O leitor escreve





Chuvas
O drama das chuvas, causando as grandes enchentes nas cidades grandes, tem sido um dos mais complexos problemas da vida urbana atual. Em megalópoles como Rio e São Paulo, a cada ano parece que as águas chegam com mais intensidade, provocando sérios estragos, deixando mais desabrigados e castigando com maior força a população, que já sofre com tantas outras dificuldades, como o desemprego, a poluição, o trânsito caótico, a violência.
Os poderes públicos decretam estado de calamidade, recorrem às ações de solidariedade (doação de alimento e mantimento) e evidenciam uma espécie de impotência, aquele não-saber-o-que-fazer para evitar o pior. Instituições sociais, como igrejas e ONGs, parecem ter mais eficácia do que os órgãos governamentais, no atendimento aos flagelados. Vamos assistindo, aos poucos, o Estado perdendo a força de atuação e não conseguindo mais cumprir com suas finalidades sociais básicas, que é o de garantir o mínimo de dignidade à população.
Diante desse quadro de caos social, não podemos ficar omissos e indiferentes. Temos que reagir e cobrar não só do governo, mas de toda a sociedade civil livremente organizada, ações concretas para minimizar o sofrimento do povo, em todos os aspectos. Se formos observar mais atentamente, o problema não são as chuvas, mas a forma como optamos por um modelo urbano que não prioriza o bem-estar humano, mas sim a lógica da mentalidade bastante imediatista.
São Paulo, por exemplo. A cidade cresceu de forma desordenada, sem um macro planejamento. Ao invés de se ter incentivado a ferrovia, que evitaria um trânsito tão congestionado, e poluiria menos, os grandes empresários resolveram investir no automóvel. Para isso os governantes não mediram esforços em estimular a construção de rodovias. Entretanto, muito asfalto na cidade acaba aquecendo-a de forma anormal e dificulta a respiração da terra, e a melhor absorção das águas da chuva. Se tivéssemos um complexo ferroviário e metroviário na maior cidade da América Latina, certamente teríamos resolvido três problemas urbanos graves: poluição, trânsito e enchentes.
As soluções existem sim. O que falta é vontade política para torná-las realidade. Esperemos que as eleições de 2000 sejam um tempo favorável para uma maior conscientização dos verdadeiros valores da cidadania. Temos o dever de escolher governantes comprometidos com a dignidade da vida e que tenham verdadeiro espírito cívico. Votando bem, poderemos garantir, para daqui um futuro próximo, que as águas da chuva não sejam motivo de tragédia, mas de poesia.
- VALMOR BOLAN, sociólogo, São Caetano do Sul
MST
Na edição de 1º de fevereiro, a Folha publicou o artigo ‘‘MST, guerrilheiros, lei e religião’’ de autoria do padre João Caruana, pároco de uma igreja em Sarandi (PR), no qual aquele prelado tece críticas a artigos publicados neste jornal por Joel Samways Neto (dia 19 de janeiro) e, a 22 do mesmo mês, por Francisco Luiz Prando Galli e Maria Lucia Victor Barbosa, todos discordando das formas de atuação do MST.
Pergunto ao distinto representante da Igreja: desde quando a invasão de propriedade particular, a expulsão dos empregados que ali ganham o pão com o suor do seu rosto, o abate de gado e mesmo a sua venda irregular, bem como o desvio (para não dizer furto) de insumos e implementos agrícolas caracteriza ‘‘um movimento popular visando a implantar a reforma agrária’’ e ‘‘configura direito coletivo, expressão da cidadania’’ e mesmo ‘‘pressão popular’’? Não seria muito forte intitular tais atos de ‘‘protesto cívico’’?
Uma outra pergunta à qual, quem sabe, o pároco poderia responder e, assim, sanar uma dúvida que assalta não poucos patrícios: qual a razão de o MST não registrar-se como uma organização, uma entidade de direito público? Por outro lado, as mesmas autoridades que o padre Caruana critica de forma tão acerba, são as mesmas que cedem às imposições dos invasores de terra e lhes fornecem cestas básicas (que exigem escolas e assistência médica das prefeituras) e que terminam por sair do bolso de cada um de nós, queiramos ou não.
O nosso reverendo bem sabe (ou deveria saber) da orientação aos sem-terra de que procurem invadir áreas servidas por rodovias, dispondo de energia e de outras facilidades. Seria o caso de lembrar-nos todos de que a conquista do Norte do Paraná não foi feita por pessoas a espera dos favores do Estado e seguirmos o seu exemplo.
- OSMAR JOSÉ DE BARROS RIBEIRO, Londrina
Rapinagem
Venho me solidarizar com algumas notícias publicadas e relembrar o que vem passando o cidadão paranaense, dentre muitos fatos que acontecem e infelizmente continuarão a acontecer no Paraná. Sobre os contratos de criação do pedágio, como citado na entrevista do deputado Nereu Moura: esses contratos já deveriam ter sido anulados, pois as concessionárias não estão cumprindo o que foi acordado. Para citar um exemplo do absurdo que é toda esta história, temos a praça de Jataizinho onde, saindo de Londrina em direção a Assaí e demais cidades após aquele trecho, percebemos a má conservação das estradas. Afinal, a concessão é do trecho Londrina-Cornélio Procópio-Andirá; portanto, a praça do pedágio deveria ser colocada após o trevo de Jataizinho-Assaí.
Sobre a criação da Lei de Responsabilidade Fiscal, o que deveria ser feito é uma adequação do Código Penal no capítulo que trata dos crimes contra a administração pública, punindo criminalmente também os políticos que se apoderam constantemente do dinheiro dos cofres públicos e a eles não acontece nada, ao invés de se criar uma lei que corre o risco de ‘‘não pegar’’ como foi brilhantemente citado pelo advogado Roberto de Mello Severo. Este ainda acrescenta que é um absurdo ter que se criar uma lei para conter a rapinagem dos administradores, que, aliás, são muito bem remunerados pelo cidadão que representam.
Mais essencial ainda é aplicar as leis já existentes, e não mantermos a tão conhecida impunidade. Refresco a memória do cidadão e da classe dos advogados paranaenses, sobre o cancelamento do convênio da advocacia dativa ocorrido poucos dias após a eleição do nosso governador. Isso teve como consequência não só o abandono das pessoas necessitadas (mais uma vez), mas também um aumento nas dificuldades que nós advogados em início de carreira temos ante a divulgação de nosso trabalho. Afinal, temos um Código de Ética a seguir.
- MARCELO LARANJO QUADROS, advogado, Londrina
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