculdade de sacar, com juros e correção monetária. Uma vez que a esmagadora não costuma sacar já que é poupança mas depositar, quase ninguém se sentiu molestado pela medida.
Prejuízo e grande foi o que resultou da súbita e excessiva desvalorização do Real, criminosamente feita, no início de 1999, por um governo cujos membros poupam em dólar e que muito lucraram, com uma providência arbitrária e inútil para a economia do Brasil, ao mesmo tempo em que de defeitos arrasadores para a economia dos milhões de desgraçados sem negócios, interesses e/ou contas bancárias no exterior.
O rombo é irrecuperável e traiçoeiro teve a exata dimensão da desvalorização da moeda nacional, uma vez que todos os preços e valores por aqui se calculam com base no dólar. E o sangramento continua, por via de uma inflação escamoteada e dos rendimentos de zero vírgula, que fazem a festa do sistema financeiro, campeão mundial de usura consentida.
- ALCINDO NOLETO RODRIGUES, juiz federal aposentado, Brasília
Recuperadoras
Morar em grandes centros urbanos como no eixo Rio-São Paulo transformou-se em uma grande aventura. Os números da violência se incorporaram aos nossos outros índices diários. E se tornaram apenas mais uma estimativa. Difícil apontar, hoje em dia, quem nunca teve ser veículo roubado ou furtado. De tão comum, esse fato já não merece mais manchetes nos jornais. Mas, se ter o carro roubado é um transtorno, em muitos casos, pior é encontrá-lo. E não estamos falando apenas do estado do veículo, mas também, e sobretudo, da burocracia que envolve todo o processo de reintegração de posse.
O volume de inconvenientes gerado pelo sistema convencional de liberação de veículos roubados fez com que várias seguradoras recorressem às recuperadoras, consideradas uma maneira prática e eficaz de reaver o bem. Porém, infelizmente para os empresários que trabalham com idoneidade, a imagem que se tem deste segmento não é das melhores. A presença de indivíduos com interesses escusos denigre a imagem de quem trabalha com seriedade.
A atuação de empresas sérias é necessária e útil. Hoje em dia, a maioria das seguradores não dispensa os serviços das empresas de vistoria prévia com o objetivo de levantar a procedência do veículo segurado e de recuperação. Quanto ao grande número de empresas não confiáveis, o Estado também tem sua parcela de culpa. A proliferação de falsas recuperadoras se deve ao descaso dos legisladores, que nunca se mobilizaram para regulamentar esse trabalho.
A maior parte dos veículos roubados no eixo Rio-São Paulo que retornam ao mercado são comercializados em outros Estados, onde a procura por veículos é maior que a demanda. Mas a distância não é o único percalço para reaver o bem. Quando a Polícia realiza a localização, em geral não informa sobre as condições do veículo. Em outras palavras, depois de o proprietário vencer as distâncias, pode encontrar apenas sucata. As recuperadoras sérias costumam comunicar as condições do veículo. As que agem honestamente têm todo interesse em entregar o bem no melhor estado possível. E não de trata de filantropia. É uma relação comercial. E honesta.
- MARCO ANTONIO DE LUCCA, São Paulo
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