Saúde pública
Carta aberta ao ministro da Saúde, José Serra: venho por meio desta manifestar meu inconformismo com as tramas que vêm sendo urdidas para extinguir a Fundação Nacional de Saúde (FNS). A descentralização dos serviços de Saúde é a arma que tem sido brandida para que se acabe de vez com a FNS. É lamentável que se faça a descentralização do controle das chamadas grandes endemias (malária, esquistossomose e doença de Chagas, entre outras) de forma tão inconsequente. Com alguma experiência na área não acredito que seja o bastante passar o bastão aos Estados e municípios. Com certeza, a maioria deles não tem pessoal preparado para lidar com as endemias e não tem também o mínimo interesse em prepará-los.
É verdade que a FNS tem seus pecados porque a maioria dos seus funcionários, sobretudo os administrativos, não têm formação condizente com a função que ocupa, mas ainda assim seus recursos humanos não podem ser menosprezados. As informações e o conhecimento que os agentes de saúde da FNS têm do território brasileiro são por demais abrangentes e preciosos para serem dispersados e passados para o controle de secretários de Saúde (de Estados e municípios), despreparados e absolutamente ignorantes no tocante ao assunto saúde pública. As diretorias estaduais da FNS estão em mãos erradas, pois se fossem bem orientadas seus funcionários dariam um auxílio valioso aos serviços de saúde dos Estados e municípios.
É uma pena sr. ministro, que diante das falhas da FNS, ao invés da correção de rumos, Vossa Senhoria venha a cometer a loucura (aliás, já vem cometendo) de delegar às prefeituras o controle das endemias. O resultado desta medida será com certeza um desastre, pois a perda de informações sobre as endemias no Brasil poderá comprometer todo o trabalho realizado no passado e corremos o risco de virmos a ter um retrocesso no controle das grandes endemias, a exemplo da febre amarela. O desmantelamento da FNS deixará um vácuo que os Estados e municípios tão cedo não preencherão, pois não têm competência técnica e muito menos vontade política para tanto.
- UESLEI TEODORO, professor universitário, Maringá
Natureza humana
Era uma vez... Faz muitos e muitos anos, na Alemanha uma pequena cidade chamada Bremen não conseguia crescer. As terras em volta da cidade pertenciam a uma baronesa avarenta e sem herdeiros. Entravam e saíam prefeitos tentando convencer, sem sucesso, a cessão das terras para a cidade. Até que um dia a baronesa, já bem velha, resolveu fazer um trato: daria para a cidade todas as terras que uma pessoa de sua escolha pudesse percorrer em um dia. A pessoa escolhida pela baronesa foi um mendigo aleijado: eu.
Até então ninguém ligava para mim, eu vivia me arrastando por aí, dependendo de piedade. Acharam que o trato da baronesa era uma brincadeira de mau gosto – o que podia o aleijado conquistar para a cidade? Chegou a hora do desafio, o pessoal ria e fazia apostas. Me fizeram seguir o guia que mostrava o caminho. Eu andava com as minhas mãos fortes e puxava meu corpo, deixando um rastro para trás. A multidão barulhenta que acompanhava crescia. No decorrer do trajeto, guias ficavam cansados e eram substituídos por novos guias. A baronesa observando de uma carruagem ficou cada vez mais preocupada. O cortejo seguia, camponeses paravam de trabalhar, o sol ardia, minhas mãos doíam. O barulho da torcida em volta de mim foi ficando mais fraco em meus ouvidos, os latidos dos cachorros, a baronesa agora seguindo a pé, o prefeito, a poeira... Qual o sentido disso tudo? A visão que eu sempre tive do mundo, mudou de repente. Minha sensação passou a ser de voar, meu corpo não estava mais me incomodando. A alegria do povo que gritava: ‘‘Você conseguiu todas as terras da baronesa!’’ soava como um riacho calmo. Feliz pela missão cumprida, morri de exausatão.
Em homenagem ao meu feito esculpiram meu rosto e minhas mãos aos pés da estátua do patrono da cidade – o guerreiro Roland. Alguns século depois, Bremen ganhou uma cidade irmã, Rolândia, do outro lado do mundo e mandou para essa, como presente, uma réplica da estátua de seu patrono. Nessa réplica também pode se ver meu rosto e minhas mãos aos pés do guerreiro Roland. Minha história está esquecida. Escultores vieram da Alemanha para restaurar a estátua e contaram aos curiosos a lenda do meu feito. A minha história é redescoberta num lugar distante onde a terra é vermelha e onde crianças, com seus pés sujos, sobem escondidas na estátua do Roland. A imagem do meu rosto e minhas mãos lembram o poder da natureza humana. Venha me conhecer.
- DANIEL STEIDLE, Rolândia
Profissionalização
O grande discurso que sobressai na atualidade passa necessariamente pelas relações humanas, administração científica e profissionalização das pessoas. Estas três esferas perpassam ideologias, resistência, cultura e estrutura empresarial. Porém, bastam uma ponta de cigarro no chão, uma casca de laranja na floreira ou uma roupa manchada que se agrega ao corpo de um agente de saúde para romper ampla cadeia de conceitos e imagens organizacionais construídos ao longo de anos ou até de décadas.
Quem adentra uma instituição de saúde, enfermo e acompanhante, visitante e trabalhador, de imediato constrói uma série de projeções a partir do que enxerga, ouve e sente na relação interpessoal. Ao mesmo tempo, centenas de operações se processam na mente, e são elas que vão gerar, ou não, segurança, confiabilidade, opiniões favoráveis, conceitos duradouros.
O risco na parede, as pegadas de sapatos molhados, o relacionamento entre as pessoas transpassam os conhecimentos adquiridos anteriormente. Os sentidos estão permanentemente secretariando um jogo de linguagem visual e auditiva, lembrando sempre que a primeira coisa que fica gravada na mente é a percepção da realidade, ou seja, o corpo sente, associa e atribui valores àquilo que capta no chão, no ar, na água.
Vale dizer que a unidade mínima da construção de uma parede hospitalar é o tijolo e a menor partícula na formulação de imagens é o sinal captado. Na sequência, as pessoas exploram o imaginário, utilizando os sentidos e tudo que está arquivado na memória. A construção da imagem institucional feita a partir de linguagens adquiridas, consumidas, comunicadas, produzidas, exibidas ou vendidas.
Portanto, a profissionalização do ambiente passa por contínuas avaliações e encarnações de oportunidade que geram bem-estar e estimulação de troca de resultados positivos ou negativos. Quanto maior o equilíbrio entre a base racional e a satisfação emocional, maior será a motivação, preferência e garantia de qualidade do serviço prestado.
- Irmã LOURDES MARGARIDA THOMÉ, diretora superintendente do Hospital Nossa Senhora da Graças, Curitiba
Poesia
A publicação do livro ‘‘12 – Antologia de Poetas Londrinenses’’ chega para preencher um vazio enorme na literatura da cidade. Parece, também, que a seleção foi perfeita, representanto nossos melhores poetas, apenas deixando de lado nomes expressivos como Nilson Monteiro e Hugo Ramírez. É de se louvar a iniciativa de pessoas como Cristine Vianna, essa batalhadora cultural que me muito nos ajudou no conhecimento da obra de Mário Bortolotto. Em ‘‘12’’ aparecem gratas surpresas como Carlos Ribeiro e Neuza Pinheiro, com o ápice ocorrendo nos poemas de Marcos Losnak. Agora, nós professores, precisamos auxiliar na divulgação de ‘‘12’’ para que os estudantes de Londrina saibam quem são nossos escritores mais representativos.
- ROSANA ALVES DE BARROS, professora de Literatura, Londrina
- As cartas devem ser datilografadas e assinadas e vir acompanhadas da fotocópia de documento de identidade, endereço e telefone para contato e profissão/ocupação do remetente. O jornal poderá resumi-las conforme disponibilidade de espaço. Correspondência via Internet deve conter: nome completo, cidade de origem, telefone, documento de identidade e endereço eletrônico e profissão/ocupação. E-mail da Folha de Londrina/Folha do Paraná: [email protected]

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